Capítulo 2

1423 Words
Capítulo 2 — Verdade atravessada Narração: Maria O silêncio daquela casa sempre me incomodou, mas naquele dia ele parecia diferente, mais pesado, mais carregado de coisa engasgada, como se cada parede estivesse guardando respostas que ninguém nunca quis me dar, e eu já estava cansada demais de fingir que isso não me afetava, cansada de aceitar meia verdade como se fosse suficiente, cansada de viver uma vida onde sempre existia um pedaço faltando que ninguém se dava ao trabalho de completar. Minha mãe estava na cozinha, mexendo em alguma coisa que claramente não precisava de tanta atenção assim, porque o jeito como ela batia os utensílios na pia dizia mais sobre o nervoso dela do que qualquer palavra, e eu conhecia aquele comportamento melhor do que qualquer outra pessoa, porque cresci vendo ela fugir de assunto, cortar conversa e transformar silêncio em resposta sempre que o tema chegava perto demais do passado. Encostei no batente da porta sem fazer questão nenhuma de esconder minha presença, observando cada movimento dela com a calma de quem já tinha tomado uma decisão e só estava esperando o momento certo de jogar aquilo na mesa, porque dessa vez eu não ia pedir explicação com cuidado, não ia escolher palavra pra não magoar, não ia recuar quando ela tentasse encerrar tudo como sempre fez. — Eu vou pro Brasil — falei, direto, deixando a frase cair no meio da cozinha como um peso que não tinha como ser ignorado. Ela parou na mesma hora, ficando de costas por um segundo que pareceu longo demais, como se estivesse tentando decidir qual reação tomar, e quando virou pra me olhar, eu vi exatamente o que esperava encontrar: tensão, preocupação e aquela resistência que já virou padrão quando o assunto envolve algo que ela não quer tocar. — Você não tá entendendo o que eu tô te falando, Maria — respondeu, firme, tentando manter o controle. — Não tem nada pra você lá. Eu soltei um riso curto, mais de irritação do que de humor, porque aquela resposta já estava tão repetida que parecia automática, como se fosse uma frase pronta que ela usava sempre que queria encerrar o assunto sem precisar se explicar. — Tem sim — retruquei, sem desviar o olhar. — Tem o meu pai. O jeito como eu falei fez o clima mudar na hora, porque não era só uma palavra qualquer, era o ponto que ela sempre tentou evitar, o nome que nunca foi dito direito, a história que sempre ficou pela metade, e pela forma como ela reagiu, eu soube que tinha acertado exatamente onde precisava. — Seu pai fez a escolha dele — disse, endurecendo o tom como se aquilo fosse suficiente pra encerrar tudo. Eu dei um passo à frente, diminuindo o espaço entre a gente, porque não era aquilo que eu queria ouvir, nunca foi, e dessa vez eu não ia aceitar resposta vaga. — Então me explica qual foi essa escolha — rebati, sentindo a irritação subir junto com as palavras. — Porque até hoje eu só ouvi pedaço de história que não leva a lugar nenhum, e eu já tô cansada disso. Ela apertou os lábios, claramente incomodada, mas eu continuei antes que ela tentasse cortar a conversa como sempre fazia. — Quinze anos, mãe — falei, enfatizando cada palavra. — Quinze anos sem uma ligação, sem uma mensagem, sem ele aparecer uma única vez, sem fazer nada que mostrasse que eu existo, e você acha mesmo que eu não tenho o direito de saber o porquê? Ela desviou o olhar por um instante, e aquilo me irritou mais do que qualquer resposta poderia irritar, porque era exatamente assim que tudo sempre terminava: comigo perguntando e ela evitando. — Você nunca me contou nada de verdade — continuei, agora sem segurar mais o que estava preso há tempo demais. — Eu cresci ouvindo metade das coisas, sempre ficando no escuro, sempre tendo que imaginar o resto como se isso fosse normal. — Chega, Maria — ela interrompeu, elevando a voz. — Não chega — rebati na mesma hora, sem dar espaço pra ela encerrar aquilo. — Eu tenho o direito de saber da minha própria vida. A frase saiu mais pesada do que eu esperava, mas não voltei atrás, porque aquilo era verdade, e pela forma como ela me olhou, eu sabia que tinha atingido um ponto que ela não queria encarar. — Você quer saber? — perguntou, agora sem tentar suavizar. — Então escuta. Eu fiquei parada, esperando, porque pela primeira vez parecia que ela realmente ia falar algo concreto. — Ele mandou a gente embora — disse, direto, sem rodeio. — Você era pequena, não entendia nada, e ele simplesmente decidiu que a gente não podia ficar. Por um segundo eu não reagi, não porque não tivesse entendido, mas porque aquilo precisava de tempo pra fazer sentido dentro da minha cabeça, precisava de um espaço pra encaixar com tudo que eu já tinha imaginado ao longo dos anos, e mesmo assim, quando encaixou, trouxe junto uma sensação amarga que eu não consegui ignorar. — Então ele não quis a gente perto? — perguntei, firme, mesmo sentindo algo apertar dentro do peito. Ela passou a mão pelo cabelo, visivelmente desconfortável, como se tivesse falado mais do que queria. — Não foi isso que eu quis dizer — respondeu, mais baixa. — Ele só não podia ter a gente por perto. Eu soltei o ar devagar, tentando não perder a paciência, mas aquela resposta só aumentava ainda mais o vazio que eu já carregava. — Não podia por quê? — insisti, dando mais um passo à frente. — O que tava acontecendo? Por que você nunca voltou? Por que ele nunca veio atrás? Ela virou de costas, e aquilo foi o suficiente pra me fazer perder o pouco de calma que ainda restava, porque aquele gesto era exatamente o que eu mais odiava, aquela fuga que sempre deixava tudo pela metade. — Eu odeio isso — falei, deixando a irritação sair sem filtro. — Eu odeio não saber de nada, odeio sentir que tem uma parte da minha vida que foi escondida de mim como se eu não tivesse o direito de entender. Ela ficou em silêncio por alguns segundos, e por um momento eu achei que ela ia falar tudo, que ia finalmente acabar com aquilo, mas então ela respirou fundo e, quando se virou de novo, eu já sabia que não era isso que ia acontecer. — Chega, Maria — disse, firme, levantando aquela barreira que eu conhecia bem demais. — Eu não vou falar mais sobre isso. Eu encarei ela por alguns segundos, sentindo a frustração crescer, porque aquela resposta era exatamente o que eu mais esperava e, ao mesmo tempo, o que eu mais odiava ouvir. — Você não quer falar — respondi, sem suavizar. — E você não vai pro Brasil — ela completou, como se aquilo fosse o fim da conversa. Dessa vez eu não respondi na hora. Fiquei em silêncio, absorvendo aquelas palavras, mas não como uma ordem, e sim como mais uma tentativa de controle que só me deu ainda mais certeza de que eu estava certa em querer ir, porque quanto mais ela tentava me impedir, mais claro ficava que tinha coisa ali que ela não queria que eu descobrisse. Respirei fundo, organizando os pensamentos, porque discutir ali não ia me levar a lugar nenhum, não daquele jeito, não naquele momento, e eu não precisava vencer aquela discussão pra fazer o que já tinha decidido. — Tá bom — falei, simplesmente. Ela me olhou como se não entendesse, provavelmente esperando que eu continuasse insistindo, que eu aumentasse o tom, que eu brigasse mais, mas a verdade é que eu já tinha passado desse ponto, já tinha entendido que não era ali que eu ia encontrar resposta. Virei o rosto, desviando o olhar, não por submissão, mas porque naquele momento eu não precisava provar nada pra ela, precisava agir por mim. Porque, pela primeira vez, não era só curiosidade. Era necessidade. E eu não ia deixar aquilo morrer ali, não depois de tudo que eu já carreguei em silêncio. Baixei o olhar por um instante, deixando escapar quase sem som, mais pra mim mesma do que pra qualquer outra pessoa, como uma decisão que não precisava ser anunciada. — Vamos ver se eu não vou. E naquele momento eu soube, com uma certeza que nunca tive antes, que aquela conversa não tinha sido o fim de nada. Tinha sido só o começo.
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