Natalia
Escondendo minhas emoções, fico em pé e entrego ao meu companheiro o documento afirmando que sou infértil.
"Apenas leia", sussurro, fingindo estar machucada.
Ele franze a testa, preocupado, e me encara com grandes olhos azuis.
"O que é isso, Nat?"
Quero vomitar em seu rosto por me chamar assim, mas engulo o nojo.
"É um teste de fertilidade. Lila verificou minha função ovariana e reserva alguns dias atrás", sussurro, recusando-me a olhá-lo nos olhos.
Ele estuda as páginas, seu rosto ficando cada vez mais sombrio.
"V-você é infértil?", pergunta, folheando as páginas novamente em busca de confirmação.
Antes que eu possa responder, um rosnado alto escapa do peito dele e eu recuo imediatamente, quase tropeçando nos meus pés. Sua respiração está ofegante e seus olhos ficam verdes de fúria.
"Você é infértil?!"
Essa é exatamente a reação que eu queria dele, mas isso me assusta tanto quanto o fato de seu lobo estar se manifestando.
Eu sabia que Jack, seu lobo, nunca me machucaria. Mas, então, de novo, eu pensei o mesmo do meu marido e, ainda assim, ele dormiu com minha irmã.
"S-sim", gaguejo, meu corpo ficando rígido de medo enquanto encaro os olhos verdes de seu lobo.
Jack era conhecido por ter um temperamento quase incontrolável, e nosso vínculo de companheiros era a única coisa que o acalmava. Ao mesmo tempo em que ele se ergue sobre mim com um rosnado ameaçador ecoando em seu peito, no entanto, pergunto-me se isso seria suficiente para me manter segura agora.
Seus olhos vão para minha barriga e instintivamente coloco uma mão sobre ela para proteger meu bebê.
Um pensamento terrível cruza minha mente. Será que ele pode sentir a vida crescendo dentro de mim?
Recuo lentamente e grito quando esbarro em uma parede atrás de mim, meu coração batendo acelerado.
"J-jack", chio, fechando os olhos com força, com medo de olhá-lo. "E-eu sinto muito", soluço, percebendo agora que isso foi uma péssima ideia.
"Você sente muito?", ele ri, o som de seu punho criando um buraco na parede ao lado do meu rosto me fazendo chorar. "Você está fodidamente arrependida? Desculpa não engravidar, Jack!" Ele rosna. "O que diabos eu devo fazer agora, hein?" Ele pergunta, segurando meu queixo com tanta força que sei que terei um hematoma de manhã. "Eu preciso de um herdeiro. Essa era sua única tarefa como minha Luna, seu único uso para mim!"
Meu coração se despedaça em um milhão de pedaços.
Era isso que eu sempre fui para ele? Uma c****a reprodutora? E quanto aos nossos passeios noturnos sob a luz do luar? Nossos beijos roubados nos corredores? Nossas noites de paixão tão intensas que eu pensava que iria queimar sob ele? Nada disso foi real?
Abro minha boca para responder, mas um tapa no rosto me deixa atônita e caio no chão. Acolhendo minha barriga, rezo para qualquer deusa que exista que meu bebê esteja bem.
Jack nunca tinha me batido antes. Nunca. Nem Christian. E ao olhar para o homem que eu costumava chamar de meu marido, sinto amargura crescer dentro de mim.
Fingindo estar machucada, olho para cima, segurando minha bochecha ardente. Mas por dentro estou fervendo de raiva. Eu me lembraria disso... e nunca o perdoaria por isso.
Seus olhos azuis voltam e Christian vai para o armário, pegando uma mala e jogando minhas roupas dentro.
"Acabou, Natalia", ele rosna enquanto empacota minhas coisas. "Eu quero que você vá embora daqui dentro de uma hora. Não me importa para onde você vá ou o que faça. Apenas saia da minha casa!"
Alívio enche meu coração. Eu estava sendo liberta e, em breve, meu bebê e eu estaríamos do outro lado do país, onde poderíamos viver nossas vidas longe dele.
Seus olhos ficam opacos enquanto ele coloca minhas roupas na mala e a joga para mim.
Ele deve estar se comunicando telepaticamente com os anciões.
"Os anciões estarão aqui em breve para completar a cerimônia de rejeição", ele diz enquanto caminha em direção à porta. "E o advogado também estará aqui para entregar os papéis do divórcio. Eu quero que você saia depois de assinarmos os papéis, entendeu?"
"Sim, senhor", respondo com um soluço, ainda fingindo estar machucada ao segurar minha bochecha.
Ele sai do quarto, batendo a porta ao sair.
"Estamos bem", sussurro para mim mesma, abraçando minha barriga. "E-estamos livres."
Acaricio minha barriga plana, desejando poder sentir meu pequeno filhote crescendo dentro de mim. Era reconfortante saber que eu não estaria fazendo isso sozinha, mas também era aterrorizante. Éramos só nós agora.
"Agora somos só eu e você, frijolito (feijãozinho)", sussurro, forçando as lágrimas a não caírem enquanto acaricio minha barriga. "Mas está tudo bem. Não precisamos de mais ninguém."
Me recupero do chão e encontro meu telefone. Todos os carros pertenciam a Christian, então eu arranjo um táxi para me buscar em uma hora.
Enquanto espero que Christian me ligue para finalizar o divórcio e a rejeição, mexo nervosamente com os anéis de Lua e de casamento, relembrando a alegria que um dia senti ao fazer parte dessa matilha.
Eu estava tão assustada no dia em que Christian me mostrou seu lobo pela primeira vez. Tínhamos acabado de começar a namorar há algumas semanas, mas as faíscas entre nós eram inegáveis. Ele era um pouco possessivo, mas eu o via como um elogio de que eu valia a pena proteger. No dia em que ele me levou para a casa da matilha, quase terminei com ele. Eu pensei que estava sendo iniciada em uma seita pela forma como todos se referiam a ele como Alfa.
Levei algum tempo para ser convencida, mas concordei em continuar vendo ele. Não conseguia explicar, mas estava apaixonada por ele. Na noite de lua cheia, Christian me levou para um piquenique à luz do luar na floresta. As coisas tomaram um rumo inesperado quando meu namorado se transformou repentinamente em um lobo preto gigante e saí correndo gritando. Eu não falei com ele por uma semana, com medo de que ele ou seus amigos lobisomens me comessem.
Ele foi até meu apartamento para me procurar, dizendo que precisava de mim, que não conseguia viver sem mim e eu não pude negar. Eu estava atraída por ele de maneiras que não conseguia explicar. Ele era paciente naquela época, permitindo-me me ajustar ao mundo estranho de onde ele vinha e me ensinando os caminhos da vida em matilha. Eu achava lindo como todos viviam para proteger uns aos outros... como uma grande família protegendo os seus.
Mas quando ele pediu para me transformar, eu recusei. Eu amava o fato dele ser um lobisomem, mas se ele quisesse que eu ficasse ao seu lado, ele teria que me aceitar como a Deusa da Lua tinha decidido que eu seria, uma humana. Quase terminamos nosso relacionamento novamente, mas quando um ex-namorado meu deixou claro que ainda tinha sentimentos por mim, Christian percebeu que me queria mais e cedeu ao meu pedido. Eu fui marcada naquela mesma noite, sem deixar dúvidas sobre a quem pertencia.
Passei meses treinando com a mãe de Christian para aprender minhas obrigações como Lua, dominando a arte de acalmar situações em reuniões com a matilha e o Alfa, estudando as leis da matilha e até mesmo completando o treinamento de guerreiro para me defender. Minha cerimônia de Lua foi absolutamente perfeita. Meu belo Alfa me pediu para liderar esta matilha ao lado dele diante de todos os membros, e eu aceitei a responsabilidade. Ele fez o pedido de casamento naquele dia e jamais havia sido tão feliz em minha vida. Tudo parecia estar se encaixando.
Quem poderia imaginar como minha vida ficaria bagunçada? Que um dia eu estaria sozinha em meu quarto, esperando que meu marido me divorciasse enquanto secretamente carrego seu filho?
Ouço a porta abrir novamente e Jordan põe a cabeça para dentro.
"O Alfa solicita sua presença, Luna", ele diz secamente, fechando a porta sem sequer olhar para mim.
Limpo as poucas lágrimas que escorreram no meu rosto, tirando os anéis dos meus dedos e segurando-os com as mãos. O corredor parece mais longo do que o normal, mas ando rapidamente até o escritório, onde encontro Christian, os anciões, o advogado, Jordan, Derek e Vanessa me esperando.
Vanessa evita meu olhar, se mexendo desconfortavelmente nos pés, e decido não olhar para ela novamente, concentrando minha atenção no homem que partiu meu coração. Mantenho a cabeça erguida enquanto chego ao centro da sala e cumprimento os Anciões.
O advogado dá um passo à frente, apresentando os documentos que ele preparou para mim.
"O Sr. Hart pediu que todos os seus bens sejam divididos igualmente. Os ativos da matilha, é claro, permanecerão dele, mas bens pessoais, contas bancárias e ..."
Antes que ele possa continuar com seu falatório, pego os papéis de sua mão e pego uma caneta, assinando todas as linhas exigidas de mim.
"Ele pode ficar com tudo", murmuro, tentando ao máximo controlar minha voz para que não trema. "Eu só quero que minhas contas bancárias fiquem intactas. Trabalhei duro pelo meu dinheiro e mereço ficar com ele."
Como Luna, eu ganhava uma mesada mensal por ajudar a administrar a matilha. Eu trabalhava, logo tinha todo o direito de ficar com cada centavo que ganhei desta matilha.
Christian concorda com o advogado e ele anota em um pedaço de papel que me entrega.
"O dinheiro será transferido até o final da semana para essa conta", ele diz, guardando os papéis do divórcio em sua pasta. "Com licença."
Com o advogado fora, o Ancião Robin retira o tablet da matilha e um punhal n***o.
"Luna Natalia, seu Alfa solicitou que você seja despojada de seu título e deixe esta matilha imediatamente. Você tem alguma objeção?"
Algumas lágrimas escorrem pelo meu rosto enquanto olho para Christian e os garotos. Derek não consegue me encarar e Jordan encara as mãos em branco. Nunca me senti tão sozinha na vida antes deste momento.
"N-não", murmuro, limpando minhas lágrimas e forçando um pequeno sorriso no rosto. "Não, não tenho."
O Ancião Robin me olha com pena enquanto coloca o tablet da matilha na minha frente.
O tablet da matilha é uma grande peça preta de obsidiana com entalhes de lobos gravados na face da pedra e um pequeno buraco no centro. O tablet era usado para iniciar novos membros e dar títulos a membros existentes. Era a própria pedra que me acolheu como sua Lua e trouxe essa matilha junto... e hoje, me arrancaria dela.
"Você primeiro devolverá seu título à matilha Silver Crest", ele diz, fazendo um gesto para que eu levante a mão no ar. "Você, Natalia Vasquez, admite que falhou em cumprir seu dever como Lua da Matilha Silver Crest?"
Minhas veias ferveram de raiva. Eu nunca havia falhado com a matilha antes. Nunca. Se algo, eu havia ido além do chamado do dever para servir esta matilha e era injusto ser considerada uma falha.
Mas meus sentimentos não importam. Eu preciso dessa rejeição antes que seja tarde demais.
"Sim", cuspindo quase entre dentes.
"Você aceita que falhou em cumprir seus deveres com seu Alfa como sua Luna e esposa?" Ele continua.
Eu encaro Christian. Ele sabia quem era o verdadeiro fracasso. Mas engulo meu orgulho e morde a língua. Eu precisava da minha liberdade mais do que do meu título.
"Sim", sussurro, com medo de gritar se falasse mais alto.
"Então, pelo poder conferido a mim, eu a despojo de seu título e deveres para com esta matilha."
O Ancião Robin pega a lâmina e faz uma pequena incisão em minha mão, que ele coloca no tablet. Uma pequena rajada de ar passa por mim, obliterando qualquer conexão que eu sentia com esta matilha.
"Gama Jordan", chama o Ancião Robin. "Um vínculo gama uma vez formado é indestrutível. Você pode escolher seguir sua protegida para onde quer que ela vá ou ficar aqui com seu Alfa."
"Eu escolho meu Alfa, senhor", responde Jordan, sem hesitar.
Ele evita meus olhos e eu ignoro o pequeno pedido de desculpas que ele sussurra na minha direção. Agora livre dos meus deveres e não mais sob a proteção do meu gama, volto minha atenção para Christian. Ele nem mesmo está me olhando, ocupado demais flertando com minha irmã, que ri descaradamente para ele.
Era apenas mais um insulto vê-los flertando um com o outro enquanto eu era despojada do meu título.
O Ancião Robin me lança mais um olhar de pena e pigarreia para chamar a atenção de Christian. "Alfa, quando estiver pronto, pode começar a rejeição."
Christian parece completamente enojado quando se vira para me olhar. Meu peito começa a apertar e por um instante, considero ajoelhar e implorar para que ele me ame de novo, para que me deixe ficar ao seu lado para sempre.
Mesmo depois de tudo o que ele havia feito comigo, uma pequena parte retorcida de mim ainda queria sentir seus braços ao meu redor enquanto ele prometia me amar para sempre.Mas eu sabia que era mentira. Christian nunca me amou e nunca amaria. Nosso tempo acabou.
"Eu, Christian Hart, Alfa da Alcateia Silver Crest, rejeito você, Natalia Vasquez, como minha companheira e Luna," ele diz despreocupadamente, como se não estivesse me dilacerando.
A dor percorre todo o meu ser, queimando em meu peito e se espalhando pelo meu corpo como milhares de pequenas facas me esfaqueando ao mesmo tempo. Eu grito enquanto desabo no chão, lutando para respirar. Do canto do olho, percebo Jordan se contorcer com desconforto. Há lágrimas em seus olhos.
"Alfa", instrui o Ancião Robin. "Seu lobo também deve rejeitá-la."
Os olhos de Christian oscilam entre verde e azul até o verde se estabilizar e Jack se aproxima. Por um breve momento, vejo medo passar nos olhos de Jack, mas desaparece quase tão rapidamente quanto vi. O Alfa se ajoelha ao meu lado, faíscas formigam pelos meus braços enquanto Jack me levanta para inspecionar a marca em meu pescoço. Através das minhas lágrimas, lanço um olhar de desprezo para o lobo que havia me prometido o mundo e seguro meu soluço.
"Faça isso", sibilo, resistindo à vontade de esfregar minha barriga e confortar meu bebê.
Ele encara meus olhos, seu rosto duro como pedra.
"Eu, Jack, Alfa da Alcateia Silver Crest, rejeito você, Natalia Vasquez, como minha companheira e Luna", ele rosna, inclinando meu pescoço e afundando suas presas em minha carne.
Eu grito de agonia à medida que a sensação formigante de seu toque se transforma lentamente em uma sensação de queimação. Jack passa a língua na ferida, beijando-a suavemente como uma despedida final.
"Adeus, Pequena", ele suspira em meu cabelo, meus olhos se enchendo de lágrimas enquanto ele me chama pelo apelido carinhoso uma última vez.
Ele me deixa desabar no chão e se afasta enquanto me contorço de dor. Meu pescoço está quente ao toque, a rejeição de Jack e Christian queimando nossa marca. Fica mais difícil respirar e eu abro a boca para desesperadamente sugar o ar enquanto meus gemidos se tornam mais suaves.
"Natalia", o Ancião Robins se ajoelha ao meu lado. "Você precisa aceitar a rejeição dele para completar a cerimônia."
Eu ofego furiosamente enquanto a dor percorre meu corpo, cerrando e abrindo minhas mãos para lidar com a dor. Eu aceno com a cabeça para o Ancião e, depois de lutar para respirar, consigo murmurar minha resposta.
"Eu, eu, Natalia Vasquez, aceito sua rejeição", eu gemo, a dor se intensificando em minha marca.
De repente, Christian se curva e geme de dor, Vanessa correndo para o lado dele para massagear suas costas e confortá-lo.
Eu a odeio ainda mais por estar confortando-o e não a mim.
Depois de alguns minutos de tortura, a dor diminui, embora a queimação em minha marca continue persistente.
"Seu corpo continuará a rejeitar a marca do Alfa nos próximos três dias", explica o Ancião Robin. "E então ela desaparecerá."
Eu assinto enquanto me reergo do chão, limpando a poeira e enxugando minhas lágrimas. Eu havia reivindicado oficialmente minha liberdade e não estava mais casada ou ligada a esta alcateia.
Satisfeita por meu truque ter funcionado, viro-me nos calcanhares para sair quando a voz de Christian me detém.
"Gostaria de reivindicar Vanessa Vasquez como minha companheira escolhida e Luna", ele anuncia aos Anciãos. "Oficializem isso, Ancião", ele ordena.