Os Valentões

1604 Words
A escola tinha um jeito próprio de ferir. Em casa, Sarah era ignorada. Na escola, era lembrada do pior jeito possível. Ali, ninguém fingia que ela não existia. Eles só faziam questão de existir contra ela. Naquela manhã, o corredor parecia mais barulhento do que o normal. O som dos armários batendo, os passos apressados, as conversas altas demais, tudo se misturava numa desordem constante que costumava deixá-la cansada antes mesmo da primeira aula começar. Sarah caminhava com a mochila presa em um ombro e os livros apertados contra o peito. Tinha saído de casa com a mesma roupa escolhida com mais cuidado no dia anterior, mas sem a mesma expectativa. Não estava mais tentando ser vista. Pelo menos, era o que dizia a si mesma. Ainda assim, ao passar pela porta de vidro perto da entrada, seus olhos buscaram o reflexo por impulso. O cabelo estava melhor arrumado. A postura, um pouco menos curvada. A boca, mais firme. Era pouca coisa. Mas ela sentia. Não como beleza. Como resistência. Ela estava quase chegando à sala quando ouviu a primeira voz. — Olha só quem resolveu aparecer diferente. Sarah não precisou virar para saber quem era. Davi. A voz vinha sempre carregada daquele tom preguiçoso de quem tinha nascido acreditando que o mundo existia para entretê-lo. Com ele vinham quase sempre os mesmos dois: Bruno, que ria antes mesmo da piada ficar pronta, e Caio, que falava pouco, mas adorava empurrar os outros com o ombro quando passavam. Sarah continuou andando. Não acelerou. Não olhou para trás. Não respondeu. — Sério — Davi continuou, agora mais perto —, você tá tentando o quê? Rebranding? Bruno riu alto. — Nem maquiagem salva milagre — disse ele. Mais risadas. Sarah sentiu os dedos apertarem os livros com mais força, mas manteve o passo. Era isso que eles queriam. Reação. Vergonha. Pressa. Qualquer coisa que os fizesse sentir que tinham poder sobre ela. E tinham. Esse era o pior ponto. Tinham, porque sabiam exatamente onde tocar. Não no corpo. No espaço invisível dentro dela que já estava machucado demais. Ela entrou na sala sem olhar para nenhum dos três. Foi até a última fileira, no canto de sempre, e sentou antes que o professor chegasse. O coração batia mais rápido do que deveria, mas sua expressão permaneceu neutra. Tinha aprendido isso cedo. Se não conseguia impedir que doesse, pelo menos tentava impedir que vissem. Durante a primeira aula, conseguiu se concentrar o suficiente para copiar quase tudo. Na segunda, a atenção já falhava. As palavras do professor vinham truncadas, e os risos do corredor, do lado de fora, pareciam entrar em sua cabeça como agulhas. No intervalo, ela decidiu não ir para o banco de sempre. Mudou o trajeto. Foi até a parte lateral do pátio, perto de um muro baixo onde quase ninguém ficava. Precisava de alguns minutos sem vozes em volta. Sem olhares. Sem ter que calcular o ângulo do próprio corpo para não parecer vulnerável demais. Sentou. Abriu a garrafa d’água. Respirou. Por alguns segundos, funcionou. Até o som de passos chegar. — Eu falei que ela ia se esconder aqui — disse Bruno. Sarah fechou os olhos por meio segundo. Quando abriu, os três já estavam diante dela. Davi com as mãos nos bolsos, sorrindo daquele jeito irritante, como se tudo fosse uma brincadeira inteligente. Bruno com um pacote de salgadinhos na mão e um entusiasmo infantil diante da própria crueldade. Caio encostado no muro, olhando para ela com uma superioridade muda. — Qual é a de hoje? — perguntou Davi, inclinando a cabeça. — Novo visual, nova personalidade? Sarah não respondeu. — Acho que ela tá apaixonada — disse Bruno. — É sempre assim. A menina se arruma quando começa a imaginar coisa. Caio soltou um riso curto. — Com quem? — perguntou Davi. — Com o espelho? Os três riram. Sarah levantou devagar. Não queria continuar sentada enquanto eles cercavam o espaço. Pôs a garrafa dentro da mochila com calma, mesmo com o corpo inteiro tenso. — Sai da frente — disse. A própria voz a surpreendeu. Não porque saiu alta. Mas porque saiu firme. Davi arqueou as sobrancelhas, divertido. — Nossa. Bruno abriu um sorriso. — Ela fala. — E fala mandando — acrescentou Caio, agora saindo do muro. Sarah segurou a alça da mochila e deu um passo para o lado. Davi se moveu junto, bloqueando a passagem. — Tá nervosa? — ele perguntou. — Não precisa. A gente só tá tentando entender essa nova fase. — Eu disse pra sair da frente. Dessa vez, o tom veio mais duro. O sorriso de Davi vacilou por um segundo. Não porque estivesse ofendido. Porque não esperava aquilo. Era a primeira fissura. Pequena. Mas real. Bruno percebeu também, e como todo covarde em grupo, reagiu pior quando sentiu que o alvo estava tentando deixar de ser alvo. — Ih, olha aí. A fantasma virou leoa. Caio deu um passo à frente e puxou levemente a ponta do cabelo dela. Não com força. Só o suficiente para humilhar. — Tá se achando agora? Sarah se afastou bruscamente e levantou a mão no mesmo instante, empurrando o braço dele para longe. O gesto foi automático. Instintivo. Não planejado. E o silêncio que veio logo depois foi curto, mas absoluto. Os três olharam para ela. Sarah olhou de volta. O peito subia e descia mais rápido, a raiva queimando quente demais sob a pele. Davi foi o primeiro a quebrar o momento. — Caramba — murmurou, dando um sorriso torto. — Ela tá mesmo diferente. Mas o tom dele já não era de puro deboche. Havia cautela. Muito pequena. Quase nada. Mas havia. Bruno, por outro lado, não gostou da quebra da hierarquia invisível. — Diferente nada — disse, jogando o pacote vazio de salgadinho no chão, perto dos pés dela. — Continua sendo a mesma. Sarah baixou os olhos por um segundo para a embalagem jogada no chão. Um gesto tão simples, tão infantil, tão comum. E, ainda assim, sentiu uma onda de raiva tão limpa que quase ficou tonta. Não era só por aquilo. Era por todos os dias. Por todos os risos. Por todas as vezes em que abaixou a cabeça, acelerou o passo, fingiu que não escutava. Era por tudo. Ela ergueu os olhos devagar. — Então continua longe de mim — disse. Bruno riu, mas já não com a mesma facilidade. Davi encarava o rosto dela como se tentasse descobrir onde exatamente tinha acontecido a mudança. Caio cruzou os braços, irritado por ter sido repelido. — Vamos embora — disse Davi, depois de alguns segundos. — Sério? — Bruno reclamou. — Vamos. Havia algo novo naquele “vamos”. Não era gentileza. Era cálculo. Davi percebeu que o jogo tinha mudado um pouco. Talvez não o suficiente para terminar. Mas o bastante para perder parte da graça. Os três se afastaram ainda soltando comentários baixos, mas sem olhar para trás. Sarah permaneceu imóvel por alguns segundos, esperando o corpo entender que o perigo imediato tinha acabado. Só então percebeu que estava tremendo. Sentou de novo no muro baixo, agora com as pernas estranhamente fracas. A raiva ainda estava ali, viva, mas misturada a outra coisa. Adrenalina. Choque. E uma sensação nova, quase desconfortável de tão estranha: ela não tinha recuado. Pela primeira vez, não tinha recuado. Não venceu nada. Não virou heroína. Não fez um discurso brilhante. Não saiu por cima como nas cenas perfeitas que às vezes imaginava antes de dormir. Mas também não encolheu. E isso, para alguém como Sarah, já era quase um terremoto. Na aula seguinte, ninguém mexeu com ela diretamente. Sentiu alguns olhares, algumas risadas abafadas, uma energia de expectativa no ar, como se estivessem esperando para ver se aquilo tinha sido um acidente ou o começo de alguma coisa. Sarah não sabia responder. No fim das aulas, ao guardar os livros no armário, viu seu reflexo fino no metal amassado da porta. Estava pálida. Os olhos cansados. Mas havia algo diferente. Não era dureza. Ainda não. Era o início dela. Quando saiu da escola, o céu estava nublado de novo. O vento levantava poeira leve da calçada, e o mundo parecia preso naquele mesmo cinza sem promessa. Sarah caminhou devagar até em casa. No caminho, repetiu a cena na cabeça mais de uma vez. O toque no cabelo. O braço afastado. A voz firme. O silêncio deles. Cada detalhe parecia pequeno quando visto de fora. Mas dentro dela, algo tinha sido deslocado. Chegou em casa, abriu a porta, entrou. — Cheguei — disse, por costume. Nenhuma resposta. A mãe falava no telefone. A irmã estava no sofá. A televisão ligada preenchia o ambiente com vozes aleatórias. Tudo igual. Mas Sarah não estava exatamente igual. Subiu para o quarto e fechou a porta atrás de si. Foi até o espelho. Ficou olhando o próprio rosto por um longo momento. Depois levantou a mão e soltou o cabelo, desfazendo o penteado com os dedos. Lembrou da própria voz dizendo “sai da frente”. Lembrou do jeito como eles olharam para ela. Lembrou da sensação de medo — e do fato de ter feito mesmo assim. Seus olhos encontraram os dela no espelho. — Você ainda tem medo — sussurrou. Fez uma pausa. Respirou fundo. — Mas não tanto quanto antes. A frase ficou no ar. Pequena. Quase irrelevante. Mas verdadeira. E, naquele quarto silencioso, Sarah percebeu que os valentões ainda existiam. A escola ainda continuaria sendo c***l. A casa ainda continuaria sendo fria. Nada estava resolvido. Nada tinha mudado de verdade. Ainda. Mas alguma coisa nela… tinha começado a mudar primeiro.
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