Capítulo 24 — Ele Observa Demais

923 Words
Com o passar dos dias, Sarah começou a perceber que não era apenas o comportamento de Gabriel que a incomodava. Era a constância. Ele não oscilava. Não era gentil em um momento e distante no outro. Não mudava de humor conforme o ambiente. Não reagia de forma exagerada nem desaparecia emocionalmente como o resto da casa parecia fazer com tanta facilidade. Gabriel permanecia estável, presente, atento de um jeito que não chamava atenção de imediato, mas que, com o tempo, se tornava impossível de ignorar. E ele observava. Observava mais do que deveria. Naquela tarde, Sarah estava na sala, sentada no sofá com um livro aberto que ela não estava realmente lendo. A televisão estava ligada em um volume baixo, apenas para preencher o silêncio, e a luz do fim do dia entrava pelas janelas, criando sombras suaves no chão. Era um daqueles momentos comuns, quase vazios, onde nada parecia acontecer. Gabriel estava do outro lado da sala. Não perto. Não distante demais. Apenas presente. Sentado em uma das poltronas, com um caderno apoiado no joelho, escrevendo algo com calma, sem pressa. Ele não falava. Não perguntava. Não interferia. Mas, em mais de uma vez, Sarah percebeu. O olhar. Rápido. Preciso. E sempre voltando. Ela tentou ignorar no início. Virou uma página do livro que não tinha lido, ajustou a postura, cruzou as pernas de forma diferente. Pequenos movimentos, inconscientes, como se o corpo tentasse se reposicionar sem chamar atenção. Não funcionou. Porque não era sobre o que ela fazia. Era sobre o fato de ele perceber. Na terceira vez que sentiu o olhar, Sarah levantou os olhos diretamente para ele. — Você sempre faz isso? A pergunta saiu antes que ela decidisse fazer. Gabriel não pareceu surpreso. Apenas levantou o olhar com a mesma calma de sempre. — Isso o quê? Sarah sustentou o olhar, sem desviar. — Ficar observando. Um pequeno silêncio se formou entre eles, mas não foi desconfortável para ele. Sarah percebeu isso imediatamente, e isso a irritou mais do que deveria. Gabriel apoiou a caneta no caderno antes de responder. — Eu presto atenção. A resposta foi simples. Direta. E insuficiente. — É a mesma coisa — disse Sarah. Ele inclinou levemente a cabeça, como se analisasse a afirmação. — Nem sempre. Sarah respirou fundo, tentando manter o controle da própria expressão. — Parece que você está sempre vendo alguma coisa. — Estou. A resposta veio sem hesitação. Sem explicação. Sem tentativa de suavizar. E isso a deixou momentaneamente sem reação. — E o que você acha que vê? — perguntou, cruzando os braços. Gabriel a observou por um segundo mais longo dessa vez. Não havia julgamento no olhar, nem curiosidade invasiva. Havia… leitura. — Depende do momento — disse ele. Sarah soltou um riso curto, quase seco. — Conveniente. Ele não reagiu ao tom. — Hoje, por exemplo — continuou — você virou três páginas sem ler nenhuma. O corpo dela reagiu antes da mente. Um leve enrijecimento. Um segundo de silêncio. — Você não sabe disso — respondeu. — Sei. Simples. Sem arrogância. Sem desafio. Aquilo foi pior. Sarah fechou o livro com um pouco mais de força do que o necessário e se levantou. — Você observa demais. Gabriel não negou. — Talvez. Ela deu alguns passos pela sala, tentando dissipar a sensação incômoda que começava a crescer. Não era apenas o fato de ele estar certo. Era a facilidade com que ele dizia, como se aquilo fosse natural, como se prestar atenção em alguém fosse algo comum. Para ela, não era. Nunca foi. — As pessoas normalmente não fazem isso — disse, virando-se para ele. — O quê? — Reparar tanto. Gabriel apoiou o braço na lateral da poltrona, mantendo o olhar nela. — Talvez as pessoas não prestem atenção suficiente. A frase ficou no ar. Simples. Mas pesada. Sarah desviou o olhar por um instante, sentindo a necessidade de quebrar aquela linha de raciocínio antes que ela fosse longe demais. — Ou talvez não seja necessário — rebateu. Gabriel não respondeu imediatamente. O silêncio que se seguiu foi mais longo, mas não desconfortável. Ele parecia considerar a resposta dela com calma, sem pressa de concluir nada. — Depende do que você quer entender — disse, por fim. Sarah sentiu algo se deslocar dentro dela, pequeno, quase imperceptível, mas real. Aquela conversa não deveria ter importância. Não era profunda, não era íntima, não era nada além de troca de frases curtas. E, ainda assim… tinha peso. Ela pegou o livro novamente, mais como um gesto de encerramento do que por interesse. — Nem tudo precisa ser entendido. Gabriel assentiu. — Nem tudo. E, pela primeira vez, foi ele quem desviou o olhar primeiro. Aquilo foi suficiente para que o ambiente voltasse ao normal… ou ao mais próximo disso que Sarah conseguia reconhecer como normal. Ela se sentou novamente, abriu o livro na página onde estava e tentou se concentrar. Desta vez, leu de verdade. Ou pelo menos tentou. Mas a sensação permaneceu. Gabriel observava. E não fazia disso um jogo. Não fazia disso uma provocação. Ele simplesmente via. E Sarah começava a entender que aquilo era mais perigoso do que qualquer comentário direto, qualquer provocação óbvia ou qualquer tipo de confronto. Porque não havia defesa contra algo que não vinha com intenção aparente. Ela virou a página devagar, os olhos finalmente acompanhando as palavras, mas a mente ainda presa na mesma conclusão: Gabriel não apenas olhava. Ele percebia. E, pela primeira vez em muito tempo… alguém estava vendo mais do que ela queria mostrar.
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