Caio entrou em casa fora de si, jogando as chaves sobre a mesa com força. O peito subia e descia rápido, a cabeça fervendo. Pegou o celular sem pensar duas vezes e discou.
— Alô?
— Oi, Caio… — a mãe de Beatriz atendeu, cautelosa.
— Você sabia que a sua filha casou com um cara milionário? — ele disparou, sem rodeios. — Mais milionário do que eu.
— O quê?! — ela levou a mão à boca. — Como assim? Aquele… aquele Zé Ninguém?
Caio soltou uma risada amarga.
— Zé Ninguém nada. Eu acabei de sair da empresa dele. Eu e meu pai tínhamos um contrato gigantesco pra fechar. Um contrato que ia multiplicar nossa fortuna. — A voz dele tremia de ódio. — E quando eu chego lá… descubro que o CEO é ele. O Bruno.
O silêncio do outro lado foi pesado.
— Não… não pode ser… — ela murmurou, atônita.
— Pode sim. — Caio andava de um lado pro outro. — E sabe o pior? Eu fui humilhado. Na frente de todo mundo. Ele me fez ajoelhar.
— Você… se ajoelhou? — ela perguntou, incrédula.
— Eu tive! — ele gritou. — Meu pai me deu um tapa na cara e me obrigou. Disse que, se eu não fizesse, eu ia perder tudo. Apartamento, carro, dinheiro… tudo!
Ela sentou devagar, sentindo o chão sumir.
— Meu Deus…
— É… — Caio riu, um riso vazio. — Agora você entende, né? Isso é jogo de dinheiro. Você queria vender sua filha pra mim por 200 mil… depois 500 mil… e agora ela tá casada com um cara que vale muito mais.
— Eu… eu não sabia… — a voz dela saiu fraca. — Se eu soubesse…
— Agora quer bajular ele? — Caio cortou, venenoso. — Não adianta. Ele não é fácil. Ele não esquece. E eu também não.
— Caio, o que você vai fazer? — ela perguntou, assustada.
Ele parou de andar. O tom mudou. Ficou baixo. Perigoso.
— Isso não vai ficar assim. — Pausou. — Eu não perco. Nunca perdi. E não vai ser agora.
— Caio, pelo amor de Deus… — ela tentou.
— A Beatriz acha que tá segura. — Ele sorriu, frio. — Mas ninguém some da minha vida assim.
A ligação caiu.
A mãe de Beatriz ficou olhando para o celular, o coração disparado. Pela primeira vez, uma certeza atravessou sua mente como um soco:
Ela não tinha vendido a filha para um homem rico.
Ela tinha vendido a filha para um monstro.
E, naquele instante, Caio decidiu que o próximo passo não seria financeiro.
Seria pessoal.
Bruno chegou em casa e percebeu o clima diferente no mesmo instante. O silêncio estava pesado demais.
Beatriz estava sentada na cama, o celular apoiado na perna, no viva-voz. Ele parou na porta, não entrou, apenas ficou ali — atento, em alerta.
— Oi, mãe — Beatriz disse, a voz firme, sem doçura. — Eu já tinha falado pra senhora não me ligar mais, né?
— Filha, escuta… agora tudo mudou — a mãe respondeu, nervosa.
Beatriz soltou um riso curto, sem humor.
— Mudou por quê?
— O Caio me ligou agora. Ele tá… transtornado.
— É mesmo? — Beatriz cruzou os braços. — Transtornado por quê?
— Porque o seu marido é milionário.
Beatriz riu de verdade dessa vez. Um riso seco.
— Milionário não, mãe. Bilionário.
— Que graça, Beatriz… — a mãe murmurou, assustada.
— Fala logo, mãe. O que a senhora quer? — Beatriz foi direta. — Tá com medo de quê? Ou quer saber se o meu marido vai te dar o dinheiro que o Caio prometeu?
— Não… não é isso — a mãe se apressou. — O Caio tá fora de si. Ele é um monstro.
Beatriz fechou os olhos por um segundo.
— Olha… finalmente a senhora disse a verdade. — Abriu os olhos de novo, firmes. — Ele é um monstro sim. Um monstro que me espancava. Que me controlava. Que me quebrou por dentro. E mesmo assim a senhora queria que eu casasse com ele, lembra?
Silêncio do outro lado.
— Agora ele tá fora de si — Beatriz continuou. — Sabe o que isso significa, mãe? Que ele tá do mesmo jeito que ficava comigo. E quem estava ali apanhando por horas era eu.
A voz da mãe começou a tremer.
— Filha… eu tô com medo.
— Então escuta bem o que eu vou te dizer — Beatriz falou, séria. — Não se encontra com ele. Não vai ver ele pessoalmente. Porque ele vai descontar em alguém. E esse alguém pode ser a senhora.
— O que eu faço então?
— Polícia. — Beatriz foi direta. — Faz um boletim de ocorrência. Se protege.
— Eu… eu posso ir morar com você?
Bruno apertou a mandíbula, mas não disse nada. Beatriz respirou fundo antes de responder.
— Não, mãe.
— Beatriz…
— Não. — A voz dela foi firme. — A senhora acha mesmo que eu vou colocar a senhora dentro da minha casa? Que eu vou fazer o meu marido sustentar seu luxo? Que a senhora vai vir pra uma mansão, mandar em funcionário, tratar m*l todo mundo e brincar de rica?
— Eu nunca faria isso…
— Faria sim, mãe. — Beatriz cortou. — Esse sempre foi o seu sonho. Mas a minha casa tá fora de questão. Entendeu?
A mãe começou a chorar.
— E se ele vier atrás de mim?
Beatriz respirou fundo, as palavras saindo duras, mas honestas.
— Então foge. Agora. — Pausou. — Porque ele falou que vai atrás de mim. E deixa eu te dizer uma coisa: ele não vai chegar até mim. Meu marido vai me proteger.
— Filha…
— Mas se ele te machucar pra tentar me atrair… — a voz de Beatriz falhou por um segundo, depois ficou firme de novo — eu não vou aparecer.
O silêncio do outro lado foi absoluto.
— Não porque eu não me importo — Beatriz concluiu —, mas porque eu sei exatamente como ele pensa. Ele faria isso pra me capturar. E eu não vou cair nessa.
Ela respirou fundo.
— Então foge enquanto dá tempo, mãe. Faz o que eu nunca pude fazer.
E desligou.
Beatriz ficou alguns segundos olhando para o celular apagado. As mãos tremiam.
Bruno entrou no quarto em silêncio, sentou ao lado dela e a puxou para um abraço firme, protetor.
— Você foi forte — ele disse baixo.
Ela encostou o rosto no peito dele, os olhos marejados.
— Eu só cansei de ser usada como isca… como moeda… como coisa.
Bruno beijou o topo da cabeça dela.
— Isso acabou. — A voz dele era calma, mas carregada de promessa. — Ninguém encosta em você. Nunca mais.
E, pela primeira vez, Beatriz sentiu que não estava apenas fugindo do passado.
Ela estava inacessível a ele.