Lugar Público, Verdades Privadas

1222 Words
O celular de Beatriz começou a vibrar em cima da mesa da cozinha. Ela estava sentada tomando um chá, ainda usando roupas confortáveis da casa, tentando se acostumar com a tranquilidade que nunca teve. O nome que apareceu na tela fez seu corpo inteiro travar. Mãe. Ela ficou olhando o telefone vibrar, o coração acelerando. Bruno, que estava encostado no balcão, percebeu imediatamente. — Não atende — disse, calmo, mas firme. — É minha mãe… — Beatriz respondeu em voz baixa. — Ela nunca liga assim. O telefone parou de vibrar. Alguns segundos depois, chegou uma mensagem. > “Bia, me liga. Eu preciso falar com você. Só quero te ver.” Beatriz sentiu um nó no estômago. — E se ela estiver doente? Ou arrependida? Bruno se aproximou devagar. — Bia… sua mãe nunca pediu pra te ver sem querer algo em troca. Não sozinha. Não agora. O celular vibrou de novo. Ela acabou atendendo, com a voz trêmula: — Alô? — Bia… — a voz da mãe saiu mansa demais — minha filha… eu só queria saber como você está. Beatriz fechou os olhos. — Eu tô bem. — Eu fiquei tão preocupada… você saiu daquele jeito, não deixou endereço, não avisou nada… eu sou sua mãe. Bruno cruzou os braços, atento a cada palavra. — Eu precisava de um tempo — respondeu Beatriz, cautelosa. — Eu entendo… — a mãe suspirou — A gente brigou, falou coisas duras… mas mãe é mãe, né? Eu só queria te ver. Conversar. Nem precisa ser na minha casa. Pode ser numa praça, num café simples. O silêncio se estendeu. — Bia — a mãe insistiu — eu sinto sua falta. Beatriz sentiu os olhos marejarem. — Eu… vou pensar. — Tá bom, meu amor. Mas me liga, tá? Não me deixa sem resposta. A ligação caiu. Beatriz ficou parada, olhando para o nada. — Ela quer te ver — disse Bruno, com voz controlada. — E isso não é coincidência. — Você acha que ela sabe de nós? — Não — ele respondeu, convicto. — Se soubesse onde você está ou com quem está, não estaria pedindo encontro em lugar público. Ela está tateando. Tentando se reaproximar. — E se ela só quiser consertar as coisas? — Beatriz perguntou, esperançosa e assustada ao mesmo tempo. Bruno segurou as mãos dela. — Mesmo que queira… agora não é seguro. Não enquanto Caio estiver furioso. Sua mãe pode não saber de tudo, mas ela é uma ponte. E pontes são perigosas. — Eu não quero magoá-la… — Beatriz sussurrou. — Você não está magoando ninguém por se proteger — respondeu ele. — Se quiser encontrá-la, vai ser do nosso jeito. Lugar público. Gente por perto. E comigo sabendo exatamente onde você está. Beatriz respirou fundo e assentiu. O celular vibrou mais uma vez. Outra mensagem da mãe. > “Eu só quero ver minha filha. Prometo que não vou falar de casamento nem de dinheiro.” Bruno olhou a mensagem por cima do ombro dela e soltou um riso curto, sem humor. — Quando alguém promete isso sem ser questionado… é porque exatamente isso está por trás. Beatriz desligou a tela. Pela primeira vez, ela não se sentiu culpada por desconfiar. Sentiu-se alerta. E longe dali, a mãe caminhava de um lado para o outro na própria casa, o celular na mão, impaciente. Ela ainda não sabia onde Beatriz estava. Não sabia com quem ela tinha se casado. Não sabia do dinheiro, nem da mansão. Mas estava tentando abrir uma fresta. E Bruno já sabia: uma fresta era tudo que o perigo precisava. O café era simples, movimentado, mesas próximas umas das outras. Beatriz escolheu exatamente assim de propósito. Nada de lugares vazios. Nada de silêncio perigoso. Ela chegou primeiro. Sentou-se de costas para a vitrine, observando o reflexo do vidro. Do outro lado da rua, um homem fingia mexer no celular, sentado num banco, óculos escuros, postura relaxada demais para ser coincidência. Ela sabia. Bruno estava cuidando de tudo. A mãe chegou alguns minutos depois, olhando em volta, nervosa, como quem procura mais do que deveria. Quando viu Beatriz, abriu um sorriso rápido e forçado. — Filha… Beatriz não se levantou. Apenas assentiu com a cabeça. — Mãe. A mulher sentou-se à frente dela, segurou a bolsa com força, respirou fundo e, de repente, os olhos encheram de lágrimas. — Eu errei com você… — disse, com a voz embargada — Eu falei coisas horríveis. Eu deixei gente mandar na nossa relação. Me perdoa. Beatriz permaneceu em silêncio, observando. Não havia raiva no rosto dela. Havia lucidez. — Eu senti sua falta — a mãe continuou — Você é minha filha. Nada muda isso. — Mudou quando a senhora me vendeu — Beatriz respondeu, baixa, mas firme. A mãe engoliu seco. — Eu estava desesperada… você sabe como as coisas estavam difíceis… — Sempre estavam difíceis quando o assunto era eu — Beatriz rebateu. — Mas nunca quando era pra senhora. O garçom passou. Nenhuma das duas pediu nada. A mãe tentou tocar a mão dela, Beatriz afastou discretamente. — Onde você está morando agora? — perguntou a mãe, fingindo casualidade. — Pra eu ir te visitar… saber se você tá bem… Beatriz respirou fundo. — Eu não vou te dar meu endereço, mãe. — Mas por quê? Eu sou sua mãe! — Porque eu sei que a senhora ainda quer o dinheiro do Caio. O rosto da mãe endureceu por um segundo. Quase imperceptível. — Que dinheiro, Beatriz? Você tá imaginando coisas… Beatriz inclinou-se levemente pra frente. — A senhora com certeza fez um contrato com o Caio. A mãe arregalou os olhos. — Filha… — Mãe, a senhora me vendeu por duzentos mil — a voz de Beatriz não tremeu — Agora quer aumentar pra quinhentos. Então tá mais desesperada ainda. O silêncio entre elas ficou pesado. O segurança do outro lado da rua levantou o olhar, atento, mas sem se mover. — Você tá sendo c***l — a mãe sussurrou, ofendida. — Eu só queria proteger você. Beatriz sorriu de lado. Um sorriso triste. — Não. A senhora queria garantir dinheiro. E quando ele não quis mais casar comigo, tentou me empurrar de novo. A mãe respirou fundo, tentando recuperar o controle. — Ele ainda te ama… — Não — Beatriz cortou. — Ele queria me possuir. A mãe cruzou os braços. — E esse homem com quem você está agora? Ele sabe de tudo isso? Beatriz levantou o olhar, segura. — Sabe. — E mesmo assim ficou? — Ficou. E me respeita. A mãe balançou a cabeça, nervosa. — Você acha que é melhor do que eu agora? Beatriz levantou-se lentamente. — Não. Eu só aprendi a não me vender mais. A mãe se levantou também. — Você vai se arrepender. Família é tudo que a gente tem. Beatriz colocou a bolsa no ombro. — Família não negocia filha como mercadoria. Antes de sair, ela olhou diretamente nos olhos da mãe e disse, sem elevar a voz: — Ele não quis casar com a senhora, né, mãe? Então casa com ele. Virou-se e saiu. Do outro lado da rua, o homem de óculos escuros se levantou discretamente e passou a caminhar atrás dela, mantendo distância. Beatriz não olhou para trás. Dessa vez, ela não estava fugindo. Ela estava escolhendo.
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