cortando lanços com a mae

405 Words
O silêncio tomou conta do quarto assim que a ligação caiu. Beatriz ficou alguns segundos com o celular ainda na mão, o peito subindo e descendo rápido demais. As palavras tinham saído firmes, mas o corpo tremia — não de medo, e sim de exaustão. Ela pousou o telefone sobre a cama. Bruno estava ali. Não interrompeu, não se meteu, não fez perguntas enquanto ela falava. Apenas entrou em silêncio, colocou a xícara de chá na mesinha de cabeceira e o suco ao lado, como quem diz estou aqui sem precisar falar. Ela fechou os olhos por um instante. — Eu consegui… — disse baixo, mais para si mesma do que para ele. — Eu consegui dizer não. Bruno sentou ao lado dela, com cuidado, respeitando o espaço. — E foi a coisa mais corajosa que você fez hoje — respondeu. Ela soltou um riso curto, quase sem humor. — Eu demorei tanto pra entender que não era amor… nem da parte dele, nem da parte dela. — Abriu os olhos, marejados. — Sempre tinha um preço. Sempre tinha uma condição. Bruno segurou a mão dela com firmeza, mas sem força. — Aqui não tem condição nenhuma, Bia. Você não me deve nada. Nem obediência, nem corpo, nem silêncio. Ela respirou fundo, como se aquelas palavras precisassem ser absorvidas com calma. — Eu sei. — Olhou para ele. — E é por isso que eu não vou voltar atrás. Eu não vou mais permitir que ninguém me use como moeda de troca. Ele inclinou a cabeça, encostando a testa na dela. — Então acabou. — A voz dele era serena, decidida. — Esse ciclo acabou. Beatriz sentiu algo diferente no peito. Não era alívio total — ainda não. Mas era o começo de algo novo. Paz. Ela apoiou a cabeça no ombro dele, fechando os olhos. — Se ela ligar de novo… — A gente troca o número. — Ele respondeu sem hesitar. — Se o Caio tentar qualquer coisa… — Eu resolvo. Legalmente. Do jeito certo. — Pausou. — E você nunca mais vai lidar com isso sozinha. Ela assentiu devagar. Pela primeira vez, cortar laços não doeu como abandono. Doeu como libertação. E enquanto o chá esfriava na xícara e a tarde avançava do lado de fora da mansão, Beatriz entendeu algo essencial: Às vezes, amar a si mesma significava fechar portas — mesmo que fossem portas que um dia chamaram de família.
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