*Passado on*
O sol passando pelas frestas da cortina bateu no meu rosto, mas o que me fez dar aquele sorrisinho de canto foi o peso no colchão e as lembranças da noite passada. Abri os olhos devagar, espreguicei os braços e olhei pro lado. Daniela tava ali, minha fiel, deitada de boa, com o cabelo todo espalhado no travesseiro. Do outro lado da cama, um espaço vazio denunciava que a outra mina que ela mesma trouxe pra noitada já tinha metido o pé. Dei risada sozinho, lembrando da bagunça.
Levantei devagar pra não acordar a Dani. Sentei na beira da cama, passei a mão no rosto e tentei organizar as ideias. A ressaca do sono ainda pesava, mas eu sabia que o dia ia ser longo. Fui até o banheiro, liguei o chuveiro e deixei a água gelada me despertar de vez. No espelho, vi que as olheiras tavam fundas, mas fazer o quê? A vida que eu escolhi não tinha espaço pra descanso.
Quando voltei pro quarto, Dani tava encostada na cabeceira, mexendo no celular. Ela levantou os olhos e abriu um sorrisinho preguiçoso quando me viu.
— Bom dia, bebê. — A voz dela ainda vinha meio rouca de sono. Ela se levantou e me abraçou por trás. — Curtiu o presente?
Dei um sorrisinho de canto, sem virar pra ela.
— Gostei, sim. Foi top.
Comecei a me vestir, puxando uma camiseta do armário, mas ela continuava grudada em mim.
— Não parece que gostou... tá tão sério, Alex. — A voz dela saiu meio magoada, como quem esperava mais entusiasmo.
— Gostei, sim. Tu só precisa fazer mais vezes, — respondi, direto, sem firula.
Ela se afastou um pouco, surpresa. Ficou quieta por alguns segundos antes de soltar:
— Não se acostuma, Alex. Essa foi só uma exceção. Tu sabe que eu não sou dessas.
Parei de vestir a camiseta e virei para encará-la, arqueando uma sobrancelha.
— Tu que sabe, Dani. Mas depois não reclama quando eu procurar outra na rua. Tu sabe que eu não curto ficar só no feijão com arroz todo dia.
Ela me lançou um olhar fechado, mas não retrucou. Peguei uma bolsa de dinheiro que estava no guarda-roupa, joguei no ombro e comecei a sair.
— Vai pra onde, Alex? — ela perguntou, cruzando os braços e me encarando.
— Resolver uma parada. Veste tua roupa e rala pra tua casa. Tu sabe que a Juliana não gosta de tu aqui.
Nem esperei resposta. Desci as escadas com a bolsa pendurada no ombro e dei de cara com a Juliana, parada na sala com os braços cruzados e uma expressão nada amigável.
— Bom dia, querido irmão. — O sarcasmo na voz dela era tão claro que me fez rir. Resolvi entrar no jogo.
— Bom dia, querida irmã.
— Bom dia só pra você, né? Porque pra mim tá péssimo, Alex. Tua noitada com as tuas vagabundas acabaram com a minha noite de sono!
Levantei as mãos em rendição, tentando aliviar o clima.
— Calmou, preta.
Antes que eu conseguisse falar mais alguma coisa, a Dani apareceu no topo da escada, olhando pra Juliana daquele jeito que eu já sabia que ia dar m***a.
— v*******a é o c*****o, tá? Me respeita, Juliana.
— v*******a sim! Cachorra da pior espécie! — Juliana disparou, cruzando os braços, firme.
Dani desceu os degraus pisando firme, pronta pra tretar. Antes que começasse o barraco, meti a mão no braço dela e segurei firme.
— Sai fora, Dani. Depois a gente troca ideia.
Ela hesitou, mas quando viu que eu tava falando sério, bufou e saiu, batendo a porta com força.
Virei pra Juliana, que ainda tava com aquele brilho de raiva nos olhos.
— Por que tu não me deixa morar sozinha, Alex? Eu não sou obrigada a aguentar essa m***a todo dia!
Suspirei fundo, tentando manter a calma.
— Relaxa, preta. Eu prometo que vou fazer menos barulho da próxima vez. — Tentei quebrar o clima tenso com um sorriso.
— Menos barulho? — Ela bufou, incrédula, me dando um t**a no ombro. — Eu juro que da próxima vez eu vou me mandar daqui.
— Faz isso não, preta. Tu sabe que eu quero tu aqui. Não é seguro pra cê morar sozinha.
— Ah, pronto! Não é seguro por quê? Quem vai mexer comigo sabendo que sou tua irmã?
— Não interessa. Não quero e pronto.
— Eu não sou mais criança, Alex.
— f**a-se. Já falei que você não vai morar sozinha.
Ela jogou as mãos pro alto, derrotada.
— Tu é muito chato, sabia?
— Eu sei. — Dei um sorriso debochado. — Preciso ir. Mais tarde a gente conversa.
Ela olhou a bolsa no meu ombro e arqueou a sobrancelha.
— Pra onde tu vai com essa bolsa?
— Resolver uma parada.
— O que tem aí dentro?
— Assunto meu.
Antes que ela retrucasse, dei um beijo rápido na testa dela e saí. No carro, joguei a bolsa no banco de trás e liguei o motor. Só que, por algum motivo, um aperto estranho bateu no peito. Um pressentimento r**m. Mas ignorei.
Pouco antes de descer o morro, parei na barreira para trocar ideia com os vapores que seguravam a bronca. A responsa deles era garantir que nada de estranho rolasse enquanto eu estivesse fora.
— Ae, rapaziada, fica ligeiro, tá ligado? — falei, encarando o Guga, que era o mais novo no corre. — Vou descer pra resolver um bagulho, mas já tô na pista. Qualquer fita estranha, manda o salve.
— Demorou, chefe. Aqui tá tudo dominado, pode crer. — respondeu ele, levantando o fuzil.
Depois de um aceno de cabeça, saí disparado com o carro. O ronco do motor ecoou enquanto eu descia a ladeira com o som no baixo, mas a mente tava longe. Era dia de acertar o corre com o Nino. Desde que ele me ajudou a escapar do Playboy, a gente criou um acordo: ele segurava umas informações e, em troca, eu garantia a grana dele no final do mês.
Cheguei no estacionamento privado, aquele lugar sem câmeras onde a gente sempre se encontrava. Era discreto, perfeito. Encostei o carro numa sombra, desci e me posicionei de costas pra parede, de olho em tudo ao redor. Minhas mãos estavam inquietas, mexendo no isqueiro no bolso, enquanto a ausência do Nino começava a martelar na minha cabeça. Ele nunca se atrasava.