O reflexo no espelho mostrava Suze me encarando com aquele sorrisinho sacana enquanto passava o batom. Olhar cheio de maldade, cheia de ideia errada. Eu retribuí, largado na pia, só admirando cada detalhe dela. Por um segundo, o mundão lá fora sumiu.
— Que foi? — perguntou, ajeitando os fios do cabelo sem nem desviar do espelho.
— Nada — dei de ombros. — Só curto te ver assim… toda s****a.
Suze riu daquele jeito s****o e veio colando em mim, jogando os braços no meu pescoço. Sem nem dar tempo pra eu pensar, já grudou a boca na minha, me dando aquele beijo gostoso, molhado, cheio de língua, do jeitinho que eu curtia.
Segurei firme na cintura dela, apertando de leve, enquanto a gente se afundava no beijo, sem pressa, sem vergonha. O bagulho tava esquentando, a respiração ficando mais pesada, o coração batendo acelerado. Suze soltou um gemidinho baixo, e eu já ia partir pra algo mais quando, do nada, a porta do banheiro fez aquele rangido e se abriu de uma vez.
Na hora, a gente se desgrudou. Suze ainda passou a mão no cabelo, tentando disfarçar, enquanto eu encostava na pia, fingindo naturalidade.
Uma tia de uniforme azul e avental branco entrou empurrando um carrinho de limpeza. Olhou direto pra gente, já com cara de poucos amigos.
— O que o senhor tá fazendo aqui dentro? — perguntou com um tom meio azedo.
Na rapidez, soltei a primeira desculpa que me veio, num inglês meio capenga:
— Minha esposa não tá bem. Eu entrei pra ajudar ela.
A mulher arqueou a sobrancelha, dando aquele confere na cena.
— Sei... O senhor não pode entrar aqui — indagou ela com seu sotaque novaroquense.
— Relaxa, tia... — Ela me olhou confusa. — Não se preocupa, eu só entrei porque ela precisava da minha ajuda, mas já tá suave, né amor?
— Sim, tô muito melhor — respondeu segurando o riso.
Sem mais papo, a tia pegou seu balde e entrou numa das cabines.
Assim que a porta se fechou atrás dela, a Suze segurou o riso, tapando a boca com a mão. A gente saiu do banheiro apressado e assim que passamos pela porta, caímos na gargalhada.
— Você viu a cara dela? — disse Suze rindo.
— Vi! A tia parecia um pitbull brabo!
— Já pensou se ela pega nós transando?
Eu sorri, chegando pertinho dela.
— Eu ia perguntar se ela queria se juntar à nós!
Suze arregalou os olhos e depois riu ainda mais.
— Acha mesmo que ela ia topar um ménage com dois desconhecidos no banheiro, Alex?
Dei de ombros, rindo.
— Sei lá, não custava perguntar!
Eu ri junto com a Suze, ainda sentindo aquela adrenalina do momento. Mas logo o riso foi cortado quando passamos por uma família e meus olhos cruzaram com os de uma garotinha pequena, não tinha nem três anos. Ela me encarou por um segundo e eu vi o rostinho dela se contorcer de medo puro. Os olhos dela arregalaram como se tivesse visto um pesadelo bem na frente dela. Antes que eu pudesse desviar o olhar, ela começou a chorar.
Não era um choro comum, não era aquele choro de criança que quer atenção ou tá frustrada. Era um choro desesperado, cheio de pavor.
Meu coração afundou no peito, pesado igual uma pedra jogada num lago profundo.
Puxei o capuz sobre minha cabeça na hora, como se aquilo pudesse apagar a imagem que ela acabou de ver. Escondi as mãos nos bolsos, como se quisesse enfiar cada parte de mim em um buraco e desaparecer dali.
O olhar da mãe foi rápido, um pedido silencioso de desculpas enquanto tentava acalmar a filha. Mas eu vi. Eu sempre via. O mesmo olhar que todos davam. O mesmo olhar que perguntava "o que é isso?", mesmo quando a boca não tinha coragem de perguntar.
A dor veio como um soco. Não por aquela criança; ela não tinha culpa. Mas porque aquilo sempre acontecia. Sempre.
Por um momento, esqueci que meu rosto não era como o das outras pessoas. Esqueci que minha pele carregava marcas, que meu corpo era estranho e que meus olhos tinham um brilho incômodo que assustava quem olhasse por muito tempo.
Eu esqueci que, para o mundo, eu era um monstro.
E aquela criança, com seu medo genuíno, me lembrou da pior maneira possível.
Andei apressado pelo aeroporto, sentindo o peso do meu próprio corpo como se fosse feito de chumbo. Cada passo parecia errado. Como se eu não devesse estar ali. Como se eu não pertencesse a lugar nenhum.
A Suze me seguiu, mas eu não tive coragem de olhar pra ela. Eu sabia que seus olhos estariam cheios de compaixão e talvez fosse isso que mais doía. Eu não queria que ela sentisse pena; eu só queria, por um momento, não ser visto como algo que precisa ser temido.
Sentei-me num dos bancos perto das nossas malas e abaixei a cabeça. Meu peito doía.
— Alex... — Suze chamou baixinho.
— Eu esqueço às vezes. — Minha voz saiu rouca. — Esqueço que sou assim.
Ela se aproximou e apertou minha mão.
— Você não precisa se esconder de mim.
Soltei um riso amargo.
— Mas preciso me esconder do mundo.
Ela não negou. Só sorriu de leve.
— A garotinha só se assustou. Crianças reagem assim quando veem algo que não entendem.
Talvez fosse verdade.
Mas, naquele momento, o único pensamento rodando na minha mente era que o mundo sempre ia me ver como uma coisa. Sempre. Como se eu não tivesse direito nem de existir, de andar por aí sem carregar esse fardo todo por causa dele.
Daquele arrombado do Playboy.
Filho da p**a!
Destruiu minha vida e saiu ileso, como se nada tivesse acontecido.
Mas eu juro, mano.
Ele não vai sair de boa dessa.
Ele vai pagar.
Cada cicatriz no meu corpo. Cada olhar torto que eu recebo. Cada vez que eu abaixo a cabeça porque os outros me veem como um monstro… tudo isso tem um preço. E quem vai cobrar sou eu.
Porque eu não esqueci.
E nunca vou esquecer.
E quando chegar minha hora… quando eu olhar dentro dos olhos dele e ver o medo batendo forte, do jeito que ele fez comigo… aí sim, talvez, eu consiga respirar de novo.