Capítulo 4

4284 Words
Diego Bittencourt Saber que além de trabalhar com o marido de Gabriela, eu iria ter que trabalhar com ela também, mexeu comigo. Ficar a sós com ela na minha sala foi torturante, ela estava muito bonita, sua boca ainda parecia me convidar para um beijo, as lembranças do que já fomos invadiu minha cabeça e eu lutava com todas as minhas forças para tirá-las de mim. Gabriela tentava me contar tudo o que foi dito na reunião que eu não participei mais cedo e eu tentei focar apenas no que sua boca proferia, mas me perdia no movimentar de seus lábios. Quando ela saiu da sala, um alívio tomou conta de mim e eu pude finalmente fixar minha mente na realidade. O dia foi puxado, havia muito a ser feito e eu queria adiantar tudo o que conseguisse, por isso, acabei ficando até tarde no trabalho, de novo. Pedi para Júlia ficar também, afinal, era ela quem estava me ajudando, ela concordou e ficou trabalhando comigo na minha sala, e olha, nunca gostei de trabalhar com ninguém dessa forma, era sempre eu e eu mesmo no quesito trabalho, mas com ela as coisas simplesmente fluíam, as ideias brotavam e eu conseguia adiantar muita coisa em um único dia de trabalho. Eu já havia tido outros estagiários, alguns com mais experiência que ela, mas nenhum deixava o trabalho tão leve e fácil quanto ela. Apesar dos sarcasmos e da resposta sempre na ponta da língua para tudo. - Ei, sério. Você tem que ampliar seus horizontes musicais. Como é que alguém que lê Nietzche e gosta dos clássicos de Jane Austen, não gosta de música popular brasileira? – falava com Júlia enquanto estava parado ao lado de sua mesa sobre um assunto que surgiu enquanto terminávamos o trabalho de hoje. - Não sei, mas talvez quando eu precisar dormir eu coloque pra escutar – eu sorri com sua fala e ela sorriu logo em seguida. - Seu sorriso é lindo, sabia? – deixei meu lado sedutor falar mais alto, ela corou – Que tal me deixar compensar o que rolou no final do jantar de sábado, agora? – ela apenas balançou a cabeça negativamente – Eu juro que não vou tentar nada. – continuei – Vai ser só um jantar e depois te deixo em casa. Dessa vez você nem precisa falar onde é, porque sou ótimo em decorar os lugares por onde passo. - Tá bom. – ela respondeu depois de um instante de hesitação – Deixa eu avisar a minha avó que eu vou me atrasar ainda mais. – ela disse mexendo no celular, eu a olhava e ela estava linda hoje – Pronto. – disse depois de deixar uma mensagem para sua avó – Espero que ela não ache que estou tendo um caso com você. - E isso seria r**m? – perguntei com um sorriso sacana em meus lábios. - Vamos – foi tudo que ela respondeu enquanto se levantava. Depois disso fomos em direção ao elevador, Gabriela e Gustavo estavam por lá, os cumprimentei e entramos nele. Conversava com Júlia, enquanto eles seguiam calados, quando saímos do elevador, os chamei para jantar, esperava receber um “não”, mas eles acabaram aceitando. O jantar foi tranquilo, ao contrário do que eu imaginei. Ver Gabriela com o marido em um jantar doeu menos do que saber da notícia em um almoço. Talvez, por eu estar com Júlia e ter notado o desconforto de Gabriela com isso. Antes de irmos embora, eu botei Júlia para ouvir uma música do Oswaldo Montenegro e para minha surpresa, ela não só ouviu, como também prestou atenção à letra, me recordei que nunca consegui fazer isso com Gabriela... Quando ela terminou de ouvir, seus olhos estavam marejados, mas não quis invadir sua privacidade, não ali, com outras pessoas por perto, então me contive em dizer “A música é linda, não é?”, recebi um sussurro de concordância e depois, silêncio. Júlia ficou retraída em seu mundo após ouvir a música e eu torcia para o jantar acabar logo. Quando finalmente acabou e caminhamos em silêncio até o meu carro, entramos e eu dirigi, esperei até já termos atingido um grau constrangedor de silêncio dentro dele. - Você ficou muito calada depois de ouvir a música. Achou ela tão r**m assim? – mais uma vez, Júlia apenas deu um sussurro em negativa, mas dessa vez sua voz saiu um pouco mais trêmulo do que talvez ela gostaria – Quem você perdeu? – perguntei não contendo a curiosidade e enxergando naquele ato dela algo que já era íntimo em mim, ela ficou em silêncio – Desculpa – pedi ao perceber que eu havia sido inconveniente. - Tá tudo bem. – falou me olhando, a olhei rápido enquanto dirigia. - Eu sinto muito. – me resumi em falar, afinal não queria ser inconveniente de novo – Eu perdi minha avó. Já tem cinco anos. Foi ela quem me ensinou a gostar de Oswaldo. Ela sempre foi meu porto seguro, talvez eu a amasse mais do que a minha mãe. Ela basicamente me criou, me ensinou tudo que sei. Doeu demais perdê-la. – falei e um nó se formou em minha garganta – Se importa se eu parar um pouco? - Não – ela respondeu de pronto. Eu encostei o carro em uma praça sem movimento, segurei o volante com as duas mãos e em seguida controlei minha respiração. - Desculpa por isso. – falei depois de notar o olhar de Júlia sobre mim – Eu nunca havia falado sobre isso com ninguém – admiti. - E por que falou agora? – ela perguntou me olhando, virei meu rosto e a encarei. - Você sentiu a música. – ela olhou para a frente – E eu... – ela me interrompeu. - Minha mãe – ela me cortou e falou com ar triste. - Eu sinto muito! – falei me voltando para ela. - Eu também. – um silêncio se instaurou no carro – Foi em um assalto. – falou depois do silêncio – O cara que nos assaltou estava drogado. A gente não reagiu e nem nada. Mas ele atirou nela, duas vezes, e uma em mim. – ela colocou a mão perto da virilha – Eu tinha oito anos. A gente tava voltando de uma das casas em que minha mãe trabalhava como diarista. Nesse dia ela me comprou um pirulito. – seus olhos marejaram e sua voz ficou trêmula, eu segurei em sua mão e ela me olhou – Sabe, a parte da música que fala sobre o filho que morre antes do pai? – eu apenas acenei positivamente – Eu vi como minha avó ficou, ela teve que lutar contra a depressão depois de perder minha mãe. Eu quase perdi as duas... – parou de falar e tentou controlar a respiração para não chorar. - A vida não faz nenhum sentido... – comentei lembrando da minha avó. - Não mesmo. – concordou – Talvez eu escute mais músicas desse seu cantor aí – ela falou tentando soar animada, mas seus olhos refletiam a dor que estava sentindo. - Depois que começar a gostar dele pode me agradecer indo almoçar comigo. – falei e ela sorriu, eu respirei fundo – Vamos? – perguntei e a vi fazendo o mesmo. -Vamos. Voltei a dirigir. O caminho agora foi mais silencioso, porém não foi constrangedor. Quando chegamos em sua casa, desliguei o carro, ela se virou um pouco para o meu lado e me olhou. - Obrigado – agradeceu. - Espero que a noite tenha sido melhor que a de sábado. – falei – Se bem que não me beijar não deve ter melhorado nada, mas respeito sua escolha – tentei soar sério, mas não contive o sorriso que se formou em meus lábios. - Foi uma noite agradável. – ela disse e se aproximou do meu rosto, beijando minha bochecha, depois colocou sua mão direita em meu rosto e sussurrou em meu ouvido – Sinto muito pela sua avó! – acariciou minha bochecha e novamente a beijou. Suas palavras saíram suaves, não me doeu ouvir isso, ela afastou um pouco seu rosto e desfez o toque de sua mão em minha bochecha, eu virei meu rosto para ela e busquei sua bochecha, depositando um beijo nela. - Até que para alguém quase interessante, você é bem legal – falei, ela sorriu e eu encarei seus lábios. O clima ficou um pouco tenso. Senti vontade de beijá-la novamente, mas prometi não fazer isso. Mas a proximidade com a boca daquela mulher... Senti minha respiração ficar ofegante, notei que a dela também ficou, ela olhou para minha boca, em seguida se afastou. - Melhor eu ir. – falou abrindo a porta do carro – Novamente, obrigado. Eu apenas pisquei o olho para ela, que desceu e se perdeu entrando em casa. Liguei o carro e fui embora. Alguns minutos depois meu celular tocou, Yan estava me ligando, eu atendi enquanto dirigia. - Oi cara, manda! – disse colocando no viva-voz. - Diego, vai rolar uma festinha no Tiago. Vamos? – sua voz soava animada. - Hoje não dá, estou indo para casa agora, o dia foi bem puxado – respondi, por algum motivo eu não estava com vontade de sair. - “Qualé” cara, vamos, vai ser divertido e a Larissa vai estar lá. - Que Larissa? – perguntei. - Aquela gata da balada que você deixou passar por tá pegando a ruiva dos peitões – me respondeu. - Ah! – falei me recordando da mulher – Sei lá Yan, hoje ainda é segunda e amanhã meu dia no trabalho vai ser cheio... – ele me interrompeu. - E desde quando você se importa com isso? – verdade, não me importava com isso, respirei fundo antes de responder. - Chego já lá. - Ei... Passa aqui antes, tive que deixar meu carro na oficina. - Tudo bem, chego já aí – disse desligando. Me dirigi até a casa de Yan, para depois irmos à festa de Tiago. Mas, antes de falar sobre a festa, deixe-me contar-lhes um pouco sobre Yan, afinal, ele é meu melhor amigo. Yan é um rapaz (sim, ainda não consigo defini-lo como homem) de 27 anos, loiro, de olhos castanho escuro, com barba malfeita e um alto astral sempre presente. Foi ele quem me fez voltar a ser assim, festeiro, após meu término com Gabriela, apesar de ter total consciência de nossas diferenças, Yan sempre esteve ali para mim, sempre me deu apoio e me ajudou em tudo. Ele é o filho mais novo dos melhores amigos do meu pai, por isso vive sendo mimado e nunca precisou trabalhar. Yan vive e age como um eterno adolescente, até sua forma de falar soa como tal. Sua vida era sempre farra, quando não estava festejando, estava em casa dormindo ou reclamando da ressaca causada pelo dia anterior. Por viver sempre nas festas, ele não faz distinção entre os dias da semana, como por exemplo hoje, que é segunda-feira e ele me carregando para uma. Claro que eu o deixo fazer isso, no fundo até gosto de parecer um adolescente sem problemas e sem compromissos no dia seguinte. Mas o fato é que eu sempre acabo me dando m*l nessas festas durante a semana. Sempre bebo demais tentando acompanhar Yan e acabo indo trabalhar com ressaca e não sendo nada produtivo. O pior é que mesmo sabendo disso, eu me deixo levar e aceito ir. Hoje é um desses dias, mesmo sem querer ir e sabendo que amanhã tenho trabalho logo cedo, aceitei o convite de Yan para ir à festa de Tiago. - E aí cara! – Yan falou me cumprimentando com um toque de mãos ao entrar no carro – Animado pra festa? – falou com um sorriso no rosto. - Mais cansado do que animado – fui sincero. - Ih cara, vai pra lá com esse cansaço! Eu quero é aproveitar a noite – falou esfregando as mãos. - Como sempre – falei. - Vamos logo! – foi sua resposta. Dirigi até o local da festa, Yan desceu do carro todo animado após eu estacionar, eu fiquei sentado olhando para a frente me perguntando o porquê de estar ali. Até que o vi batendo no vidro do carro me mandando descer. Eu até tentei aproveitar a vibe leve que a festa, com toda certeza, tinha, mas falhei miseravelmente. Até minha tentativa de conversar com Larissa foi frustrada, havia coisas demais em minha mente e por mais esforço que eu fizesse para estar no agora, eu me voltava para um mundo paralelo que eu construí só para mim nos últimos dias. - Achei que você fosse diferente. – Larissa me tirou de meus devaneios – Achei que tivesse mesmo interessado, mas pelo visto estou perdendo meu tempo aqui. - Desculpa. Tô com muitas coisas na cabeça, o trabalho tem exigido muito de mim – menti. - Que seja. Foi quase um prazer te conhecer – falou me dando as costas e caminhando em direção a um grupo de garotas que dançavam um pouco afastadas de onde estávamos. Fechei meus olhos e dei um longo suspiro, em seguida, coloquei minha mão esquerda em meus olhos e afaguei o lugar enquanto balancei a cabeça negativamente e pensei “Mais que m***a Diego, mais que m***a!”. Quando abri os olhos, procurei Yan pelo local e não o encontrei, peguei o celular e liguei para ele, mas não obtive sucesso algum. Me levantei e comecei a andar pelo local com os olhos em busca de meu amigo, mas novamente, nada. Suspirei forte. Peguei o celular e mandei uma mensagem para ele “Cara, tô indo, trabalho amanhã cedo. Flw!” balancei a cabeça negativamente uma vez mais, depois dei uma última procurada em volta e em seguida desisti. Comecei a andar em direção a saída e quando dei por mim, já estava dentro do meu carro dirigindo até meu apartamento sozinho. No dia seguinte cheguei cedo no trabalho, havia muito a ser feito e hoje daria retoques no trabalho que havia realizado com Júlia no dia anterior. Comecei a revisar tudo o que havíamos feito e surpreendentemente não havia muito o que concertar ali, me permitir sorrir suave, mas logo o sorriso foi desfeito quando ouvi o som de três batidas na porta. - Senhor Bittencourt? – a voz de Júlia invadiu aquela sala e senti minha boca ameaçar outro leve sorriso em resposta, mas o contive. - Júlia. Bom dia. Entre – falei. - Não sabia que era pra vir mais cedo hoje? – seu tom carregava uma afirmação interrogativa, que foi acompanhada por sua expressão facial – O senhor precisa de ajuda? – seu tom coloquial e utilização de pronomes de respeito demonstrava que apesar do momento que tivemos, ela não misturava o profissional com o pessoal, interessante. - Não, não era. E não, não preciso. Eu decidi chegar mais cedo para organizar as coisas. Retocar o que fizemos ontem. – ela se aproximou da minha mesa olhando para os papeis que eu segurava e que estavam espalhados ali – Mas não tinha muito o que fazer, então isso aqui já tá finalizado, só estou organizando tudo. – falei e notei seu olhar parar em mim – E não precisa me chamar de senhor. - Mas estou no meu local de trabalho – falou. - E eu também. E proíbo todo mundo de me chamar de senhor, não tenho idade para isso – tentei soar descontraído. - Tudo bem, então nada de senhor – falou tentando dar um sorriso suave. - Ótimo. – falei e a encarei e ela ficou ali – Você poderia revisar esses relatórios pela tarde? Sei que tem coisa para fazer agora pela manhã. - Claro. – ela falou pegando-os – Mais algo? - Não, só isso. Obrigado – sorri para ela que retribuiu com um sorriso tão discreto que nem parecia estar lá. A manhã foi passando, assim como a tarde e hoje eu decidi me focar apenas no trabalho. Ignorei por completo meu celular e até decidi almoçar na minha sala. Não queria ver Gabriela, não hoje, não depois de ontem. O momento que passei com Júlia dentro do meu carro foi diferente, eu me senti tão a vontade para ser eu mesmo. E a vontade que senti de beijá-la antes dela descer... Chega de pensar! Quando olhei para o relógio havia -se passado 20min da hora que eu costumava sair, as cortinas da minha sala estavam abertas e eu instintivamente olhei para fora e vi Júlia ainda trabalhando nos relatórios que eu pedi e eu notei que ela tinha problemas em deixar as coisas pra depois se não fosse mandada deixar pra lá. - Ei, já passou da hora de você ir embora – falei parado na minha porta. - E do senhor também. – a encarei como quem repreende alguém que fala algo errado – Você! – se autocorrigiu. - Parece que tá virando costume nunca sairmos no horário. - Pois é, eu estou apenas finalizando o último antes de ir – falou. - Ótimo, eu lhe espero. Posso te dar uma carona? – perguntei. - Carona? Carona se dá quando a pessoa mora no seu caminho de casa, não quando ela mora do outro lado da cidade – respondeu tão rápido que eu me peguei rindo. - Tem razão. Talvez eu só queira passar um tempo contigo sentada no banco do carona do meu carro – dei um sorriso de canto de boca. - i****a! – ela falou e eu fiz cara de ofendido. - Nossa, é assim que você trata o seu chefe? – balancei a cabeça negativamente – Que f**o dona Júlia – ela revirou os olhos. - Eu recuso gentilmente a sua carona, chefe. – ela disse com tom de deboche – Melhorou? - Um pouquinho. – umedeci os lábios enquanto ainda olhava para ela – A gente pode ir jantar... – ela me cortou antes que eu conseguisse finalizar o meu argumento. - Passo. - Não deixou eu nem finalizar o que ia falar – arqueei uma sobrancelha. - Não preciso que você finalize, eu apenas recuso o convite gentilmente antes que você gaste mais forças, saliva e esforço cerebral para tentar me convencer de algo que eu não vou mudar de ideia – falou em um só fôlego. - E por que não? – me aproximei de sua mesa. - O primeiro jantar foi okay, estava extremamente tarde e eu tava morrendo de fome, da segunda vez já foi duvidoso, mas devido ao final do primeiro, achei que poderia aceitar, mas esse? – franziu a testa – É totalmente ilógico aceitar. - Perspectiva. – falei me encostando de costas na mesa dela e cruzando os braços – Por exemplo, eu acho totalmente lógico – contive uma risada que queria sair da minha boca. - Ah, é? Ótimo pra você. - Ter companhia pra jantar é sempre melhor que jantar sozinho – falei. - Certeza que se for por esse motivo você deve ter um leque de opções, então escolhe uma delas e pronto, resolveu seu problema – olhei para a frente, soltei uma risada leve e voltei minha atenção para a mulher sentada. - Estou escolhendo, mas essa opção é bem difícil e cabeça dura – nossos olhos se travaram um no outro e um momento de silêncio se fez presente. Ela desfez o olhar e encarou os papeis a sua frente, depois passou seus olhos para a tela e em seguida encontrou meu olhar novamente. - Tenho que terminar isso. Mas muito obrigado pela oferta de carona e pelo convite para jantar – sorri. - Certo. – me desencostei da mesa e comecei a andar até minha sala, mas parei e olhei para trás – Mas você sabe que devia aceitar não é? - Tchau, Diego – ela se resumiu em falar. Voltei para minha sala e arrumei as minhas coisas, antes de sair encarei Júlia, que não me olhou, por algum motivo, entendia o porquê dela não querer aceitar meus convites, mas isso não me impediu de ficar na porta da empresa, encostado na lateral do carro esperando ela sair. - Sério isso? – ela falou quando me viu parado encarando-a. - Não precisa ser um jantar em um restaurante chique. Podemos comer um fast food, ou ir em qualquer lanchonete por aqui e comer – falei. - Você não sabe quando parar? – perguntou se aproximando de mim. - Quando quero muito algo, não mesmo. – deixei escapar e temi como isso poderia soar, o que rapidamente foi comprovado pelo silêncio que se formou – Eu pedi para você revisar os relatórios, você perdeu a hora, vai ficar esperando seu transporte, então... Não me custa te levar pra comer algo e depois te deixar em casa – tentei amenizar. - Você é um saco, sabia? – falou e eu apenas sorri abrindo a porta do carona para ela. - Vai mesmo ter coragem de recusar isso? – fiz minha melhor cara de empolgação que resultou em um sorriso no rosto de Júlia. - Eu tenho mão e sei abrir a porta de carro – ela falou e me lembrei que foi exatamente isso que ela disse da primeira vez que fomos jantar. - Esqueci disso. – falei fechando a porta e me dirigindo para o lado do motorista – Vamos – disse antes de abrir a porta e entrar no carro, a vi fazendo o mesmo. Tentei puxar alguns assuntos, mas não consegui sustentar nenhum, então apenas botei música para tocar. - Sério isso? – Júlia falou me encarando ao ouvir Oswaldo Montenegro tocando. - Que? – sorri. - Nossa, espero que cheguemos logo aonde quer que seja – falou colocando a mão esquerda no rosto. - É aqui perto. Poucos minutos depois estávamos em uma lanchonete, ela era pequena e aconchegante, tirei meu terno e gravata e abri dois botões da minha camisa antes de descer do carro e Júlia fez o mesmo, caminhamos até uma mesa e nos sentamos lá, pedimos dois sanduiches e eu pedi uma Coca-Cola, enquanto Júlia pediu um guaraná. - Lugares como esse não fazem seu estilo – Júlia comentou após um longo momento de silêncio e de análise no lugar e nas pessoas em volta., mais como uma observação que como um comentário em si. - E qual o estilo de lugar que combina comigo – instiguei uma conversa mais longa. - Chique, com comidas tão caras que pagariam um mês do aluguel da minha casa – foi sincera. - Você só conhece um lado de mim, Júlia. – falei e ela me encarou. - O lado que você demonstra ser. - Se quiser pode conhecer o outro. – uma tensão tomou conta do ar daquele local, a garota a minha frente ficou em silêncio, que não durou tanto, pois nossa comida chegou – Obrigado – respondi e Júlia apenas acenou. Comemos em silêncio, Júlia evitou qualquer contato visual comigo, mas eu seguia buscando seu olhar. Aproveitei sua fuga para reparar mais nela e ual, ela era muito mais bonita do que eu havia achado. Seus cabelos castanho claro estavam presos em um r**o de cavalo, deixando algumas mexas caídas em seu rosto, esse penteado deixava a mostra seu pescoço e ele se apresentava muito sexy, o que se alinhava com uma postura extremamente perfeita do corpo dela, apesar da camisa social que ela vestia, seus ombros se mostravam bonitos e o volume em seus p****s se fazia presente. Subi meus olhos até sua boca enquanto ela sugava o líquido da latinha e ela fazia isso de uma forma sexy, mesmo sem nem perceber. O nariz dela era lindo e combinava perfeitamente com ela, olhei sua boca novamente e depois subi meu olhar até o dela, dessa vez eu o encontrei e os castanhos que se faziam presentes ali me fez ficar preso neles. - É f**o encarar as pessoas enquanto elas estão comendo – ela disse sorrindo, tanto com os lábios, quanto com os olhos, minha boca acompanhou o sorriso. - Desculpa. – falei – Seu olhar é lindo. – novamente deixei escapar, mas antes que um clima estranho se instaurasse mudei o assunto – Gostou do sanduíche? – perguntei ao notar que ela já estava acabando. - É muito bom. - E barato – disse retomando o que ela havia falado antes. - Talvez você seja um pouco diferente do que aparenta – soltou e depois levou o resto do sanduiche a boca. - Nem tudo é o que parece, não é mesmo? – disse dando o último gole em minha bebida e recebi apenas um aceno como resposta. Ficamos ali sentados por pouco menos de 5 min após terminarmos de comer, uma olhando para o outro, apesar do olhar de Júlia sempre fugir. Até que quebrei o silêncio. - Quer fazer algo? - Ir pra casa, talvez? – respondeu. - Sem ser ir pra casa agora? – sorri para a garota a minha frente. - Olha Diego... – a interrompi. - Qual é? Vamos vai. Seu olhar buscou o meu, e novamente me perdi nos castanhos de seus olhos, mas ainda assim, notei seu balançar de cabeça negativamente, eu apenas sorri em resposta, sabia que ela estava relutante pelo que ocorreu em nosso primeiro encontro na festa e pelo beijo que rolou no restaurante. Queria dizer para ela que a gente só ia sair, que eu não tentaria beijá-la, que nem fiz no último jantar, mas eu não podia fazer isso, não quando isso era tudo que eu queria fazer, não quando tudo naquela mulher me atraia, não quando meu olhar caia magneticamente até sua boca.
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