Jenna Reed
Hoje é mais uma noite em que vou faltar à faculdade e, pela primeira vez, não me sinto culpada por isso.
Não posso esperar mais um dia para fazer a minha mudança. Preciso sair daquela casa hoje, antes que minha família encontre outra maneira de me impedir de seguir em frente. Se eles forem mesmo ao tal jantar... é a minha chance.
Depois do que aconteceu ontem, depois de ficar sem jantar e ainda ser cobrada por um dinheiro que sequer recebi, finalmente entendo que não posso continuar aceitando certas coisas como se fossem normais.
Não são.
Nunca foram.
Passei anos tentando me convencer de que as coisas melhorariam, de que meus pais acabariam percebendo o quanto sou importante, de que Patrícia amadureceria e deixaria de me tratar como uma piada ambulante.
Mas estou cansada de esperar.
Cansada de me agarrar a uma esperança que só me machuca.
Hoje, vou embora e ninguém vai me convencer do contrário.
Neste momento, estou na cafeteria, terminando meu expediente. O movimento diminuiu bastante, e aproveito para recolher alguns copos e limpar as últimas mesas. Infelizmente, hoje não foi um bom dia para as gorjetas. Olho para as notas que guardei no bolso do avental e conto rapidinho.
Quatorze dólares.
Apenas quatorze dólares o dia todo.
Suspiro.
É claro que gostaria de ter conseguido mais, principalmente porque cada centavo faz diferença neste momento. Tenho despesas pela frente, preciso comprar algumas coisas para a kitnet e ainda estou tentando me organizar financeiramente depois de gastar praticamente tudo com o aluguel.
Mas não vou reclamar.
Quatorze dólares são melhores do que nada e, pelo menos, logo receberei meu pagament0. Essa é a única coisa que me anima enquanto termino minhas tarefas. Aliás, hoje seria um ótimo dia para aquele empresário aparecer novamente.
Aquele homem bonito, elegante e absurdamente gentil.
Felipe.
Ainda lembro do nome dele e, por algum motivo, também me lembro do sorriso que me deu antes de sair da cafeteria. Balanço a cabeça. Não tenho tempo para ficar pensando em homens bonitos. Principalmente em homens que nunca olhariam para mim.
Tenho uma mudança para fazer!
Termino de limpar a última mesa e guardo o pano no lugar. Depois, confiro se deixei tudo organizado e respiro fundo.
Meu coração está acelerado.
É estranho pensar que, dentro de algumas horas, não estarei mais naquela casa. Não sei exatamente como será a partir de amanhã, mas quero acreditar que tudo dará certo.
Passo pelo corredor em direção ao banheiro dos funcionários e encontro minha gerente.
— Ah, Jenna! Ainda bem que te encontrei.
Paro.
— Oi!
— Soube que amanhã vamos fazer os pagament0s. — Eu sorrio aliviada. — Obrigada por entender o atraso. O problema na cozinha foi grande, mas resolveram.
Meu rosto se ilumina.
— Ah, perfeito! Obrigada por me avisar. Com a minha mudança, vou precisar bastante desse dinheiro.
Ela parece surpresa por um instante.
— Mudança?
Dr0ga.
Quase entrego tudo.
— Sim. Estou organizando algumas coisas... — Respondo rapidamente. — Nada demais.
Minha gerente assente, sem fazer outras perguntas.
— Espero que dê tudo certo.
— Obrigada! Até amanhã.
Sigo pelo corredor aliviada com a notícia.
Essa é a melhor notícia que poderia receber hoje. Meu pagament0 vai chegar na hora certa e não preciso contar com um dinheiro que não tenho, nem pedir ajuda a ninguém. Vou conseguir começar minha nova vida com um pouco mais de tranquilidade.
Entro no banheiro, pego minhas coisas e me troco rapidamente. Depois, confiro meu celular enquanto organizo a bolsa e abro uma rede social quase por hábito. E, como sempre, o perfil de Patrícia aparece entre os primeiros.
Minha irmã adora se comportar como uma blogueira famosa.
Está sempre publicando alguma coisa, mostrando as roupas que compra, os lugares que frequenta e as pessoas com quem sai. Se alguém olhar suas redes sociais, vai imaginar que ela tem uma vida perfeita.
E, considerando o tratamento que recebe dos nossos pais, talvez tenha mesmo.
Eu abro os stories.
No primeiro, ela mostra uma maquiagem nova. No segundo, aparece experimentando uma roupa diante do espelho. No terceiro, filma minha mãe sentada no sofá, enquanto comenta que está se preparando para uma noite especial.
Paro de deslizar a tela.
Uma noite especial?
Então aparece um vídeo de Patrícia exibindo um vestido elegante. A legenda diz que está se preparando para um jantar importante. Sinto meu estômago apertar ao ver isso.
É claro.
O jantar do chefe do meu pai. Aquele para o qual minha mãe exigiu meu pagament0, mas do qual fez questão de me excluir. Olho para a tela por mais alguns segundos e... ela está feliz. Minha mãe também deve estar. E, provavelmente, meu pai está orgulhoso de levar as duas para um evento em que poderão exibir as suas roupas novas.
E eis a foto... eles três, juntos como uma família. Os seus sorrisos largos e postura perfeita.
É... são mesmo uma família!
Eu bloqueio a tela do celular e guardo o aparelho na bolsa. O jantar é a minha oportunidade. Se os três vão mesmo sair, a casa ficará vazia. E, se eu conseguir organizar tudo rapidamente, poderei ir embora sem precisar enfrentar uma discussão.
É arriscado, eu sei.
Mas não tenho outra escolha.
Estou terminando de guardar as minhas coisas quando Iza aparece na porta do banheiro.
— Oi, amiga. Quer ajuda?
Viro para ela.
Só de vê-la, sinto uma onda de alívio.
— Você veio!
Ela sorri e ergue uma das mãos.
— Claro que vim. E olha o que eu trouxe.
Iza se afasta um pouco, revelando uma mala grande ao lado da porta. Fico olhando para aquilo, surpresa. Ela não tinha me falado sobre isso.
— Você trouxe uma mala?
— Sim! Achei que seria melhor do que você tentar carregar tudo em sacolas. Minha mãe tinha essa guardada e me emprestou.
Sinto os meus olhos arderem.
É ridículo, eu sei.
E eu quase choro aqui, mas não é apenas pela mala. É por ela estar aqui. Por não fazer perguntas demais e por me ajudar sem me fazer sentir que estou incomodando. Por me oferecer, em poucas semanas, mais consideração do que recebi da minha família durante anos.
Como pode?
Como uma pessoa de fora da família mostra mais compaixão e gentileza do que os de dentro?
— Iza, muito obrigada.
Ela se aproxima e aperta meu ombro.
— Você não precisa me agradecer por tudo, Jenna.
Preciso, sim.
Mas não digo isso. Apenas sorrio e terminamos de organizar nossas coisas. ela também troca de roupa, eu solto meus cabelos e pego a minha bolsa. Depois, seguimos em direção à saída principal da cafeteria.
É hora de ir!
Estou na frente, puxando a mala, quando ouço uma voz atrás de mim.
— Ei, segura a porta!
Viro o rosto por reflexo.
Um homem se aproxima apressado e passa por mim, entrando no estabelecimento sem sequer agradecer.
A porta quase bate na minha mão.
Fico olhando para ele por um instante, mas nem reajo. É sempre assim. Sempre pedem que eu segure a porta para passarem. Acontece na cafeteria, na faculdade, no transporte público... em todos os lugares.
Algumas pessoas sequer percebem que estou no lugar. Outras parecem acreditar que a minha única função é facilitar a vida delas.
Talvez seja uma coisa pequena.
Mas, quando você passa a vida inteira sendo tratada como se valesse menos do que os outros, até essas pequenas situações começam a pesar.
{se puder indicar o livro para alguém, eu agradeço. Isso ajuda muito!}