Iara Narrando
Meu nome é Iara Camargo, tenho 23 anos e sou mãe do Ítalo, meu moleque de três anos que é a razão da minha vida.
O pai dele?
Ah, esse aí é um covarde.
O nome dele é Renan. Casado.
Mora aqui mesmo no morro. Dono de Casas de aluguel, da distribuidora de gás e água. E tem um bar na parte de baixo.
Todo mundo sabe que o Ítalo é filho dele, mas a mulher dele e os filhos fazem aquela coisa básica: fingem que não veem nada. Cego, Surdo. E mudo.
Claro, ninguém quer perder vida boa, né? Casa confortável, dinheiro entrando, marido pagando tudo.
Então preferem fingir que meu filho não existe.
Mas comigo o papo foi outro. Eu não fui atrás de comando pra resolver a minha vida não, eu fui atrás do genitor.
Quando o Ítalo ainda era pequeno eu fui bater na porta dele. Sem vergonha nenhuma.
Eu sabia muito bem que a Mulher dele, aquela chifruda e as crias não estavam em casa.
Quando ele abriu a porta e me viu com o menino no colo, o cara quase teve um treco.
— O que você tá fazendo aqui, Iara?
Cruzei os braços.
— Vim resolver um assunto contigo.
Ele ficou olhando pros lados, nervoso.
— Fala rápido.
Eu cheguei mais perto.
— Ou tu dá pro nosso filho tudo que teus outros filhos têm. Ou eu vou na justiça.
Ele já ficou vermelho, e arregalou os olhos.
— Tu não faria isso.
Dei um sorriso.
— Faço sim.
Inclinei um pouco a cabeça.
— Peço exame de DNA, tu registra ele, paga pensão e ainda divide tudo que é teu com ele. E ainda me faço de coitadinha, e falo a verdade. Que nem uma fralda, para o enxoval do teu filho, tu teve coragem de dar.
Silêncio, O cara ficou branco.
Sabia que eu não tava blefando.
Depois de uns segundos ele falou baixo.
— Quanto você quer?
Aí eu soube que tinha ganhado.
— Dois mil por mês.
Ele respirou fundo.
— Pra cobrir tudo do garoto.
Eu dei de ombros.
— Tá ótimo.
Porque também não sou burra. Eu moro com a minha mãe.
Não precisava exigir casa, carro, nada disso.
Só queria garantir o que era do meu filho. E deu certo.
Todo mês o dinheiro cai.
Minha mãe banca a casa.
Meu pai já faleceu faz tempo, mas ela recebe a pensão dele, então nunca faltou nada pra gente.
E vou te falar. Minha mãe é apaixonada pelo Ítalo.
Aquele menino é o mundo dela. Ela que dá banho.
Ela que faz comida.
Ela que coloca ele pra dormir.
Aliás, ele dorme com ela desde que parou de mamar, com um aninho. Ela não me deixa cuidar, do meu próprio filho. Eu vejo, que isso faz bem para ela. O Ítalo nasceu, depois da morte do meu pai, parece que foi ele, que devolveu a alegria para ela.
Então minha vida ficou tranquila. Eu não preciso trabalhar.
A casa tá garantida.
O dinheiro do Renan cobre tudo que o Ítalo precisa.
Roupa, Brinquedo.
Remédio. Escola.
E ainda sobra.
Mas claro.
Eu também tenho outro patrocinador. E esse é de peso.
Ceifador, Isso mesmo.
O dono da pörra toda aqui no Dendê.
Eu dou pra ele, dou gostoso.
E ele me dá o que eu preciso pra continuar sendo quem eu sou.
Uma mulher bem cuidada.
Linda. Sempre arrumada.
Minhas amigas vivem dizendo que eu já tenho pose de patroa.
E eu não n**o não.
Cabelo liso batendo quase na bünda. Corpo todo certinho.
Peïto médio, com silicone bem colocado.
Bünda grande que chama atenção por onde eu passo.
E meus olhos azuis, que já fizeram muito homem perder o rumo.
Eu sou a patroa que esse morro merece.
Mesmo que o Ceifador ainda não tenha entendido isso.
Porque vou falar. Aquele homem é difícil.
Ele já me ameaçou várias vezes.
Já mandou eu parar de aparecer na casa dele.
Uma vez até me deu um tapa na cara.
— Para com essa palhaçada, Iara.
Foi o que ele disse.
Mas eu paro? Nunca.
Quando eu descubro que tem alguma galinha ciscando no meu terreno, eu já vou atrás.
E não tô nem aí.
Já arrastei garota pelos cabelos no baile do morro.
Já dei surra em patricinha metida que achou que podia sentar no camarote perto dele.
Aqui no Dendê todo mundo sabe. Ceifador é meu.
Mesmo que ele tente negar.
Só que agora. Deu uma mërda grande, Ceifador caiu. Foi preso.
Quando fiquei sabendo, a primeira coisa que senti foi ódio.
Porque isso complica minha vida. Eu conheço esse homem.
Conheço bem.
Com certeza ele vai querer visita íntima lá no xadrez.
E adivinha quem vai sobrar pra ir? Eu.
Revirei os olhos quando pensei nisso.
— Ah não.
Sério mesmo?
Uma mulher como eu na fila de cadeia? Cheia de mulher desesperada esperando entrar?
Isso não é vida pra mim não.
Tomara que o Fred resolva esse problema.
Porque eu não tô com a menor vontade de ficar visitando presídio.
Cruzei as pernas no sofá e suspirei.
— Homem preso não banca ninguém.
Essa é a verdade, e eu não sou burra. Enquanto ele tá lá dentro, eu preciso garantir meu lado.
Arrumar outro que possa me bancar. Outro forte.
Outro com dinheiro. Até o Ceifador sair da cadeia.
Porque quando ele sair.
Aí eu vou atrás dele de novo.
Porque uma coisa é certa.
Eu nunca fui mulher de perder oportunidade.
Depois que a notícia da prisão do Ceifador espalhou pelo morro, eu comecei a sondar tudo. Aqui é assim: ninguém sabe de nada oficialmente, mas todo mundo acaba sabendo de tudo. É só saber perguntar pra pessoa certa.
Foi numa dessas conversas que eu descobri uma coisa que me fez franzir a testa.
Tem uma garota na casa dele.
Na mesma hora eu já fiquei ligada.
— Quem é essa?
Perguntei casual, como se não fosse nada demais.
A menina que tava comigo no salão respondeu na hora.
— Uma tal de Eloá.
Eloá. Nunca nem ouvi falar.
Continuei investigando.
— De onde ela saiu?
Aí veio a resposta que quase me fez rir.
— Lá da parte baixa do morro, dizem que foi dada como pagamento de dívida.
Eu fiquei em silêncio uns segundos, e depois dei uma risadinha debochada.
Ah, tá.
Agora entendi.
Então é isso?
Uma molequinha jogada lá dentro da casa dele porque alguém devia dinheiro.
Cruzei as pernas e comecei a mexer no celular, mas por dentro eu tava achando graça.
— Patética.
Porque vamos falar a verdade?
Aquilo ali não é ameaça nenhuma pra mim.
Uma garota novinha, perdida, que foi praticamente vendida pela própria família.
Isso diz muita coisa.
Se nem quem colocou ela no mundo quis segurar, imagina se o Ceifador vai querer alguma coisa séria com ela.
Nunca. Ele pode até brincar um pouco. Pode até usar a garota enquanto tá lá.
Mas trocar eu por ela? Por favor.
Eu me olhei no espelho do salão enquanto a manicure lixava minha unha.
Cabelo perfeito.
Corpo perfeito.
Roupinha colada no corpo.
Postura de mulher que sabe exatamente o lugar que ocupa.
— Ceifador pode até estar preso. — murmurei baixinho.
Mas uma coisa eu tenho certeza.
Quando ele sair. Ele vai lembrar direitinho quem sempre esteve no topo do morro, com ele.
E definitivamente não é essa tal de Eloá.