09 - Ceifador

1431 Words
Ceifador Narrando Assim que os cü azul me jogaram dentro da viatura eu já saquei que o bagulho ia ser longo. Algemado. Cheio de sangue seco na roupa. Costela doendo pra Carälho por causa dos chutes. Mas mesmo assim eu tava tranquilo. Quem vive nessa vida sabe que uma hora ou outra vai parar numa delegacia. Faz parte do jogo. A viatura parou na frente da delegacia e me puxaram pra fora como se eu fosse um saco de lixo. — Anda, vagabündo. Um deles empurrou minhas costas. Eu só dei um sorriso torto. — Empurra não, parceiro, eu tô indo. Me levaram pelos corredores até uma sala. Quando entrei já tinha um cara sentado atrás da mesa. O delegado. Cara de quem acha que manda no mundo. Ele me olhou de cima a baixo. Depois abriu um sorriso debochado. — Então você é o famoso Ceifador. Eu sentei na cadeira na frente da mesa, algemado ainda. Cruzei as pernas. — Depende, quem quer saber? Ele riu. — Tá engraçadinho? Eu dei de ombros. — Tô de boa. Ele abriu uma pasta cheia de papel. — Vamos facilitar isso aqui. Fez uma pausa. — Você vai responder algumas perguntas. Eu nem deixei ele terminar. — Vou não. Ele levantou os olhos. — Como é? Encostei na cadeira e falei tranquilo. — Vou permanecer calado. Ele franziu a testa. — Ah é? Assenti. — Sei dos meus direitos. O delegado começou a rir. Mas não era risada de humor. Era aquela risada de deboche mesmo. Ele se inclinou na mesa. — Escuta aqui, moleque… A voz dele ficou pesada. — Você pode botar até a boca no cü e ficar quietinho. Ele bateu o dedo na mesa. — Porque eu vou te ferrar. Silêncio na sala. Ele continuou: — Tu vai passar o resto da vida vendo o sol nascer quadrado. Eu encarei ele sem piscar. Depois respondi com a maior calma do mundo. — Tô pouco me födendo. O policial que tava atrás de mim deu um passo pra frente. — Olha a boca! Eu só soltei um riso baixo. O delegado fechou a pasta com força. — Leva ele. Os polícia me puxaram da cadeira e me arrastaram pelo corredor. Pararam numa porta de ferro. Abriram. E me empurraram pra dentro. Cela pequena, Parede suja. Um banco de concreto grudado na parede. E um cheiro de mofo misturado com esgoto que quase derrubava qualquer um. A porta bateu com força atrás de mim. — Aproveita a estadia, Ceifador. Ouvi os passos deles se afastando. Suspirei fundo, Sentei no banco. Encostei a cabeça na parede. — Que dia de mërda. Fiquei ali sozinho. Pensando. Repassando tudo que aconteceu no morro. A invasão, Os tiros. Os moleques caindo. O helicóptero, Alguém me entregou. Eu tenho certeza. Essa operação não foi coincidência. Depois de um tempo voltaram. — Bora. Abriram a cela e me levaram de novo pro corredor. Quando entrei na sala do delegado tinha mais um cara lá. De terno, Gravata. Pasta na mão. Meu advogado. Ele me olhou rápido. — Você tá bem? — Tô vivo. Ele virou pro delegado. — Meu cliente está machucado, agrediram ele? O delegado riu. — Relaxa, doutor. Ele sentou na cadeira. — Só bateram um papo. O advogado respondeu seco. — Agressão, no ato da prisão é crime. — Eu sei. O delegado levantou. Caminhou pela sala devagar. — Mas isso não muda nada. Ele parou atrás de mim. — Eu prendi o Ceifador. Falou isso como se fosse um troféu. — Agora ele vai pra audiência de custódia. Meu advogado respirou fundo. — Vamos ver o que o juiz decide. O delegado só deu um sorriso. — Vamos mesmo. Dei o meu depoimento, com meias palavras. Não tava afim de falar, quando o Delegado se alterava, meu advogado tomava a frente. Depois disso me levaram de volta pra cela. E ali eu passei o resto do dia. E a noite também. Uma hora apareceu um policial com uma marmita e uma garrafa de água. Ele empurrou pelas grades. — Come aí. Olhei pra quentinha, nem toquei. Vai saber o que esses filhos da püta botaram nisso. Vai que querem me apagar. Empurrei a marmita pro canto. Também não bebi a água. Preferi ficar com sede mesmo. A noite na cela é longa. Silenciosa, Só o barulho distante da delegacia funcionando. Gente andando. Telefone tocando. Algum preso gritando de outra cela. Eu fiquei sentado no banco, olhando pro nada. Pensando na minha irmã, na minha vó. Ela deve tá preocupada, e me xingando também. Então lembrei da garota, Eloá. A mina que caiu no meio dessa mërda toda. Passei a mão no rosto. — Tomara que a vó vá lá em casa. Murmurei baixo. Porque se deixar aquela garota fugir, Vai dar problema. Nem sei que horas eu dormi naquela cela. Se é que dormi mesmo. O corpo tava cansado, mas a cabeça não parava de rodar. Uma hora o silêncio da madrugada virou barulho de gente andando pelo corredor da delegacia. Porta batendo, Policial conversando. Aquele movimento de começo de dia. Então percebi que o dia tinha amanhecido. A luz fraca que entrava pelas grades mudou. Suspirei e levantei do banco de concreto. Minhas costas tavam duras, o pescoço travado. — Dormir nessa pörra aqui acaba com qualquer um. Caminhei até a pia pequena de plástico que tinha no canto da cela. Abri a torneira. A água saiu fraca, gelada. Molhei o rosto várias vezes. Passei a mão na nuca. Na barba. Depois fiquei me olhando no espelho rachado que tinha acima da pia. — Tá bonito, hein Ceifador. Sangue seco na camisa. Olheira funda. Mas o olhar ainda tava o mesmo. Frio. Depois de um tempo ouvi passos parando na frente da cela. A chave girou na fechadura. — Bora. Um policial abriu a porta. — Tá na hora. Eu levantei sem pressa. — Pra onde? — Fórum. A pörra da Audiência de custódia. Algemaram minhas mãos de novo e me levaram pelo corredor. Lá fora tinha um camburão esperando, Me jogaram lá dentro. A porta de ferro bateu atrás de mim. O trajeto até o fórum foi silencioso. Eu só fiquei olhando pela grade da janela pequena. Pensando. Quando chegamos, me tiraram do carro e me levaram pelos corredores do prédio. Foi ali que encontrei meu advogado. Ele tava encostado na parede mexendo no celular. Quando me viu levantou a cabeça. — Robson. — Fala, doutor. Ele suspirou. — A situação tá complicada. — Já imaginei. Entramos na sala da audiência. Um lugar frio, mesa do juiz. Promotor. Escrivão. Todo mundo com aquela cara de quem já decidiu tudo antes mesmo de começar. Me colocaram sentado. O juiz começou a ler um monte de coisa. Processo, Auto de prisão. Provas apreendidas. Depois veio a lista. — O réu Robson Monteiro, conhecido como Ceifador, é acusado de diversos crimes. Ele começou a citar. — Tráfico de drogas, conforme artigo 33 da Lei 11.343/2006. — Associação para o tráfico, previsto no artigo 35 da mesma lei. — Organização criminosa, conforme artigo 2º da Lei 12.850/2013, por exercer função de liderança em facção criminosa. O juiz virou outra página. — Estelionato, previsto no artigo 171 do Código Penal. — Homicídio qualificado, conforme artigo 121, 2º do Código Penal. — Roubo majorado, conforme artigo 157 do Código Penal. O promotor ainda falou um monte, Sobre o morro. Sobre a facção. Sobre tudo que eu já fiz ou que eles acham que eu fiz. Meu advogado tentou argumentar. Falou de falta de prova em algumas acusações. Pediu revisão da prisão. Mas eu já tava vendo no olhar do juiz. Ele já tinha decidido. Depois de alguns minutos de silêncio, o juiz falou: — Considerando a gravidade dos crimes apresentados. Ele ajustou os óculos. — Este juízo determina a condenação inicial de 25 anos de reclusão, em regime fechado. A sala ficou em silêncio. Meu advogado respirou fundo. O juiz continuou: — A defesa poderá recorrer da decisão. Outra pausa. — E a pena poderá ser reavaliada ou reduzida mediante novos elementos processuais. Eu fiquei olhando pra mesa. Vinte e cinco anos. Quase uma vida inteira. Me levantaram da cadeira e começaram a me levar pra fora da sala. Eu só dei uma risada baixa. Balancei a cabeça. — Pörra. Murmurei. — Eu não vou ficar esse tempo todo enjaulado não. O policial me empurrou no corredor. Mas eu continuei falando sozinho. — Vou dar meu jeito. Levantei o olhar. Frio, Firme. — Eu vou sair, antes do que eles imaginam. Respirei fundo. — Ah se vou.
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