16 - Ceifador

1452 Words
Ceifador Narrando A semana aqui dentro passa arrastada. Parece que o tempo gosta de sacanear quem tá preso. Cada dia vira três. Cada hora vira um inferno. Mas eu tô ligado que não posso ficar parado não. Se eu quiser sair daqui antes, tenho que jogar o jogo deles também. Então comecei a me mexer. Acordo cedo, antes mesmo do barulho das grades começar a ecoar pela galeria. O cheiro da cela já bate forte. Mofo, suor, cimento quente. Eu levanto, passo uma água na cara naquela pia de plástico vagabünda e já fico na atividade. O banho de sol é o único momento que dá pra respirar um pouco. Quando abrem o acesso pro pátio, a galera já sai ligeira. Eu vou no meu tempo. Sem pressa, Sem dar mole. Chego lá fora e o sol bate na pele, quente pra Carälho, mas é melhor que ficar trancado naquele buraco. Encosto na parede, cruzo os braços e fico só observando. Aqui dentro tu aprende rápido. Quem fala demais, roda. Quem olha demais, também. Então eu fico na minha. Só analisando tudo. Mas no fundo, a única coisa que passa na minha cabeça é uma só. A visita. Tô contando os dias. Domingo tá chegando. E eu quero ver se aquela mina vai colar mesmo, Se vai ter coragem de entrar aqui. Se vai obedecer. Porque eu já deixei bem claro o que eu quero. E ordem minha não é sugestão. É pra cumprir. Na quinta-feira o clima mudou na galeria. Eu percebi logo cedo. Tinha uns caras mais animados que o normal. Rindo alto, batendo papo, ajeitando as coisas. Eu tava sentado na cama, encostado na parede, só olhando. Morte tava deitado na dele. — Que pörra é essa? — perguntei. Ele deu uma risada de canto. — Hoje é dia de visita íntima. Levantei a sobrancelha. — Ah é? Ele sentou na cama e apoiou os braços nos joelhos. — É, hoje a galera fica toda empolgada. Dei um sorriso de lado. — Imagino. Ele deu uma risada mais solta. — E tu acha que é só mulher de preso que vem? Olhei pra ele. — Não? Ele negou com a cabeça. — Tem umas que recebem pra vir dar pros cara. — Giriquita mesmo. Eu não aguentei, soltei uma risada curta. — Aqui tem de tudo mesmo, né. Ele deu de ombros. — Sistema é isso aí. Voltei a encostar na parede, pensando. Aqui dentro o mundo é outro. Regra diferente. Valores tudo invertido. Mas uma coisa continua igual. Todo mundo quer alguma coisa. E eu sei exatamente o que eu quero. Sair daqui. E voltar pro meu lugar. No meio da semana eu dei meu nome pras atividades. Não porque eu quero brincar de preso bonzinho. Mas porque o advogado falou que ajuda. E tudo que ajuda a reduzir minha pena, eu vou usar. Me colocaram na limpeza externa. Eu e o Morte. Quando o agente chamou, a gente saiu da cela escoltado. Passamos pelos corredores, subimos um acesso e chegamos numa área aberta do presídio. Mesmo sendo segurança máxima, tem umas áreas externas que precisam de manutenção. Vassoura. Pá. Saco de lixo. Ferramenta simples. Mas sempre com vários agente armado olhando cada passo. Aqui ninguém dá mole. Morte pegou uma vassoura e começou a varrer. Eu peguei outra e fui fazendo o mesmo. O chão tava cheio de folha seca, poeira e lixo acumulado. O sol batia forte na cabeça. Suor escorrendo pelo rosto. Mas eu continuei, Sem reclamar. Sem falar muito. Enquanto eu varria, ficava olhando ao redor. Muro alto. Arame farpado. Torre com policial armado. Aqui é uma fortaleza. Pra sair daqui não é brincadeira não. Morte parou do meu lado e falou baixo. — Tu vai mesmo seguir esse papo de bom comportamento? Continuei varrendo. — Vou fazer o necessário. Ele assentiu. — Também tô nessa. Fiquei em silêncio. Porque no fundo, eu não confio em sistema nenhum. Mas se tem uma brecha, eu vou usar.nTerminamos a limpeza de uma área e fomos levados pra outra. Sempre escoltado, Sempre observado, Sem espaço pra erro. Quando terminou, voltamos pra cela. Cansado, Suado. Mas com a cabeça funcionando. Sentei na cama e passei a mão no rosto. Faltava menos agora. Menos dias pra domingo. Menos tempo pra ver se o recado foi cumprido. Olhei pro teto da cela, sério. — Vamos ver se tu vem mesmo, Eloá. Porque uma coisa eu já decidi. Se ela entrar por aquela porta. Ela não vai sair da minha vida, tão fácil assim. A sexta-feira passou meio arrastada, igual todos os outros dias aqui dentro. Mesma rotina, Mesmo cheiro. Mesmo barulho. Acordar cedo, lavar o rosto na pia, esperar o tempo passar, contar os minutos como se isso fosse adiantar alguma coisa. Eu já tava começando a ficar de saco cheio. Mas me mantive na minha. Fiz o básico. Nada de arrumar problema. Nada de chamar atenção. Só observando e esperando. Porque agora eu tinha um foco. Domingo. Mas o sábado… Püta que pariu, O sábado foi um inferno. Logo cedo começou aquele barulho na galeria. Gente cantando alto. Batendo palma. Orando. Eu já sabia o que era. — Que pörra é essa agora? — falei, cobrindo o rosto com o braço. Morte riu da cama de cima. — Culto. Levantei a cabeça, já irritado. — Culto? — É, os crente. Fechei os olhos com força. — Ah não, mano. Mas não teve jeito. Fui obrigado a ficar ali ouvindo. Os caras cantando alto, gritando, pregando, falando de Deus como se aquilo ali fosse igreja. O som ecoava pela galeria inteira. Não tinha pra onde fugir. — Isso dura quanto tempo? — perguntei já sem paciência. Morte deu de ombros. — Hoje o dia todo. Soltei um palavrão baixo. — Tá de sacänagem. Ele riu. — Relaxa, é só uma vez no mês. Fiquei em silêncio uns segundos. Depois balancei a cabeça e dei uma risada sem humor. — Ainda bem, né. Porque se fosse todo final de semana eu já tinha perdido a cabeça. Passei o resto do sábado tentando ignorar o barulho. Às vezes deitava, as vezes sentava. Às vezes ficava na grade olhando o movimento. Mas aquela gritaria não parava. Parecia que os caras estavam tentando expulsar o demônio no grito. E eu só queria um pouco de silêncio. No meio disso tudo, Morte me chamou. — Cola aqui. Levantei e fui até a grade com ele. Tinha uns caras na cela ao lado trocando ideia. — Esses aqui chegaram depois de tu — ele falou. Olhei pra eles. — E aí. Um deles respondeu. — E aí, Irmão. Balancei a cabeça de leve. — De onde vocês são? — Mesma família. Aquilo já explicou tudo. Mesmo comando. Eu observei eles melhor. Não conhecia nenhum. Mas isso não queria dizer nada. Hoje em dia a família só cresce. Cada dia aparece mais gente, Mais aliado. Mais soldado. Mais problema também. — Não conhecia vocês — falei direto. Um deles deu um sorriso de canto. — A família tá aumentando. Assenti devagar. — Tô vendo. Ficamos trocando ideia por um tempo. Falando de fora, do morro. De quem caiu, de quem subiu. De quem sumiu. Aqui dentro a informação circula rápido. Mais rápido do que muita gente imagina. Depois voltei pra minha cama. Cansado daquele dia barulhento. Mas com a cabeça firme. Porque agora só faltava uma coisa, chegar domingo. E quando finalmente chegou. Eu acordei antes de todo mundo. Nem precisei de barulho pra me levantar. Abri os olhos já ligado. O coração batendo diferente. Levantei na hora. Fui direto pro banheiro da cela. Aquele cano velho, jogando água gelada. Mas hoje eu nem liguei. Entrei debaixo da água sem pensar duas vezes. A água desceu gelada pelo corpo, me fazendo arrepiar inteiro. Passei a mão no rosto, no cabelo, tentando me deixar o mais decente possível dentro daquele lugar. Porque hoje não é um dia qualquer. Hoje eu ia receber visita. E não é qualquer visita. Fiquei alguns minutos ali debaixo da água, respirando fundo. Sentindo a tensão crescer no peito. Saí, me sequei com a toalha fina e vesti a roupa mais arrumada que eu tinha. Quer dizer o Uniforme que não tava rasgado. Dentro do possível, claro. Passei a mão no cabelo e olhei ao redor da cela. Morte ainda tava deitado. — Já acordou animado, hein — ele falou com a voz rouca. Eu dei um sorriso de canto. — Hoje é dia. Ele riu. — Tô vendo. Sentei na cama e fiquei olhando pra grade. Esperando. Contando os minutos. Porque uma coisa eu queria ver com meus próprios olhos. Se ela vai ter coragem de entrar aqui. Ou vai pagar pra ver.
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