Fred Narrando
Meu nome é Frederico, mas ninguém me chama assim não. Desde moleque geral me conhece como Fred.
Tenho 27 anos e hoje sou sub e braço direito do Ceifador aqui no morro do Dendê.
Mas antes de tudo isso.
Eu sou o cara que cresceu junto com ele. Nós dois somos melhores amigos desde pivete.
Daqueles que cresceram correndo no mesmo beco, jogando bola descalço na rua e aprendendo cedo como o mundo aqui em cima funciona.
Ceifador sempre foi meu irmão de alma.
Porque de sangue, essa parte da minha vida é meio bagunçada.
Eu tenho família, tá ligado.
Pai, Mãe. Irmãos.
Mas hoje em dia eu sou afastado de todos.
Desde que meu irmão mais novo morreu. Eu sou o mais velho da casa.
Aquele que os pais sempre apontam e falam:
— Tu tem que ser exemplo pros teus irmãos.
Eu sempre achei isso a maior hipocrisia do mundo.
Porque muitas vezes os próprios pais não são exemplo de pörra nenhuma, mas querem jogar toda responsabilidade nas costas do filho mais velho.
Como se a gente tivesse pedido esse papel.
Fala sério.
Meu irmão mais novo.
Ele sempre me admirou.
Andava atrás de mim pra todo lado quando a gente era criança.
Eu lembro dele pequeno, correndo pela viela, tentando me acompanhar.
Mas quando ele fez dezesseis anos, resolveu seguir meus passos de vez. Entrou pro crime também.
Eu até tentei avisar.
— Esse caminho é sem volta, moleque.
Mas quem vive no morro sabe como é. Às vezes a vida empurra a gente.
E no crime, ele rodou.
A cena daquele dia nunca saiu da minha cabeça.
Quando falaram pra mim o que tinham feito com ele. Que lamberam o fígado dele.
Eu senti o mundo desabar.
Aquilo foi a maior dor da minha vida. Nenhum tiro que eu já levei chegou perto daquela sensação.
Eu tive que enterrar meu irmão mais novo. Carregar o caixão dele.
Ver minha mãe chorando.
E naquele momento eu quase enlouqueci de vez.
No enterro foi pior ainda.
Minha mãe veio pra cima de mim. Olho vermelho de tanto chorar.
Raiva pura.
— A culpa é tua!
Ela gritava.
— Tu que colocou ele nesse caminho.
Ela começou a dar murro em mim no meio do cemitério.
No meio de todo mundo.
E eu fiquei parado. Nem levantei a mão.
Porque uma parte de mim acreditava mesmo que ela tava certa.
Que a culpa era minha.
Que se eu tivesse sido outro tipo de irmão. Talvez ele ainda estivesse vivo.
Quem acabou com aquela cena foi o Ceifador.
Ele segurou minha mãe antes que ela continuasse me batendo.
— Já chega!
Foi a única coisa que ele disse. Depois me puxou dali.
Eu fiquei malzão por muito tempo depois disso.
Tipo, quebrado por dentro mesmo.
Passava dias sem falar com ninguém. Sem vontade de fazer nada.
Achando que eu tinha destruído minha própria família.
Quem cuidou de mim naquela época não foi meu pai, nem minha mãe. Muito menos meus irmãos.
Quem cuidou de mim foi dona Lindalva. A vó do Ceifador.
Mano…
O que aquela velhinha fez por mim, ninguém fez.
Ela me sentava na mesa da cozinha, botava prato de comida na minha frente e falava firme.
— Come, menino.
Mesmo quando eu dizia que não tava com fome. Ela me tratava como se eu fosse neto dela também.
Conversava comigo.
Me escutava. Me puxava a orelha quando precisava.
Foi ela que me tirou daquele buraco. Por isso até hoje eu tenho um respeito absurdo por aquela mulher.
Quando ela fala comigo, eu baixo a cabeça. Sem discussão.
E quando eu faço mërda, ela olha bem no meu olho e fala:
— Vou te dar uma surra de cinto.
E eu respondo na hora.
— Pode dar, vó.
E se ela quiser mesmo.
Eu apanho calado.
Porque dela eu aceito qualquer bronca.
Mas também só dela.
Porque no final das contas.
Quando o mundo virou as costas pra mim.
Quem ficou do meu lado foi Ceifador, dona Lindalva.
E foi meu fuzil.
E no morro. Isso já é mais que muita gente tem.
Eu jurei uma coisa no dia que enterrei meu irmão.Que eu ia encontrar quem matou ele.
E que quando encontrasse, não ia ter conversa.
Demorou um tempo.
Mas no morro nada fica escondido pra sempre.
Sempre tem alguém que fala demais.
Sempre tem alguém que entrega o jogo.
E um dia o nome chegou até mim, eu lembro direitinho daquele momento.
O sangue começou a ferver na mesma hora.
Passei semanas investigando, perguntando, juntando as peças.
Até ter certeza.
Quando tive. Eu mesmo fui atrás.
Sem pressa.
Sem alarde.
Porque vingança boa é aquela que o cara nem vê chegando.
Quando finalmente fiquei cara a cara com ele, eu nem precisei falar muito.
Só encarei.
Ele já sabia.
Deu pra ver no olhar, O medo,
A culpa. A certeza de que tinha chegado a hora.
E ali mesmo eu cumpri a promessa que fiz no coração no dia do enterro.
Meu irmão descansou.
Mas depois disso a vida continuou.
E agora a casa caiu, Ceifador foi preso. O moleque rodou.
E eu fiquei na frente do morro.
Assumi temporariamente. Só pra segurar as pontas.
Mas todo mundo sabe uma coisa.
— O lugar do Ceifador tá guardado pra ele.
Aqui ninguém esquece quem é o dono de verdade. Eu só tô cuidando da cadeira até ele voltar.
Hoje de manhã eu fui na casa dele resolver umas paradas.
Quando cheguei lá, dona Lindalva me chamou na cozinha.
Ela tava sentada na mesa com aquele olhar sério de sempre.
— Fred, preciso falar contigo.
Eu sentei na frente dela.
— Fala, vó.
Ela respirou fundo antes de continuar.
— Essa menina que tá aqui na casa.
Eu já sabia de quem ela tava falando. Eloá, a garota que veio como pagamento de uma dívida.
Dona Lindalva me olhou firme.
— Eu quero que tu proteja ela.
Assenti devagar.
Ela continuou.
— Não deixa ninguém chegar perto. Muito menos mexer com ela.
Fez uma pausa.
— Especialmente a Iara.
Eu não consegui evitar um sorriso de canto. Porque eu conheço bem aquela maluca.
Cruzei os braços e respondi na hora.
— Pode deixar, vó.
Inclinei a cabeça um pouco.
— Ninguém vai fazer mäl pra uma garota dentro dessa casa.
Depois completei.
— E quem tentar.
Dei um leve sorriso.
— Vai trombar direto comigo.
Ela assentiu satisfeita.
E quando dona Lindalva fica tranquila, já é metade do problema resolvido.
Mais tarde, eu recebi um recado do Ceifador através do advogado.
Na verdade foram dois.
O primeiro já tava sendo resolvido.
— Contabilidade do morro.
Separei tudo, anotações.
Movimentação.Entrada e saída.
Passei tudo organizado pro advogado levar pra ele lá no presídio. Mesmo preso, Ceifador gosta de saber de cada detalhe.
E eu respeito isso.
O segundo recado foi mais, interessante. Ele quer visita.
A partir da próxima semana ele já pode receber. Mas não quer qualquer visita.
— Ele quer Eloá, Só ela.
Quando o advogado falou isso, eu fiquei alguns segundos pensando.
Depois dei um suspiro.
— Beleza.
Olhei pra ele.
— Eu aviso a garota.
O advogado assentiu.
— Eu mesmo posso levar ela nas visitas.
Ele explicou que ia agilizar a papelada. Cadastro de visitante. Documentos.
Essas paradas todas que o sistema exige.
Então decidimos ir até a casa do Ceifador pra pegar os documentos da garota.
Quando chegamos lá, dona Lindalva foi preparar um café, pro gravata.
No meio disso tudo, fiquei pensando numa coisa.
Olhei pela janela pro quintal da casa. E lá tava ela.
Eloá, quietinha.
Ajudando Amanda a recolher umas roupas do varal.
Parecia tão, normal.
Tão fora desse mundo. Passei a mão na nuca pensativo.
Porque uma coisa eu ainda não sei.
Como aquela menina vai reagir quando eu contar,
Que semana que vem.
Ela vai ter que visitar o dono do morro do Dendê.
Lá dentro do Complexo de Bangu.