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1618 Words
CAPÍTULO 6 — GREGÓRIO NARRANDO Assim que atravessei a porta de casa, percebi que alguma coisa estava errada. Não precisei de muito tempo para sentir. Eu conhecia aquela casa melhor do que conhecia a mim mesmo. Sabia quando uma porta tinha sido fechada, quando algum objeto estava fora do lugar e, principalmente, conhecia minha irmã o suficiente para saber quando ela estava escondendo alguma merda. Joguei a chave do carro sobre o aparador da entrada, tirei o relógio do pulso por alguns segundos e coloquei novamente, enquanto olhava ao redor. A casa estava silenciosa demais. Gabi normalmente aparecia correndo quando eu chegava, reclamando de alguma coisa, contando alguma história da faculdade ou perguntando se eu tinha comprado alguma coisa que ela queria. Naquela noite, nada. Só silêncio. Subi alguns degraus e chamei. — Gabi! Nenhuma resposta. — Gabi! Escutei um barulho vindo do andar de cima. Parei no meio da escada e franzi a testa. Não era o tipo de silêncio que significava que ela estava dormindo. Tinha movimento ali. Continuei subindo, sem pressa, mas já desconfiado. Quando cheguei ao corredor, encontrei minha irmã saindo de um dos quartos. Ela fechou a porta atrás de si rápido demais. Aquilo foi suficiente para eu saber que tinha alguma coisa acontecendo. — Tu tava onde? Ela sorriu. — Aqui. — Aqui onde? — Em casa. — Eu sei que tu tá em casa. Perguntei onde. Ela mexeu no cabelo. — Eu estava… resolvendo umas coisas. — Que coisas? — Coisas minhas. Fiquei encarando-a. — Gabi. — O quê? — Tu tá mentindo. — Não tô. — Tá sim. Ela cruzou os braços. — Você chegou hoje decidido a me irritar? — Não. Cheguei querendo saber por que minha irmã tá escondendo alguma coisa dentro da minha própria casa. Ela ficou em silêncio. Eu olhei para a porta atrás dela. Era o quarto de hóspedes. Normalmente ficava aberto. Gabi não tinha motivo nenhum para estar ali. — Quem tá aí? Ela se colocou na frente da porta. — Ninguém. Soltei uma risada curta. — Ninguém? — É. — Então sai da frente. — Grego… — Sai. — Não precisa disso. — Gabi, eu não vou repetir. Ela respirou fundo e tentou me segurar pelo braço. — Calma. Tirei o braço da mão dela e abri a porta. No segundo em que entrei, meus olhos encontraram uma garota que eu nunca tinha visto na vida. Ela estava parada perto da cama, usando uma camiseta larga e um short, com os cabelos pretos, longos e lisos caindo pelas costas. Parecia completamente assustada. Seus olhos verdes encontraram os meus e, por alguns segundos, ninguém disse nada. Fiquei parado na porta, olhando para ela, tentando entender que p***a estava acontecendo. A garota parecia ter visto um fantasma. Estava pálida, segurando as próprias mãos com força e respirando rápido. Olhei para Gabi. — Quem é ela? Minha irmã entrou rapidamente no quarto. — Grego, calma. — Eu perguntei quem é ela. A garota tentou falar. — Eu… A voz saiu tão baixa que quase não ouvi. — Você o quê? Ela engoliu em seco. — Meu nome é Cecília. — Eu não perguntei seu nome. Ela ficou em silêncio. — Perguntei quem você é e o que está fazendo dentro da minha casa. Gabi se colocou entre nós. — Ela é minha colega da faculdade. Olhei para minha irmã. — E? — E ela precisava de ajuda. — Então tu resolveu trazer uma desconhecida pra dentro da minha casa escondida? — Eu não sabia o que fazer. — E a solução foi essa? — Ela não tinha para onde ir. — Isso não é problema meu. Gabi me encarou. — É problema meu. — Não. A partir do momento que tu coloca essa merda dentro da minha casa, vira problema meu também. Cecília abaixou os olhos. Eu voltei a olhar para ela. Havia alguma coisa naquele comportamento que me incomodava. Ela não parecia uma garota acostumada a enfrentar problemas. Parecia alguém que tinha passado a vida inteira tentando não incomodar ninguém. — Você mora onde? Ela demorou para responder. — Na Zona Sul. — Com quem? — Com meus pais. — Então por que está aqui? Ela ficou em silêncio. Olhei para Gabi. — Fala. — Ela fugiu de casa. Minha mandíbula travou. — Fugiu? — Sim. — Por quê? Gabi olhou para Cecília. — Conta. Cecília apertou as mãos. — Meu pai quer que eu me case. — Com quem? — Um homem chamado Fernando. — E isso é motivo pra fugir? Ela levantou os olhos para mim pela primeira vez. — Eu nunca conheci ele. Fiquei em silêncio. — Então teu pai marcou teu casamento com um homem que tu nunca viu? — Sim. — E tu simplesmente fugiu? — Eu não tinha escolha. — Todo mundo tem escolha. Ela respirou fundo. — Eu não tinha. A resposta saiu baixa, mas firme. Fiquei olhando para ela. Não gostei daquele tipo de resposta. Não gostava de gente que falava pela metade. Gabi percebeu meu olhar. — Grego, ela não está inventando. — Eu não disse que está. — Mas está olhando para ela como se fosse. — Porque eu não conheço essa garota. — Ela não fez nada. — Ainda. Cecília ficou imóvel. Eu percebi que ela estava com medo de mim. Não precisava ser muito inteligente para notar. O jeito como segurava os dedos, o corpo tenso, os olhos sempre desviando. Eu já tinha visto aquele comportamento em gente que estava diante de alguém que considerava perigoso. — O que seu pai fez? Ela demorou. — Eu não quero falar. — Então não fala. Gabi me olhou. — Grego… — O quê? — Ela precisa ficar aqui. — Não. — Por favor. — Não. Cecília deu um passo à frente. — Eu posso ir embora. Olhei para ela. — Pra onde? Ela ficou em silêncio. — Foi o que eu pensei. Ela abaixou a cabeça. — Eu só preciso de uma noite. Minha expressão continuou fechada. — Uma noite? — Sim. — E amanhã? Ela não respondeu. — Você acha que pode ficar aqui sem que ninguém saiba? — Não quero causar problemas. — Já causou. Gabi respirou fundo. — Grego, por favor. Só hoje. Passei a mão pelo rosto. Aquilo estava me irritando mais do que deveria. Não era apenas a garota. Era o fato de Gabi ter tomado uma decisão daquele tamanho sem falar comigo. Eu confiava nela, mas confiança não significava permitir que ela fizesse qualquer coisa. Voltei a olhar para Cecília. — Você entende que, se ficar aqui, vai seguir minhas regras? Ela assentiu. — Sim. — Não sai sozinha. — Tudo bem. — Não anda pela comunidade sem Gabi. — Certo. — Não fala sobre o que acontece aqui com ninguém. Ela hesitou. — Eu não falaria. — E se alguém da tua família aparecer, tu não vai fazer merda nenhuma sem me avisar. Ela levantou os olhos. — Eu não quero voltar. — Eu não perguntei o que tu quer. Ela ficou quieta. — Entendeu? — Entendi. Fiquei olhando para ela por alguns segundos. Ela era diferente das mulheres que costumavam circular na minha vida. Não tinha aquele olhar calculista de quem queria alguma coisa. Não parecia interessada em dinheiro, status ou poder. Parecia apenas perdida. E isso me deixava ainda mais desconfiado. — Uma noite. Gabi abriu um sorriso. — Obrigada. Levantei a mão. — Não comemora ainda. Amanhã a gente conversa direito. Cecília assentiu. — Obrigada por me deixar ficar. Não respondi. Virei-me e saí do quarto. Assim que a porta fechou atrás de mim, olhei para Gabi. — Tu perdeu a p***a da cabeça? Ela saiu logo atrás. — Eu sabia que você ia ficar bravo. — Bravo? Tu esconde uma mulher dentro da minha casa e quer que eu faça o quê? Bata palma? — Ela precisava de ajuda. — E tu precisava me contar. — Eu estava com medo de você não deixar. — E agora tu entende por que eu não deixaria? — Entendo. — Então por que fez? Ela ficou em silêncio. — Porque ela estava sozinha. Respirei fundo. — Isso não justifica esconder uma pessoa de mim. — Eu sei. — Gabi, eu confio em você. Não faz isso comigo de novo. Ela assentiu. — Tá bom. — E amanhã eu quero saber tudo sobre essa garota. — Tá. — Tudo. — Eu vou te contar. Olhei novamente para a porta do quarto. — E ela fica lá essa noite. Gabi sorriu. — Obrigada. — Não me agradece. Eu só não vou colocar uma mulher na rua de madrugada. Ela assentiu e voltou para o quarto. Fiquei sozinho no corredor. Passei a mão pela nuca e respirei fundo. Eu deveria estar pensando no problema que aquela garota poderia trazer. Deveria estar pensando no pai dela, no tal Fernando, na família rica da Zona Sul e no motivo de uma mulher daquela classe social estar escondida dentro da minha casa. Mas, contra a minha vontade, meus pensamentos voltaram para o quarto. Para aqueles olhos verdes. Não fazia sentido. Eu tinha visto a garota por poucos minutos. Não sabia quase nada sobre ela. Não sabia o que queria. Não sabia se estava falando a verdade. Não sabia se era confiável. Mesmo assim, aqueles olhos tinham ficado na minha cabeça. Fechei a cara comigo mesmo. — Que p***a… Eu não gostava daquela sensação. Curiosidade era uma coisa perigosa. E aquela garota tinha acabado de entrar na minha casa trazendo exatamente o tipo de problema que eu não precisava. O que eu ainda não sabia era que Cecília não seria apenas um problema. Ela seria o maior problema que já entrou na minha vida.
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