— Você entrou nesse treino sozinho? — Questionei.
Chase estava deitado ao meu lado com os olhos fechados, não sei se estava dormindo ou apenas fingindo.
— Eu sou sozinho. — Chase respondeu.
Olho para o placar lá embaixo já exausta desse lugar. Tudo o que eu queria era meus amigos de volta, me pergunto como será quando Chase e eu voltarmos. Será que eles estão bem?
— Faltam 6. — Chase falou.
— Será que ficaremos mais um dia aqui? Ou 6 desistirão hoje mesmo?
— Provavelmente os treineiros estarão mais resistentes, mas também vão se matar lá embaixo para sair logo daqui. — Ele falou.
Ainda é madrugada, é a quinta madrugada que estamos aqui. Entramos de madrugada, e exatamente agora completam os cinco dias. Como sabemos? As grades no alto das paredes nos dão a visão lá de fora.
— Daqui a pouco começa a gritaria. — Chase pensou alto. — Você está se sentindo fraca?
— Sim.
— Eu também.
Evitamos falar muito, não temos força nem para ficar de olhos abertos. Me pergunto como estão as pessoas lá embaixo, fracas e mesmo assim tendo que lutarem.
Os sons de pancada começaram. Não se escuta mais nenhum grito, só barulho de pancadas.
— Olha, Kiria! — Chase apontou lá para baixo.
Levantei rapidamente olhando para baixo vendo várias pessoas se batendo e vendo o placar em 4.
— Está quase acabando. — Suspirei de alívio.
Eu realmente achei que não conseguiria sair bem, daqui. Agora já estou entre os classificados, e sem muito medo.
— Quando chegar em 51, teremos que começar a descer. — Chase avisou.
Não sei se isso vai dá certo, por mim ficaríamos aqui em cima até disserem que todos os que estão nessa sala estão classificados.
— Chase! — Falei em um quase grito.
— Oi.
— É impressão minha ou essa beliche está balançando? — Questionei sentindo realmente a beliche balançando.
Olhamos rapidamente para baixo vendo uma mulher tentando escalar. Chase e eu nos olhamos assustados.
Chase rapidamente pegou as escadas, fez o mesmo processo para arrancar um dos degraus, o pegou e jogou para baixo a acertando.
Vi o sangue pelo seu rosto, a distraiu e a fez cair no chão. Rapidamente as pessoas que estavam lá embaixo a pegaram e começaram a bater nela.
Me senti enjoada, meu estômago embrulhou.
— Está tudo bem. — Chase repetia várias vezes.
Senti os braços dele em minha volta em um abraço aconchegante. No mesmo instante, achei normal, mas depois de alguns segundos achei um ato muito estranho. O empurrei levemente para longe procurando o placar lá embaixo com o olhar.
— 52. — Falei.
— 51. — Chase falou me fazendo notar a mulher que ele acabou de derrubar com o degrau da escada, saindo pela porta se arrastando. — Vamos descer.
Meu coração gelou, faltam apenas 1 e o Chase quer descer logo agora.
— Chase! — Segurei sua mão o impedindo de pegar a escada. Ele me encarou com aqueles olhos castanhos levemente escuros. — Não, vamos esperar mais um pouco.
Ele encarou as pessoas lá embaixo novamente, me olhou de um jeito estranho e então apenas assentiu.
Meia hora de muita porrada e nada de ninguém desistir.
Chase está encarando o teto com o olhar de raiva, eu não estava entendendo o porquê.
— Você está bem? — Questionei.
Ele demorou para responder, comecei a achar que ele havia desmaiado ou algo do tipo.
— Chase!? — Praticamente gritei.
— Estou bem! — Chase respondeu sem muito caso.
Chase continuava estranho, mas acho que estivesse com fome e muita sede.
Olhei lá para baixo e vi a última pessoa saindo pela porta, meu coração gelou. Achei que eu fosse explodir de tanta alegria. Olhei para o placar e vi o número 50.
— Chase! Vamos descer! — O sacudi.
Chase pegou a escada correndo e começamos a descer daquela beliche.
Quando chegamos lá embaixo foi o momento exato em que a porta se abriu e a inspetora entrou.
— Perfeito. — Ela falou com a sua postura firme. — 50 desistentes em exatos 5 dias. Façam uma fila, vocês iram registrar o setor de vocês.
Olhei para os lados procurando por Chase, ele já estava na fila lá na frente. Senti uma grande pontada no meu coração, passamos 5 dias juntos para... Tudo bem, acho que estou misturando as coisas, ele só me usou por sua própria sobrevivência.
Seguimos andando até uma salinha, quando chegou minha vez de entrar, notei um homem sentado em uma mesa cheia de coisas que não consegui identificar o que eram.
O homem que me fez andar até alí me forçou a sentar na cadeira em sua frente e me fez apoiar o braço na mesa.
— O que estão fazendo? — Questionei em um grito.
Não disseram nada. Apenas me sacudi, mas não permitiam. Me senti uma criança quando ia tomar vacina e as mulheres do posto de saúde a imobilizavam.
Fizeram uma tatuagem com o número 01 no meu pulso. Fiquei alí olhando me sentindo um lixo por a minha primeira tatuagem ser assim.
Depois de nos alimentarem, cuidarem dos nossos machucados e tomarmos um banho. Nos levaram até o dormitório principal, eu esqueci todo o processo de quando saímos do teste classificatório, acho que por estar fraca demais. Nem caiu a fixa ainda que agora eu sou oficialmente um treineiro.
Fizemos uma fila até o dormitório principal, entramos devagar. Meu coração estava quase saindo pela boca, eu estava com tanta saudades de todos, mas principalmente do Ash.
Quando passei pela porta, eu o vi... Meu coração quase saía pelo peito. Ash estava deitado na sua cama encarando o teto, parecia deprimido e ao mesmo tempo pensativo.
Todos em nossa volta começaram a se abraçar, as pessoas que se conheciam e que se separaram por conta dos setores se abraçaram forte.
Caminhei na direção de Ash, ele virou para o lado e me viu. O sorriso que eu não via há semanas surgiu em seus lábios, ele correu em minha direção, me segurou pela cintura e me jogou para o alto me fazendo soltar um gritinho animado.
— Você conseguiu! — Ele gritava.
— Você também! — Gritei de volta.
Eu consegui... "Pela Kimberly"
Quando Ash me colocou no chão, acho que um pouco no automático eu o beijei. Sentir seus lábios macios nos meus foi como uma caneca de chá em um dia frio de inverno.
As emoções e sentimentos reprimidos foram liberados de forma avassaladora, sem freios ou controle. As mãos se encontraram, as duas bocas se entrelaçaram e houve um momento de pura cumplicidade e carinho.
Houve muita expressão de amor e saudades, como se estivesse voltando a se encontrar após um longo tempo. Foi um beijo que deixou uma marca de emoções profundas e intensas, eu senti que algo em mim que eu havia reprimido saiu diretamente do meu coração... Eu estive cega demais para notar.
Afastei nossos labios e encarei seus olhos castanhos marcantes, eles mostravam algum grau de surpresa.
— Eu amo você, Ash! — Sussurrei. Ele deu aquele sorriso.
Quando Ash iria responder, ouvi um coçar de garganta atrás de nós. Quando virei, notei Dylan com uma expressão reconfortante e os olhos cheios de olheiras.
Ele abriu os braços, e automaticamente eu quis chorar. Abracei Dylan fortemente, tentando ao máximo parecer o bastante com Kimberly como dizem para que aquecesse o coração de Dylan o suficiente e lhe causasse um pouco de conforto.
Olhei em volta e não encontrei Ava e Noah. Meu coração apertou.
— Onde a Ava e o Noah estão? — Questionei.
— O setor 02 ainda não finalizou o teste, fique calma. — Ash disse passando o braço em volta de meu pescoço.
Dylan voltou para a sua cama e Ash me carregou até a sua.
Apoiei minha cabeça no seu peito e pude ouvir o seu coração bater forte, de alguma forma também era um pedacinho de Kim.
— A tatuagem... É temporária, fique calma. Vai sair depois de 6 meses. — Ash afirmou.
Minha respiração correu bem mais leve.
A posição lateral que eu me encontrava me dava visão da cama ao lado, eu vi Chase. A cama dele é do lado da cama do Ash.
Chase encarava a cama de cima com o maxilar travado, como se estivesse incomodado com algo. Eu nem pude agradecer pela ajuda, mesmo que a intenção dele não fosse ajudar, mas mesmo assim eu sou muito grata.
Pensei em falar para Ash que foi Chase quem me ajudou a passar no teste classificatório, mas acho que não devo tirar meu mérito por enquanto. Fora que Chase não parece bem alguém que está afim de se enturmar com os outros treineiros.
Caso me perguntem como eu consegui, eu conto.