Acordei ouvindo gritos altos. Levantei assustada procurando de onde eles vinham.
Quando olhei para o lado Chase estava tranquilo olhando lá para baixo, olhei rapidamente na direção em que ele estava olhando.
Haviam um homem e uma mulher batendo um homem que já estava todo desnorteado, ele nem conseguia se defender mais.
— O que está acontecendo, por que estão fazendo isso? Vamos ir ajudar! — Segurei a escada já pronta para descer, mas chase segurou minhas mão.
— Não. Não podemos fazer nada para ajudar. — Ele falava calmo.
— Por que? É claro que podemos ajudar, tem 95 pessoas lá embaixo. Não é possível que ninguém faça alguma coisa. — Eu estava gritando naquela altura.
— 94. Estavam batendo em uma mulher, ele se meteu e ele ficou no lugar dela.
— E o que aconteceu com ela!? — Questionei desesperada já imaginando o pior.
— Apertou o botão e foi embora. — Chase disse simples.
Eu não conseguia entender a calma dele. Estávamos assistindo alguém apanhando horrivelmente e não fazíamos nada, e nem pretendíamos?
— Mas não podemos ficar aqui só olhando, vamos lá ajudar. — Eu pedi quase em uma súplica, segurando seu braço e tentando fazer com que Chase agisse.
— Não estamos aqui para ter piedade de ninguém, Kiria.
Então... Para ser forte eu tenho que ser má?
— Se fosse um de nós dois alí embaixo, não fariam nada também. Tem 94 pessoas lá embaixo apenas observando, isso quer dizer que também não podemos fazer nada. — Chase falou um pouco melancólico mas conformado.
— Isso é loucura. Isso não é coisa de um ser humano. — Meu coração estava apertado.
Olhei por uns segundos até vê o homem conseguir fugir dos seus agressores, apertar o botão vermelho e sair correndo pela porta.
O homem e a mulher lá embaixo olharam o placar marcando 98 e bateram na mão um do outro.
— O homem até que resistiu por um tempinho. — Chase pensou alto.
— Há quanto tempo estavam batendo nele? — Questionei com vontade de vomitar.
— Não tenho um relógio, mas talvez uma hora ou uma hora e meia.
A calma que Chase falava isso me assustava.
— Você ficou olhando esse tempo inteiro? — Questionei.
— Acho que sim, às vezes eu cansava de olhar.
Deitei de volta na cama respirando fundo tentando não ficar enojada. Como um ser humano era capaz de machucar outro ser humano?
E o pior de tudo é saber que eu faço parte dessa espécie.
— Olha, não fique zangada comigo. Ainda veremos muito isso acontecer até que esse placar esteja em 50. — Chase deitou ao meu lado e segurou meu queixo virando o meu rosto para ele.
— Eu não quero conviver com isso. — Choraminguei.
— Como você achou que era o treinamento aqui? — Chase questionou irônico.
Para falar a verdade eu não me perguntei em nenhum momento sobre isso. Acho que não raciocinei direito antes de vir.
— Não sei.
O restante do dia foi tudo muito calmo, ficamos em completo silêncio o dia inteiro. Todos estavam agindo normalmente como se nada tivesse acontecido, mas eu ainda estava vendo algumas manchas de sangue do homem que foi embora.
— Vamos precisar bater em alguém também? — Essa pergunta surgiu na minha cabeça martelando e martelando cada vez mais. Sinceramente, eu espero que não, não tenho o menor estômago para isso.
— Só em último caso. Como a senhora falou, "não poderão evitar a luta". Você está assim agora porque só fazem dois dias, a partir de amanhã as coisas vão apertar mais. Principalmente para as pessoas alí embaixo. — Chase comentou com seu tom de voz frio.
Talvez ele estivesse certo, eu nunca mais vou ser a mesma depois daqui. Não tenho como evitar, minha vida é essa agora.
Eu só queria a Kimberly aqui comigo, ela diria coisas do tipo "ainda bem que estamos longe da confusão".
— Você quer dormir logo? Acho melhor para você, porque daqui a pouco... — Chase procurou as palavras. — Só durma, confie em mim.
Não questionei muito, apenas segui o seu conselho me aconcheguei no colchão quentinho. Não era o melhor colchão como o da casa da minha mãe, mas era muito bom. Talvez eu tenha me acostumado com o sofrimento e para mim tudo parece ser as mil maravilhas.
Lembro do primeiro dia em que eu fui embora de casa para outra cidade fazer a faculdade. Eu m*l conseguia dormir naquela minha cama super fofinha, cheirosa e macia. E agora, estou dormindo em uma cama que provavelmente nunca teve os lençóis trocados e estou achando perfeita.
A noite, fizemos o mesmo processo de ir ao banheiro quando todos dormissem e voltar para a última cama das beliches mais altas.
Chase foi dormir um pouco, e depois eu dormi.
Gritos. Muitos gritos. Meus ouvidos estavam doendo de tantos gritos.
Acordei atordoada, olhei para baixo e vi várias pessoas brigando. Elas davam chutes e socos umas nas outras, tudo o que podiam.
— Fica calma! — Chase pediu. — Deita aqui na cama novamente e cubra os ouvidos, isso vai durar muito tempo ainda.
Fiz o que ele pediu. Eu ainda ouvia os gritos de dor, mas eram baixinhos agora.
Chase deitou ao meu lado, e ficou encarando o teto. Fiquei o observando tentando mudar o meu foco.
Quando os gritos cessaram, soltei minhas orelhas fazendo com que elas doessem por conta da força em que eu as pressionei. Agora o som estava até mais sensíveis.
— Você acha que os meus amigos estão bem? — Questionei para Chase.
— Eles devem estar achando que você é quem não está. Nesse primeiro teste fica apenas quem sabe se defender e tem uma boa resistência. Não é tão difícil passar por esse teste se é alguém com um pouco de treinamento. — Chase explicou.
— Eles só vão voltar um pouco cheios de hematomas, não é?
— Sim, isso é óbvio. E vão se admirar por você não ter nenhum.
Fico admirada porque vamos voltar com tanta facilidade. Fico imaginando como vai ser quando eu entrar por aquela sala e ver eles lá e então poder dizer que eu consegui.
— O que você comeria se pudesse agora? — Chase questionou.
— Uma pizza de forno... — Me recordei da vez em que fraturei as costelas, fiquei de cama e Robby ficou cuidando de mim. Ele fez uma pizza de forno incrível. Estava incrível. — Sim. Uma pizza de forno bem preparada. E você?
— Um creme de camarão que a minha mãe fazia quando eu era criança. — Ele disse nostálgico com um sorriso mínimo nos lábios.
— Quando você sair daqui, você pode pedir para ela fazer.
Chase encarou o chão lá embaixo com o olhar triste.
— Ela não pode. Está morta. — Ele respondeu simples.
— Desculpa. — Murchei alí mesmo.
— Tudo bem. Eu nem gosto mais de camarão mesmo. — Chase falou.
Ele deitou virado para o outro lado. Encarei o placar lá embaixo marcando 90 treineiros, significa que ainda faltam 40 desistirem para poder encontrar com Noah, Ava, Dylan e Ash. Estou morrendo de saudades deles.