EMY🎻
— Vai me dizer que você tem medo de minhoca? — Lucky perguntou rindo.
— É que você nunca ouviu falar de minhocas bravas... elas são assustadoras. — falei rindo.
Já estávamos em casa depois da missão de pegar os ovos. Com certeza foi apavorante pro Lucky: ele levou três bicadas de galinha e ainda correu de um pato. Duvido que ele tenha coragem de buscar os ovos amanhã.
— Como é bom ouvir sua voz logo cedo e sentir o cheiro dos ovos mexidos que só você sabe fazer. — meu pai apareceu na cozinha com seu ótimo humor matinal.
— Bom dia, pai. — falei sorrindo, e ganhei um beijo no topo da cabeça.
— Bom dia, Sr. Lucky. — meu pai disse, olhando para o Lucky encostado no balcão.
— Bom dia, Sr. George. — ele respondeu, se endireitando.
— Não precisa chamar ele assim, pode falar “Sr. Ge”, é como todo mundo o chama aqui. — minha mãe entrou sorridente.
Ela me deu um beijo na bochecha e, logo depois, ela e papai começaram a arrumar a mesa do café, como sempre fazemos quando estamos juntos.
— Pode falar o que quiser, mas eu adoro cafés da manhã que já entram no clima de Natal. — Lucky disse rindo. Eu revirei os olhos.
— A palavra “Natal” é proibida no vocabulário dela, Lucky, já devia saber. — Emma apareceu na cozinha.
— Eu sei, mas ainda tô tentando fazer ela mudar de ideia. — ele respondeu rindo.
— Pode desistir, meu irmão tentou desde o dia que conheceu ela. — Emma riu.
— Agora eu vejo que vocês têm mesmo algo em comum: a chatice. — falei rindo.
— E como podem ver, eu falhei miseravelmente. — Robert entrou rindo.
— Ainda bem que reconhece. — falei.
Logo a mesa estava pronta e os pais dos meninos se juntaram a nós pro café. Como sempre, depois comi com meu pai e fui ajudá-lo a alimentar os bichos. Esse era o nosso momento, desde que eu era criança.
— Então, já devo me preparar pra outro casamento? — papai perguntou, me olhando.
— Ué, quem mais da nossa família vai casar? — perguntei sem entender.
— Querida, você nunca olhou pra alguém como olhou pra ele hoje de manhã. — disse, e eu entendi.
— Pros ovos mexidos? É que estavam deliciosos, pai. — falei rindo, desviando.
— Então o apelido do Lucky é “ovos mexidos”? — ele brincou, e rimos.
— Eu m*l conheço ele. — falei.
— Mas pode conhecer. — ele rebateu.
— A questão é que eu não quero. — respondi.
— Não quer... ou tem medo? — ele perguntou.
Fiquei em silêncio, até soltar:
— Não quero. — falei firme. Mesmo mentindo pra ele. E pra mim.
— Tudo bem, se é o que você diz.
Continuamos em silêncio, alimentando os bichos. Ele me mostrou os ninhos que os passarinhos tinham feito debaixo da cachara, e voltamos juntos.
— Mamãe falou da situação da academia de música. — comentei.
— Pois é... pobre da Sra. Cristina. Não merecia aquele divórcio, e muito menos o que tá passando agora. — papai suspirou.
— Vou até lá hoje. Não sei se posso ajudar de verdade, mas talvez só conversar já faça diferença. — falei, e ele sorriu.
— É, pode ser disso que ela precisa. — respondeu.
Voltamos e encontramos mamãe e a Sra. Amélia cozinhando e conversando na cozinha. Subi, tomei banho, lavei o cabelo, finalizei e coloquei uma roupa confortável pra ir até a cidade.
Quando desci, Emma, Robert e Lucky estavam na sala.
— Vai sair? — Emma perguntou.
— Vou na academia. — falei.
— Nunca vi ninguém malhar de jeans. — Robert riu.
— Academia de música, amor. — Emma riu.
— Ah, tá. Agora faz sentido. — ele disse, e todos rimos.
— Queria ver o que tem de interessante nessa cidade. — Lucky disse, levantando e me encarando.
— Vai com a Emy. Ninguém melhor pra mostrar a cidade que a garota prodígio. — Emma brincou.
Era tudo o que eu menos queria. Só ia visitar minha ex-professora, e agora teria que aturar o Lucky no caminho. O que eu fiz pra merecer isso?!
Lucky foi pro quarto. Eu fui até a cozinha falar com meus pais.
— Vou até a cidade, vocês querem alguma coisa? — perguntei, me apoiando no balcão.
— Ah, fiz uma lista. Passa no mercado na volta. — mamãe disse, entregando um papel.
— Tá bom. — falei.
— Eu tô pronto. — Lucky apareceu na cozinha. Ele usava uma bermuda bege até o joelho, camiseta azul-marinho com botões e tênis preto e branco. Meus olhos percorreram o corpo dele três vezes sem querer. Fiquei pensando: onde ele acha que tá? Essa cidade ia comentar dele por uma semana.
— Tudo bem então. — falei, levantando do banco. — Mais tarde a gente volta.
— Voltamos pro almoço? — ele perguntou.
— Acho que não. Mas tem lugar pra comer na cidade. — falei. Ele sorriu de canto.
— Tá me chamando pra almoçar com você? — ele provocou, e todo mundo ficou nos olhando.
— Não. Só disse que, se tiver fome, caçe um lugar pra comer. — respondi, revirando os olhos.
Papai me deu um beijo na testa e saí. Lucky veio atrás.
— Por que você fica brava com tudo que eu falo? — ele perguntou, tentando me alcançar.
— Porque parece que você faz de tudo pra me tirar do sério, e eu não tenho paciência pra isso. — falei, parando em frente ao carro.
— Tudo bem, Emylia. Não vou mais te provocar ou tentar ser seu amigo. — ele disse, olhando nos meus olhos.
— Que bom. Vai ser melhor assim. Pros dois. — respondi, entrando no carro.
Ele entrou do outro lado e ficou em silêncio. O caminho até a cidade foi mudo. Deixei ele no centro e segui até a academia. Achei uma vaga quase em frente, estacionei e desci.
Assim que entrei, percebi como tudo tinha mudado. A recepção estava vazia. Fiquei olhando as fotos na parede, até encontrar a minha: meu primeiro prêmio, quando fui pro nacional e fiquei em segundo lugar. Minha história inteira estava cravada ali, naquela academia.