C A P I T Ú L O 06

1057 Words
EMY🎻 — Vai me dizer que você tem medo de minhoca? — Lucky perguntou rindo. — É que você nunca ouviu falar de minhocas bravas... elas são assustadoras. — falei rindo. Já estávamos em casa depois da missão de pegar os ovos. Com certeza foi apavorante pro Lucky: ele levou três bicadas de galinha e ainda correu de um pato. Duvido que ele tenha coragem de buscar os ovos amanhã. — Como é bom ouvir sua voz logo cedo e sentir o cheiro dos ovos mexidos que só você sabe fazer. — meu pai apareceu na cozinha com seu ótimo humor matinal. — Bom dia, pai. — falei sorrindo, e ganhei um beijo no topo da cabeça. — Bom dia, Sr. Lucky. — meu pai disse, olhando para o Lucky encostado no balcão. — Bom dia, Sr. George. — ele respondeu, se endireitando. — Não precisa chamar ele assim, pode falar “Sr. Ge”, é como todo mundo o chama aqui. — minha mãe entrou sorridente. Ela me deu um beijo na bochecha e, logo depois, ela e papai começaram a arrumar a mesa do café, como sempre fazemos quando estamos juntos. — Pode falar o que quiser, mas eu adoro cafés da manhã que já entram no clima de Natal. — Lucky disse rindo. Eu revirei os olhos. — A palavra “Natal” é proibida no vocabulário dela, Lucky, já devia saber. — Emma apareceu na cozinha. — Eu sei, mas ainda tô tentando fazer ela mudar de ideia. — ele respondeu rindo. — Pode desistir, meu irmão tentou desde o dia que conheceu ela. — Emma riu. — Agora eu vejo que vocês têm mesmo algo em comum: a chatice. — falei rindo. — E como podem ver, eu falhei miseravelmente. — Robert entrou rindo. — Ainda bem que reconhece. — falei. Logo a mesa estava pronta e os pais dos meninos se juntaram a nós pro café. Como sempre, depois comi com meu pai e fui ajudá-lo a alimentar os bichos. Esse era o nosso momento, desde que eu era criança. — Então, já devo me preparar pra outro casamento? — papai perguntou, me olhando. — Ué, quem mais da nossa família vai casar? — perguntei sem entender. — Querida, você nunca olhou pra alguém como olhou pra ele hoje de manhã. — disse, e eu entendi. — Pros ovos mexidos? É que estavam deliciosos, pai. — falei rindo, desviando. — Então o apelido do Lucky é “ovos mexidos”? — ele brincou, e rimos. — Eu m*l conheço ele. — falei. — Mas pode conhecer. — ele rebateu. — A questão é que eu não quero. — respondi. — Não quer... ou tem medo? — ele perguntou. Fiquei em silêncio, até soltar: — Não quero. — falei firme. Mesmo mentindo pra ele. E pra mim. — Tudo bem, se é o que você diz. Continuamos em silêncio, alimentando os bichos. Ele me mostrou os ninhos que os passarinhos tinham feito debaixo da cachara, e voltamos juntos. — Mamãe falou da situação da academia de música. — comentei. — Pois é... pobre da Sra. Cristina. Não merecia aquele divórcio, e muito menos o que tá passando agora. — papai suspirou. — Vou até lá hoje. Não sei se posso ajudar de verdade, mas talvez só conversar já faça diferença. — falei, e ele sorriu. — É, pode ser disso que ela precisa. — respondeu. Voltamos e encontramos mamãe e a Sra. Amélia cozinhando e conversando na cozinha. Subi, tomei banho, lavei o cabelo, finalizei e coloquei uma roupa confortável pra ir até a cidade. Quando desci, Emma, Robert e Lucky estavam na sala. — Vai sair? — Emma perguntou. — Vou na academia. — falei. — Nunca vi ninguém malhar de jeans. — Robert riu. — Academia de música, amor. — Emma riu. — Ah, tá. Agora faz sentido. — ele disse, e todos rimos. — Queria ver o que tem de interessante nessa cidade. — Lucky disse, levantando e me encarando. — Vai com a Emy. Ninguém melhor pra mostrar a cidade que a garota prodígio. — Emma brincou. Era tudo o que eu menos queria. Só ia visitar minha ex-professora, e agora teria que aturar o Lucky no caminho. O que eu fiz pra merecer isso?! Lucky foi pro quarto. Eu fui até a cozinha falar com meus pais. — Vou até a cidade, vocês querem alguma coisa? — perguntei, me apoiando no balcão. — Ah, fiz uma lista. Passa no mercado na volta. — mamãe disse, entregando um papel. — Tá bom. — falei. — Eu tô pronto. — Lucky apareceu na cozinha. Ele usava uma bermuda bege até o joelho, camiseta azul-marinho com botões e tênis preto e branco. Meus olhos percorreram o corpo dele três vezes sem querer. Fiquei pensando: onde ele acha que tá? Essa cidade ia comentar dele por uma semana. — Tudo bem então. — falei, levantando do banco. — Mais tarde a gente volta. — Voltamos pro almoço? — ele perguntou. — Acho que não. Mas tem lugar pra comer na cidade. — falei. Ele sorriu de canto. — Tá me chamando pra almoçar com você? — ele provocou, e todo mundo ficou nos olhando. — Não. Só disse que, se tiver fome, caçe um lugar pra comer. — respondi, revirando os olhos. Papai me deu um beijo na testa e saí. Lucky veio atrás. — Por que você fica brava com tudo que eu falo? — ele perguntou, tentando me alcançar. — Porque parece que você faz de tudo pra me tirar do sério, e eu não tenho paciência pra isso. — falei, parando em frente ao carro. — Tudo bem, Emylia. Não vou mais te provocar ou tentar ser seu amigo. — ele disse, olhando nos meus olhos. — Que bom. Vai ser melhor assim. Pros dois. — respondi, entrando no carro. Ele entrou do outro lado e ficou em silêncio. O caminho até a cidade foi mudo. Deixei ele no centro e segui até a academia. Achei uma vaga quase em frente, estacionei e desci. Assim que entrei, percebi como tudo tinha mudado. A recepção estava vazia. Fiquei olhando as fotos na parede, até encontrar a minha: meu primeiro prêmio, quando fui pro nacional e fiquei em segundo lugar. Minha história inteira estava cravada ali, naquela academia.
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