Lucky🎹
O dia aqui parece começar mais cedo. O g**o realmente canta às seis da manhã, o sol já aparece, o cheiro de mato invade tudo… bem diferente da capital, onde o único cheiro que eu sinto é o da fumaça dos ônibus, caminhões e carros, ou então do lixo que o Cuzinho sempre esquece de tirar.
Depois que levantei, fui tomar banho. A tarde de ontem, depois da viagem, acabou sendo mais tranquila do que eu esperava, mesmo depois de descobrir que a minha “querida não amiga”, que veio no ônibus comigo, era na verdade irmã da minha cunhada. Ou seja: vamos ser família em breve. Além disso, descobri outras coisas sobre ela… como o fato de amar “A Bela e a Fera”, e que não é só violinista, mas também toca piano — e muito melhor do que eu achei que tocaria.
Além de linda, ela é inteligente. E isso deixa muito mais complicado não gostar dela. Mas a personalidade dela contrasta com aqueles olhos escuros, os cachos castanhos claros caindo no ombro, a boca bem desenhada, o formato do rosto que já é bonito por si só, a orelha cheia de piercings… até o jeito que ela força os olhos pra enxergar quando está sem óculos (que, ironicamente, deixam ela ainda mais bonita).
Tudo nela parece contraditório. A cintura fina e os quadris largos, as pernas longas que a fazem parecer mais alta do que é, o jeito meio desengonçado de andar ou se sentar.
O mais estranho é pensar que consegui perceber tudo isso em um único dia ao lado dela. Não sei o que vai ser dos próximos nove, mas sei que, se eu pudesse ignorar o quanto ela não gosta de mim e tivesse a chance de conhecê-la melhor… eu não pensaria duas vezes.
Os quartos de hóspedes da casa da Dona Marina e do Seu George ficam no térreo, o que facilita na hora de ir atrás de um bom café da manhã. Assim que saí do meu quarto e comecei a caminhar até a cozinha, senti o cheiro de café. Achei que fosse uma das empregadas preparando, mas quando cheguei lá, me deparei com a cena que eu menos esperava: Emy, de camisola rosa com detalhes pretos, cabelo preso num coque bagunçado, encostada na bancada, apoiada só numa perna.
Quando meus pés tocaram o piso de madeira, ela se virou e me encarou. Os olhos dela pareciam brilhar mais que o normal.
— Bom dia, não queria te assustar — falei, ficando à distância.
— Bom dia, você não me assustou. Eu ouvi a porta do seu quarto abrir e fechar — respondeu, voltando a mexer no café.
— Como sabia que era do meu quarto? — perguntei rindo.
— Do mesmo jeito que sei qual barulho faz a porta do quarto onde seus pais estão. — disse, rindo.
Acho que foi a primeira vez que ela riu de verdade, sem deboche nem ironia.
— Verdade… você cresceu aqui. — falei, sorrindo.
— É, eu cresci aqui. — repetiu, me olhando de novo.
Ficamos em silêncio por alguns minutos, até que ela abriu o forno e vi duas formas cheias de pão de queijo. O cheiro dominou a cozinha.
— Você já foi a um galinheiro? — ela perguntou.
— Claro que já. — respondi rápido, sorrindo (mentindo na cara dura). Nunca nem pisei em um.
— Então não tem problema se for pegar os ovos pra mim, né? — ela disse, com um sorriso falso.
— Mas eu nem sei onde é o galinheiro daqui. — tentei escapar.
— Eu te explico. — retrucou.
— Melhor você me mostrar. — rebati.
— Se fosse pra eu buscar, eu ia sozinha. — disse, rindo.
— Então me mostra hoje, e amanhã eu vou sozinho. — falei, encarando.
— Tá bom, eu já volto. — respondeu, saindo da cozinha.
Não consegui evitar reparar em como a camisola subia um pouco atrás por causa da b***a empinada… meus olhos simplesmente não conseguiam se desviar.
Pouco depois, ela voltou enrolada num roupão preto e com uma touca de cetim na cabeça. Estava engraçada demais. Saímos da casa, e ela pegou dois pares de botas perto da varanda.
— Que número você calça? — me perguntou.
— Pra quê? — perguntei, sem entender.
— Que número? — insistiu.
— Quarenta. — respondi.
— Ótimo, essas servem. — me entregou.
— Pensei que era só pegar ovos. — reclamei.
— E é. — respondeu, com um olhar misterioso.
Calçamos as botas e começamos a andar pelo caminho. Eu não sabia bem como puxar assunto, porque parecia que a qualquer momento ela poderia voltar a ser a garota fechada do ônibus. Então fiquei quieto, mesmo querendo falar com ela.
— O gato sempre some com a sua língua de manhã ou é só medo das galinhas? — ela perguntou rindo.
— Não tenho medo das galinhas… tenho medo de você. — soltei.
Ela parou, cruzou os braços e me encarou.
— Medo de mim?
— Você tá fazendo aquela cara. — apontei.
— Que cara?
— Aquela de quem vai me xingar depois que eu falar qualquer coisa. — falei.
— Não é bem assim. É que você é irritante. E me irritou no ônibus. — respondeu, voltando a andar.
— Eu só tentei puxar assunto. — retruquei.
— O manual das garotas avisa que é perigoso conversar com um cara dentro de um ônibus de viagem. Ainda mais se ele sentar do seu lado. Eu só queria me manter segura. — disse.
— Eu nunca faria nada com você. — falei.
— E como eu ia saber? Eu nem te conhecia. — respondeu, virando-se de repente. Parei de andar e nossos corpos ficaram a centímetros de distância.
— Você não me conhecia… agora conhece. E eu posso dizer que não vou fazer nada com você. — falei, encarando nos olhos dela.
Ela ficou em silêncio por alguns segundos, só me olhando.
— Espero que você realmente não tenha medo de galinhas, Lucky. — respondeu sorrindo, antes de se virar.
Quando percebi, já estávamos na frente de um galinheiro enorme. Foi aí que comecei a me perguntar se eu não tinha mesmo medo de galinhas… ou de patos e gansos.
Entramos e ela me entregou uma caixa.
— Você vai praquele lado e eu fico nesse. — disse, apontando.
— E eu faço o quê? — perguntei.
— Pega os ovos, ué. — respondeu, rindo.
É incrível como o rosto dela se ilumina cada vez que sorri.