C A P I T Ú L O 05

1095 Words
Lucky🎹 O dia aqui parece começar mais cedo. O g**o realmente canta às seis da manhã, o sol já aparece, o cheiro de mato invade tudo… bem diferente da capital, onde o único cheiro que eu sinto é o da fumaça dos ônibus, caminhões e carros, ou então do lixo que o Cuzinho sempre esquece de tirar. Depois que levantei, fui tomar banho. A tarde de ontem, depois da viagem, acabou sendo mais tranquila do que eu esperava, mesmo depois de descobrir que a minha “querida não amiga”, que veio no ônibus comigo, era na verdade irmã da minha cunhada. Ou seja: vamos ser família em breve. Além disso, descobri outras coisas sobre ela… como o fato de amar “A Bela e a Fera”, e que não é só violinista, mas também toca piano — e muito melhor do que eu achei que tocaria. Além de linda, ela é inteligente. E isso deixa muito mais complicado não gostar dela. Mas a personalidade dela contrasta com aqueles olhos escuros, os cachos castanhos claros caindo no ombro, a boca bem desenhada, o formato do rosto que já é bonito por si só, a orelha cheia de piercings… até o jeito que ela força os olhos pra enxergar quando está sem óculos (que, ironicamente, deixam ela ainda mais bonita). Tudo nela parece contraditório. A cintura fina e os quadris largos, as pernas longas que a fazem parecer mais alta do que é, o jeito meio desengonçado de andar ou se sentar. O mais estranho é pensar que consegui perceber tudo isso em um único dia ao lado dela. Não sei o que vai ser dos próximos nove, mas sei que, se eu pudesse ignorar o quanto ela não gosta de mim e tivesse a chance de conhecê-la melhor… eu não pensaria duas vezes. Os quartos de hóspedes da casa da Dona Marina e do Seu George ficam no térreo, o que facilita na hora de ir atrás de um bom café da manhã. Assim que saí do meu quarto e comecei a caminhar até a cozinha, senti o cheiro de café. Achei que fosse uma das empregadas preparando, mas quando cheguei lá, me deparei com a cena que eu menos esperava: Emy, de camisola rosa com detalhes pretos, cabelo preso num coque bagunçado, encostada na bancada, apoiada só numa perna. Quando meus pés tocaram o piso de madeira, ela se virou e me encarou. Os olhos dela pareciam brilhar mais que o normal. — Bom dia, não queria te assustar — falei, ficando à distância. — Bom dia, você não me assustou. Eu ouvi a porta do seu quarto abrir e fechar — respondeu, voltando a mexer no café. — Como sabia que era do meu quarto? — perguntei rindo. — Do mesmo jeito que sei qual barulho faz a porta do quarto onde seus pais estão. — disse, rindo. Acho que foi a primeira vez que ela riu de verdade, sem deboche nem ironia. — Verdade… você cresceu aqui. — falei, sorrindo. — É, eu cresci aqui. — repetiu, me olhando de novo. Ficamos em silêncio por alguns minutos, até que ela abriu o forno e vi duas formas cheias de pão de queijo. O cheiro dominou a cozinha. — Você já foi a um galinheiro? — ela perguntou. — Claro que já. — respondi rápido, sorrindo (mentindo na cara dura). Nunca nem pisei em um. — Então não tem problema se for pegar os ovos pra mim, né? — ela disse, com um sorriso falso. — Mas eu nem sei onde é o galinheiro daqui. — tentei escapar. — Eu te explico. — retrucou. — Melhor você me mostrar. — rebati. — Se fosse pra eu buscar, eu ia sozinha. — disse, rindo. — Então me mostra hoje, e amanhã eu vou sozinho. — falei, encarando. — Tá bom, eu já volto. — respondeu, saindo da cozinha. Não consegui evitar reparar em como a camisola subia um pouco atrás por causa da b***a empinada… meus olhos simplesmente não conseguiam se desviar. Pouco depois, ela voltou enrolada num roupão preto e com uma touca de cetim na cabeça. Estava engraçada demais. Saímos da casa, e ela pegou dois pares de botas perto da varanda. — Que número você calça? — me perguntou. — Pra quê? — perguntei, sem entender. — Que número? — insistiu. — Quarenta. — respondi. — Ótimo, essas servem. — me entregou. — Pensei que era só pegar ovos. — reclamei. — E é. — respondeu, com um olhar misterioso. Calçamos as botas e começamos a andar pelo caminho. Eu não sabia bem como puxar assunto, porque parecia que a qualquer momento ela poderia voltar a ser a garota fechada do ônibus. Então fiquei quieto, mesmo querendo falar com ela. — O gato sempre some com a sua língua de manhã ou é só medo das galinhas? — ela perguntou rindo. — Não tenho medo das galinhas… tenho medo de você. — soltei. Ela parou, cruzou os braços e me encarou. — Medo de mim? — Você tá fazendo aquela cara. — apontei. — Que cara? — Aquela de quem vai me xingar depois que eu falar qualquer coisa. — falei. — Não é bem assim. É que você é irritante. E me irritou no ônibus. — respondeu, voltando a andar. — Eu só tentei puxar assunto. — retruquei. — O manual das garotas avisa que é perigoso conversar com um cara dentro de um ônibus de viagem. Ainda mais se ele sentar do seu lado. Eu só queria me manter segura. — disse. — Eu nunca faria nada com você. — falei. — E como eu ia saber? Eu nem te conhecia. — respondeu, virando-se de repente. Parei de andar e nossos corpos ficaram a centímetros de distância. — Você não me conhecia… agora conhece. E eu posso dizer que não vou fazer nada com você. — falei, encarando nos olhos dela. Ela ficou em silêncio por alguns segundos, só me olhando. — Espero que você realmente não tenha medo de galinhas, Lucky. — respondeu sorrindo, antes de se virar. Quando percebi, já estávamos na frente de um galinheiro enorme. Foi aí que comecei a me perguntar se eu não tinha mesmo medo de galinhas… ou de patos e gansos. Entramos e ela me entregou uma caixa. — Você vai praquele lado e eu fico nesse. — disse, apontando. — E eu faço o quê? — perguntei. — Pega os ovos, ué. — respondeu, rindo. É incrível como o rosto dela se ilumina cada vez que sorri.
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