C A P I T Ú L O 04

1019 Words
Emy 🎻 Depois que troquei de roupa, desci para o almoço. Todo mundo já estava na sala de jantar, então me juntei a eles. Mas o que eu menos queria aconteceu: o único lugar disponível na mesa era entre meu pai e o Lucky. Assim que sentei, ele me lançou um sorriso irônico. Tudo o que eu queria era tacar o copo de água na cara dele. Durante o almoço, minha irmã falou sobre o casamento que já estava bem próximo. Disse que a prima do Robert chegaria no dia seguinte e que estava super ansiosa com tudo. — Emy, tudo bem se a Agatha dormir no seu quarto? — Emma perguntou. — Tudo bem. — respondi. — Obrigada. — disse sorrindo. — Até que você não é tão chata quanto parece. — Lucky murmurou perto do meu ouvido. — Eu não sou chata, você que é inconveniente. — retruquei, lançando um olhar rápido pra ele. — Acho que você só precisa me conhecer melhor. — respondeu. — Acontece que eu não tô nem um pouco afim de te conhecer melhor. — falei, e ele revirou os olhos. Depois do almoço, ajudei minha mãe a tirar a mesa. — Eu vi a troca de olhares entre você e o irmão do Robert. — minha mãe disse, rindo. — O quê? Eu e aquele cara insuportável? — falei, fazendo cara feia. — Você só se assustou com o jeito muito comunicativo dele. Mas vai ter que admitir: ele é um gato. — disse rindo. — A beleza dele não anula o quanto ele é chato. — respondi, e ela continuou rindo. — Você devia passar na sua escola de música. Sua ex-professora ia adorar te ver. — Se der, amanhã eu passo lá. — Tadinha, ela não tá numa fase boa. Teve um divórcio complicado, comprou a parte do marido na academia de música, mas como não tinha dinheiro, pegou empréstimo no banco. Agora não tá conseguindo pagar. A Sra. Cristina foi minha professora de música por mais de dez anos. Aprendi tudo com ela. Se não desisti da música, foi porque ela não deixou. Saber que ela tá passando por isso me deixou triste demais. A academia foi minha segunda casa por muito tempo: fiz amizades, criei memórias que nunca vou esquecer. Quando terminei de ajudar na cozinha, saí pra dar uma volta pela chácara. Fiquei observando tudo, lembrando como era morar ali, respirar aquele ar puro todo dia, ver as árvores ao redor e me sentir segura. — Sente saudade daqui? — meu pai apareceu do meu lado. — Eu estaria mentindo se dissesse que não. — respondi. — Um dia isso aqui vai ser seu e da sua irmã. Espero que cuidem com carinho. — disse, enquanto eu apoiava a cabeça no ombro dele. — Esse dia ainda tá longe, pai. Quem sabe até lá eu também não me case aqui. — falei. — Seria maravilhoso. — respondeu. Ficamos em silêncio, ouvindo o canto dos pássaros, só apreciando a companhia um do outro, como sempre. — Ah, achei vocês! A mamãe tá chamando na sala de estar. — Emma apareceu na porta. — Diz que já estamos indo. — meu pai respondeu. Voltamos juntos. Na sala, todos já estavam reunidos. Minha mãe servia algumas coisas, e o Lucky estava sentado em frente ao meu piano. — Querida, eu disse pra ele que poderia tocar, se quisesse. — minha mãe comentou. — Só se não for problema pra você. — ele disse, me encarando. — E por que seria? — respondi. — É só um piano. — Viu? Ela não se importa. Toca pra gente, Lucky! — minha mãe insistiu animada. Me sentei perto do meu pai e da Emma, que estava encostada no Robert. Cada vez que olho pra eles vejo o quanto estão apaixonados, e isso me deixa feliz. Se alguém merece um amor tranquilo, é a minha irmã. Lucky ajeitou a postura no piano, respirou fundo e começou a tocar Beauty and the Beast. Exatamente a primeira música que toquei, tanto no piano quanto no violino. Minha favorita da vida. Na hora, Emma apertou levemente minha mão — ela sempre adorou me ouvir tocar essa música. Me deu um sorriso cúmplice, mas ficamos em silêncio, só ouvindo. A canção me levou de volta pra infância: o cheiro da grama molhada, o vento gelado entrando pela janela de manhã, o sol nascendo atrás das montanhas que a gente via do quintal. Me lembrou quem eu sou e como amo estar com minha família — mesmo não gostando do Natal, e muito menos de quem estava tocando minha música favorita. Quando terminou, todos aplaudiram. Ele se sentou na poltrona ao lado do sofá onde eu estava. Olhou pra mim e deu um leve sorriso. Tenho que admitir: por mais insuportável que seja, ele é lindo. Seus olhos azuis combinam perfeitamente com o rosto — forte e delicado ao mesmo tempo — e aqueles lábios bem desenhados… parecem um convite pra um beijo. NÃO que eu queira beijá-lo, porque eu não quero. E não vou. Notei uma tatuagem pequena atrás da orelha dele, mas não consegui decifrar. Percebi que estava encarando por tempo demais e desviei o olhar — só pra dar de cara com meu pai me observando. — Querida, bem que você poderia tocar pra gente também. — minha mãe sugeriu. — Piano? — perguntei. — Você que sabe, piano, violino, o que preferir. — disse com um super sorriso. Fiquei pensando, mas decidi não subir até meu quarto pra pegar o violino. Levantei e caminhei até o piano. A última vez que toquei nele foi quando saí de casa — uma espécie de despedida. Desde então, sempre que volto, passo por ele como se fosse parte do meu passado, mesmo amando tanto. Mas, já que era pra me lembrar de quem eu sou, não tinha escolha melhor: tocar a música que me fez chegar até aqui, que me rendeu o concurso regional e abriu tantas portas. Respirei fundo. Meus dedos ficaram leves como penas. Lembrei da partitura e comecei a tocar To Build a Home.
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