Emy🎻
Acho que nunca tive uma viagem tão chata e irritante. O cara sentado ao meu lado era simplesmente insuportável. Nem mesmo os olhos azuis, o sorriso perfeito, o físico bonito e a altura ideal conseguiam superar a personalidade dele: invasiva, intrometida e egocêntrica.
Ele ainda teve a audácia de me chamar de insuportável e dizer que tinha pena da minha família. Eu queria mesmo era dar um tapa na cara dele, mas preferi ficar o mais longe possível, antes que eu acabasse tacando meu violino na cabeça daquele i****a.
Assim que peguei minha mala, mandei mensagem pra minha irmã:
Eu:
Oi, Emma, onde você está?
Acabei de chegar e preciso que venha logo me resgatar de um cara insuportável e inconveniente que sentou ao meu lado no ônibus.
Emma:
Oi! Já cheguei. Vem pro estacionamento, eu e o Robert estamos te esperando. Ah, o irmão dele também veio de ônibus.
Eu:
Tudo bem, já estou indo.
Guardei o celular na bolsa, coloquei o violino nas costas — o mesmo violino que eu nem queria ter trazido, mas que agora ia ser minha melhor companhia nesses próximos dez dias — e segui até o estacionamento. Foi quando vi minha irmã com uma plaquinha super fofa escrita: “Emylia, minha dama de honra”.
Corri até ela e a abracei bem apertado.
— Como eu estava com saudades de você, caçula! — disse, assim que me soltou.
— Eu também estava morrendo de saudades. — respondi sorrindo.
— Olha só, acho que você cresceu uns cinco centímetros. — Robert disse rindo, antes de me dar um abraço também. — E aí, como vão as coisas na capital?
— Vão bem! Em janeiro eu tenho uma viagem internacional. — respondi animada.
Robert abriu o porta-malas pra guardar minha mala, e Emma logo começou:
— Você precisa conhecer o irmão dele, ele também é músico. Aposto que vocês dois vão se dar super bem.
Minha irmã nunca perde a oportunidade de tentar me apresentar alguém. Nunca dá certo, mas ela insiste.
— Você e seu plano de me casar, né? — falei rindo.
— Falando nele... — Emma apontou com o dedo. Eu me virei e vi exatamente quem eu menos queria encontrar.
— Nem fodendo. — sussurrei.
— O que foi? — Emma perguntou.
— Lucky, seu pirralho! Como você tá? — Robert correu até ele e o abraçou.
— Definitivamente não vamos nos dar bem. — falei baixo. — Ele é o cara chato e inconveniente que sentou do meu lado no ônibus.
Emma arregalou os olhos.
— Lucky? O meu cunhado? Mas ele é tão legal... — disse rindo.
— Só se for em outro universo, porque nesse aqui ele é insuportável. — retruquei.
Lucky veio na nossa direção sorrindo.
— Então essa é a sua “simpatia” de irmã de quem meu irmão me falou ontem na chamada de vídeo? — disse, abraçando Emma.
— Ela me contou que vocês vieram juntos no ônibus. — Emma falou rindo.
— Ah, contou mesmo? — ele disse, olhando pra mim com deboche.
— Acho que vou pegar um táxi. — falei olhando pra minha irmã.
— Nada disso! Já estamos atrasados pro almoço e você conhece sua mãe. Ela odeia atrasos. — Robert respondeu, fechando o porta-malas e indo pro carro.
Respirei fundo e entrei também.
— Serão os dez dias mais legais da sua vida! — Emma disse em tom irônico, sentando no banco da frente.
Fiquei em silêncio a viagem inteira, só ouvindo a conversa animada entre Robert e o irmão. Eles pareciam ter a mesma conexão que eu e Emma: cumplicidade pura.
Quando chegamos na casa dos meus pais, desci e esperei Robert abrir o porta-malas. Peguei minha mala e fui em direção à porta. Já dava pra ouvir as risadas dos meus pais na sala de jantar. Assim que entrei, minha mãe se levantou e correu pra me abraçar.
— Querida, eu estava morrendo de saudades de você.
— Oi, mãe. — falei, beijando seu rosto.
— Como você está linda! Essa cor de cabelo combina muito com seus olhos. — disse meu pai, me abraçando em seguida.
— E seus cabelos grisalhos também combinam com os seus. — falei sorrindo.
Percebi então os pais do Robert sentados à mesa, me observando com atenção. Minha mãe tomou a frente e fez as apresentações.
— Filha, essa é a Amélia, mãe do Robert e do Lucky, que você já deve ter conhecido.
A senhora, que devia ter uns cinquenta e poucos anos, se levantou e me deu um abraço rápido.
— Você se parece muito com seu pai. Tem olhos lindos.
— Obrigada. — respondi sorrindo.
— Esse é o Alberto, pai dos meninos. — minha mãe completou.
— Prazer em te conhecer. — disse ele, me abraçando também.
— Igualmente. — respondi simpática.
— Essa é a Emylia, nossa caçula. — minha mãe disse orgulhosa.
— Sua mãe nos contou que você toca violino. — disse Amélia.
— Toco violino e piano. — confirmei.
— Por isso temos um lindo piano na sala. — meu pai completou.
— Nosso filho mais novo também é músico, toca piano. — disse Alberto.
— São muitas coincidências entre essas duas famílias, não é? — minha mãe falou sorrindo.
— Pois é... Eu vou pro meu quarto. — cortei.
— Tudo bem, te esperamos para o almoço. — disse meu pai.
Subi as escadas, observando os quadros no corredor: eu e Emma pequenas, minha primeira apresentação, minha formatura, e o mais recente, o jantar de noivado dela, que eu não pude comparecer, mas mandei presente.
— Você parecia ser uma criança legal... pena que cresceu. — Lucky falou atrás de mim.
Revirei os olhos.
— Pelo menos eu cresci. — retruquei, puxando a mala que estava pesadíssima.
— Quer ajuda? — ele perguntou, apontando pra bagagem.
— Não quero. — respondi seca, subindo um degrau enquanto meu braço já formigava.
— Tudo bem, você é chata, mas não vou te deixar se matar de esforço. — ele pegou a mala da minha mão e subiu todos os degraus com facilidade.
Eu só fiquei olhando. Não falei nada, só peguei a mala quando chegamos no andar de cima e segui pro meu quarto.
— De nada, mais uma vez. — ele disse, parando no topo da escada.
No corredor havia mais fotos minhas e da Emma: brincando no quintal, no hipismo, na natação, alimentando galinhas… memórias de uma infância feliz.
— Sinto falta disso. — Emma falou, tocando um dos quadros.
— É... eu também. — respondi, sorrindo pra ela.
Entrei no meu quarto, que estava exatamente igual à última vez em que estive ali.