C A P I T Ú L O 02

938 Words
Lucky🎹 O Natal. Com certeza minha época favorita do ano. Tudo fica cheio de enfeites, as pessoas parecem mais abertas pra conhecer outras, as famílias se reúnem, rola muita conversa, risada e, claro, presentes. Acho que minha família sempre soube deixar essa data única, tanto pra mim quanto pro Robert, meu irmão mais velho, que ainda escolheu se casar na véspera de Natal com a pessoa que ama. Eu acredito no Natal, mas não sei se acredito tanto no amor. Não só por causa de um noivado fracassado, mas também porque, depois que me envolvi com ela, nunca mais consegui me abrir de verdade pra ninguém. Sei que terapia ajudaria, mas m*l tenho tempo pra respirar, quem dirá pra desabafar com alguém. Divido meu tempo entre viagens com a orquestra nacional e aulas de música pra crianças. Sempre que posso, corro pra fazenda dos meus avós no interior do estado onde nasci. Esse Natal, em especial, promete ser diferente. O casamento do meu irmão vai unir duas famílias, e finalmente vamos nos conhecer de verdade. Afinal, depois da cerimônia, seremos uma só família, unida pelo amor do Robert e da Emma. Eu já estava no ônibus, a caminho da casa dos sogros do meu irmão. Escolheram a chácara deles como cenário do casamento e do Natal, por ser um lugar grande e muito especial pra minha cunhada. Passei quase a viagem toda dormindo, assim como a moça do meu lado, que parecia não estar nada feliz de estar ali. Reparei que ela carregava um violino, e como bom músico, não consegui me segurar. Minha mãe sempre fala que eu sou meio invasivo, mas a verdade é que eu adoro conhecer gente nova, ainda mais quando também é da música. — Vi que você tem um violino — falei, apontando. — Sim — respondeu rápido, me olhando de relance. — Eu toco piano — falei sorrindo. — Legal — respondeu seca. Fiquei quieto uns segundos, pensando em como quebrar o gelo. — Você toca em alguma orquestra? — perguntei. Ela me olhou com cara feia. Claramente não queria papo, mas eu realmente queria conhecer mais dela. Não só pelo violino… ela tinha uma beleza imensa, olhos expressivos de um jeito que eu nunca tinha visto. — Acho que você quer saber demais sobre mim — disse, voltando a olhar pela janela. — Desculpa o jeito invasivo, é que eu amo falar de música — falei, ainda sorrindo. Ela nem piscou, continuou encarando a paisagem. Fiquei em silêncio mais um pouco, até soltar: — Você também sente a magia do Natal chegando? Como se tudo fosse possível, como se essa época deixasse tudo melhor? Ela virou o rosto devagar e soltou uma risadinha debochada. — Desculpa, mas quantos anos você tem? Achei que acreditar em Papai Noel fosse coisa de criança. — Eu não acredito no Papai Noel, mas acredito no Natal. Acredito na união da família. Vai dizer que você não acredita? — Pra falar a verdade? Natal é a data que eu mais odeio. — Não pode dizer isso. — O quê? Magoei sua criança interior? Será que deixei o Papai Noel tão chateado que ele não vai me dar presente esse ano? — falou com aquele tom de deboche. — Sua família deve ser guerreira por aguentar alguém tão ranzinza. — falei rindo. — E a sua também, por aguentar um adulto que ainda não cresceu. — retrucou na hora. — Você acha que eu não cresci só porque acredito no Natal? — Não. Acho que você é ingênuo demais por não enxergar que tudo isso é só capitalismo, que enriquece grandes indústrias e deixa gente pobre acreditando nesse “espírito natalino” cada vez mais endividada. No olhar dela, dava pra ver a fúria que provoquei. Fiquei quieto um bom tempo. Não parecia alguém que mudava de opinião fácil. — Uau… era só pra ser uma conversa sobre música e virou um discurso político — falei encarando minhas mãos. Ela não respondeu. Colocou os fones de ouvido e ficou no mundo dela. Eu a observei. Tinha um olhar distante, como se a cabeça estivesse em outro lugar… ou com outra pessoa. Talvez alguém tivesse partido o coração dela no Natal. Só assim pra explicar tanta raiva da data. Olhei o celular. Faltava pouco pra descermos. Coloquei meus fones também e acabei pegando no sono. Acordei com barulho. O ônibus já estava no ponto final. A moça, que até então eu tinha esquecido de perguntar o nome, me encarava com seus olhos expressivos — e ainda cheios de raiva. — Já estamos no ponto final? — perguntei. — Já. E, por favor, quero passar. — disse se levantando. — Ah, tudo bem, também vou descer. Peguei minha bolsa e o violino dela, entregando na sequência. Ela me encarou sem dizer nada, me deixando ainda mais confuso. — De nada — falei atrás dela. — Pelo quê mesmo? — Por ser um cara gentil e pegar seu violino. — Nossa, que ato heróico… pena que eu conseguiria sozinha. — Você é sempre assim? — Define “assim”, por favor. — disse rindo. — Grossa, seca e m*l-agradecida. — E era pra eu ser adorável com um cara intrometido, que não cala a boca, se acha cavalheiro por fazer algo que eu nem pedi? Eu coloquei o violino ali, eu mesma tiraria. — respondeu, me encarando. — Cada vez mais tenho pena da sua família. — falei. — E eu da sua. Sua mãe deve usar fone de ouvido 24 horas por dia, porque você deve ser insuportável. — disse, se afastando. Fiquei olhando ela de longe.
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