Emy🎻
Ah, o Natal... o que dizer dessa data em que o centro de todas as cidades fica lotado de gente, o preço de tudo parece triplicar e a família resolve se reunir pra comemorar? Uma data que, pra mim, não passa de um feriado qualquer, como todos os outros do ano. Minha família me chama de chata, mas eu acho que eles inventam coisa demais pra um dia comum — só pra ter no que acreditar.
Este ano, as coisas não poderiam ser piores: minha irmã resolveu se casar na véspera do Natal, me tirando qualquer desculpa pra não comparecer.
Emma vai se casar no dia 24 de manhã e pediu pra eu ser uma das damas de honra. Como o casamento é no Natal, não vai ter festa extravagante nem muita gente. Ela chamou também a prima do noivo, Robert, pra ser a outra dama. Eu não podia dizer não. Por mais que eu odeie o Natal, amo minha irmã e faço qualquer coisa pra vê-la feliz.
— Sua animação é contagiante. — Babi ri enquanto me vê arrumando as malas.
— Eu juro que tô me esforçando. — respondo rindo.
Babi é minha melhor amiga desde o ensino médio. Depois que saí da casa dos meus pais pra conquistar minha independência — e porque entrei na orquestra sinfônica da capital —, ela também decidiu seguir a vida e entrar na faculdade. Pra facilitar, resolvemos morar juntas. E cá estamos, nessa aventura há pouco mais de um ano e meio.
— Te vejo no Ano Novo? — pergunta, sentando na beira da cama.
— Sim, como todos os anos. — sorrio.
Natal não é comigo, mas Ano Novo eu amo com todas as forças.
— Não esquece de dar um abraço nos seus pais por mim. — ela diz.
— Pode deixar. Eles com certeza vão falar que queriam que você estivesse lá, já que é praticamente da família e eu sempre passo o Ano Novo com você. — respondo.
— Eu sei, mas nossos pais são iguais: dão muita importância pro Natal. — ela suspira, deitando na minha cama. — Às vezes também tenho vontade de não ir, mas sei que meu pai apareceria aqui... — ela me olha.
— Ano que vem, com muito planejamento, a gente marca uma viagem e volta só depois que todas essas festas acabarem. — digo rindo.
— Não acho má ideia. — ela concorda, rindo.
Ficamos em silêncio por alguns minutos, até que ela se levanta e vai em direção à porta.
— Você viaja que horas amanhã? — pergunta.
— Às seis. — respondo.
— Tá bom. — diz, fechando a porta.
Olho para o vestido lilás pendurado na porta do guarda-roupa. Coloco-o na capa com cuidado e o guardo na mala, por cima das roupas. Respiro fundo e fecho o zíper.
Tudo pela minha irmã...
Penso, soltando o ar preso nos pulmões. Arrumo o quarto, tomo banho e me junto à Babi na sala pra assistir uma série. Pedimos lanche pro jantar. Depois de alguns episódios, o sono bate forte e vou pro quarto. Vejo mensagens da minha irmã:
Emma:
Não vejo a hora de amanhã chegar!!!
Tô morrendo de saudade. Obrigada por aceitar o convite, você não imagina o quanto isso significa pra mim.
Te amo, caçula 🤍
Já é tarde, então decido responder de manhã. Coloco o despertador e durmo.
No dia seguinte, as malas já estão no carro quando vejo Babi atravessando a rua, acenando.
— Você não pode esquecer disso. — diz, entregando meu violino.
— Eu nem ia levar... — digo, devolvendo.
— Vai se arrepender se não levar, eu te conheço. — ela insiste.
— Tá bom. — aceito, entrando no carro.
— Te vejo dia 30. — ela sorri.
— Te vejo dia 30. — repito, acenando.
Vinte minutos depois, estou no terminal, aguardando pra embarcar.
— O violino vai com você? — o motorista pergunta.
— Sim. — respondo.
— Cadeira 26, boa viagem. — ele diz, me entregando a passagem.
Guardo o violino no bagageiro de cima, coloco meus fones e me preparo para as seis horas de viagem. Antes de esquecer, respondo Emma:
Eu:
BOM DIA! Sei o quanto isso é importante pra você, e só quero te ver feliz. Mais tarde chego.
Te amo 🤍
Nunca fui boa com palavras como a Emma. Tudo o que sinto, expresso melhor pela música — alegria, tristeza e até dor, mesmo que eu nunca tenha vivido esse último sentimento profundamente. Não vou pelo Natal, mas pela minha irmã, que sempre foi amorosa comigo. Acho que ela e Robert vão formar uma linda família e passar essa tradição pras próximas gerações. E eu? Serei a tia doida que não gosta de Natal, mas é gente boa.
Um rapaz se senta ao meu lado, sorri. Respondo com um sorriso educado. Prefiro ficar no meu canto, observando a estrada, até que durmo.
Acordo quando o ônibus para. Falta pouco pra chegar à cidade dos meus pais. Um misto de sentimentos me invade, lembrando dos tempos em que fazia esse trajeto quase todo fim de semana, perseguindo meu futuro na música. Ainda bem que não desisti.
Como um lanche que trouxe. O rapaz volta pro assento e comenta:
— Vi que você tem um violino.
— Sim. — respondo.
— Eu toco piano. — ele sorri.
— Legal. — digo, encerrando o assunto.
Acho que conversar com estranhos nunca vai ser meu forte.