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990 Words
Capítulo 6 — O Plano Luísa narrando Nunca pensei que sentiria saudade até do silêncio. Depois que meu pai morreu, a mansão deixou de ser um lar. As paredes continuavam as mesmas. Os jardins permaneciam impecáveis. Os lustres ainda iluminavam os corredores. Mas a paz… Essa morreu junto com ele. Passei a dormir no porão. Um cômodo pequeno, úmido e escuro, onde antes eram guardadas caixas velhas, ferramentas e móveis quebrados. O colchão era fino. As paredes tinham cheiro de mofo. Havia apenas uma pequena janela perto do teto, por onde entrava um fio de luz durante o dia. Na primeira noite chorei até adormecer. Na segunda… Já não tinha forças nem para isso. Naquela manhã, acordei antes do sol nascer. Nem precisei de despertador. A porta do porão foi aberta com força. — Levanta! A voz de Arlete ecoou pelo cômodo. Sentei rapidamente na cama. Ela jogou um avental branco sobre mim. — Você tem muito serviço hoje. Olhei para o avental sem entender. — Serviço? Ela cruzou os braços. — A partir de agora, você vai fazer tudo o que as empregadas faziam. Meu coração apertou. — Mas… Ela me interrompeu. — Não existe “mas”. Apontou para a porta. — Quero a casa brilhando antes do almoço. Assim que ela saiu, permaneci alguns segundos olhando para o avental. Meu pai jamais permitiria aquilo. Jamais. Respirei fundo. Coloquei o uniforme. Se aquela era a forma de evitar mais brigas… Era o que eu faria. Ainda acreditava que tudo iria melhorar. Talvez quando o advogado lesse o testamento… Talvez quando toda aquela dor passasse… Talvez. Eu precisava acreditar em alguma coisa. … A primeira tarefa foi limpar os banheiros da mansão. Nunca havia feito aquilo. Sempre ajudei dona Marta quando ela precisava. Mas limpar cinco banheiros enormes sozinha era completamente diferente. Passei horas esfregando pisos. Box. Espelhos. Vasos sanitários. Meus braços começaram a doer. Os produtos de limpeza queimavam minhas mãos. Mesmo assim… Continuei. Quando terminei, fui para a cozinha. Lavei uma pilha enorme de louças. Depois organizei armários. Limpei a geladeira. Varri toda a casa. Passei pano em cada cômodo. Subi e desci escadas incontáveis vezes. O relógio marcava quase duas da tarde quando senti meu estômago reclamar. Eu ainda não havia comido nada. Entrei discretamente na cozinha. Havia arroz. Feijão. Frango assado. Peguei um prato. Antes que colocasse a primeira colher de arroz… Arlete apareceu na porta. — O que pensa que está fazendo? Olhei para ela. — Eu só… Estou com fome. Ela caminhou lentamente até mim. Pegou o prato das minhas mãos. E despejou toda a comida no lixo. Fiquei paralisada. — Funcionária come depois dos patrões. Minha garganta fechou. — Mas eu… Ela sorriu. — Vai esperar. Olhei para o lixo. A comida ainda estava ali. Quase chorei. Mas apenas abaixei a cabeça. — Sim. Ela saiu satisfeita. … Às três da tarde… Suzana chegou de compras. Carregava várias sacolas. Assim que entrou na sala, jogou todas sobre o sofá. — Ei! Ela estalou os dedos. Olhei imediatamente. — Guarda isso tudo no meu closet. Assenti. — Claro. Passei quase uma hora organizando roupas novas. Sapatos. Perfumes. Bolsas. Enquanto isso, ela permanecia sentada na cama, mexendo no celular. Em determinado momento, levantou-se. Abriu uma gaveta. Pegou meu colar. O colar que meu pai havia me dado aos dezoito anos. Colocou no pescoço. Olhou-se no espelho. Sorriu. Meu peito apertou. Mas permaneci em silêncio. Ela percebeu meu olhar. Sorriu ainda mais. — Ficou melhor em mim. Respirei fundo. Meu pai sempre dizia que a educação dizia mais sobre quem a praticava do que sobre quem a recebia. Continuei dobrando as roupas. Sem responder. Isso pareceu irritá-la. Ela aproximou-se. — Você não vai falar nada? Balancei a cabeça. — Não. — Nem reclamar? — Reclamar não vai trazer meu pai de volta. Ela revirou os olhos. — Como você é chata. Voltei ao trabalho. … Quando finalmente terminei tudo… Já passava das cinco da tarde. Meu corpo inteiro doía. Voltei para a cozinha. Havia apenas um pedaço de pão amanhecido sobre a bancada. Olhei ao redor. Não havia ninguém. Peguei o pão. Antes que pudesse dar a primeira mordida… Arlete entrou novamente. Parecia surgir do nada. Arrancou o pão da minha mão. — Eu disse que só come depois da gente. Meu estômago parecia embrulhar de fome. Mas apenas respondi: — Desculpe. Ela me observou por alguns segundos. Talvez esperando que eu gritasse. Que discutisse. Que perdesse a cabeça. Mas eu não consegui. Meu pai nunca me ensinou a responder com violência. Ela saiu da cozinha. E eu continuei ali. Sentindo o cheiro da comida. Com o estômago vazio. … Naquela noite… Enquanto limpava a sala de estar… Ouvi vozes vindas do escritório. A porta estava entreaberta. Não era minha intenção escutar. Mas ouvi meu nome. Parei imediatamente. Arlete falava em voz baixa. — Ela ainda acredita que vai recuperar tudo. Suzana riu. — Coitada. — Quanto mais ela sofrer, melhor. Meu coração apertou. Continuei imóvel. Sem fazer qualquer barulho. Suzana perguntou: — E a dívida? Silêncio. Depois ouvi Arlete suspirar. — Três dias. Só tenho três dias. — Você vai conseguir. — Não tenho quase um milhão. Outra pausa. Então… A voz de Suzana saiu diferente. Mais calma. Mais calculista. — Talvez a gente não precise de dinheiro. Arlete permaneceu em silêncio. — O Lobo nunca olhou para mim. Mas isso não significa que ele não possa se interessar por outra pessoa. Meu coração acelerou. Lobo? Quem era Lobo? Arlete pareceu entender imediatamente. — Você está maluca? — Não. Estou pensando. Silêncio. Longo. Pesado. Aproximei-me um pouco mais da porta. Sem perceber. Foi quando ouvi apenas uma frase. Uma única frase. Que fez um arrepio percorrer meu corpo inteiro. — Ela vale muito mais que dinheiro. Meu coração disparou. Não fazia ideia do que aquilo significava. Mas, pela primeira vez… Senti medo. Um medo diferente de tudo que já havia sentido na vida.
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