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Capítulo 1 — A última lembrança
Luísa narrando
Existem lembranças que aquecem o coração.
Outras…
Machucam tanto que parecem nunca cicatrizar.
A minha primeira lembrança não é da minha infância.
É de uma fotografia.
Uma fotografia antiga, guardada dentro de um porta-retrato de madeira que ficava sobre a mesa de cabeceira do meu pai.
Nela havia uma mulher sorrindo.
Os cabelos castanhos dançavam com o vento.
Os olhos brilhavam como se o mundo inteiro coubesse dentro deles.
Ela segurava a barriga enorme, onde eu ainda estava.
Minha mãe.
Helena.
A mulher que deu a própria vida para que eu pudesse viver.
Ela morreu durante o meu parto.
Nunca ouvi sua voz.
Nunca senti um abraço seu.
Nunca tive a oportunidade de chamá-la de mãe.
Desde pequena, meu pai dizia que eu não deveria carregar culpa alguma.
— Sua mãe te amou antes mesmo de conhecer o seu rostinho, princesa. Ela faria tudo de novo se precisasse.
Eu acreditava nele.
Porque sempre que falava dela, seus olhos ficavam marejados.
Rubens nunca deixou que eu sentisse a ausência do amor.
Ele fazia questão de ser pai e mãe ao mesmo tempo.
Era ele quem penteava meu cabelo antes da escola, mesmo fazendo os penteados mais tortos do planeta.
Era ele quem preparava meu café da manhã aos domingos.
Era ele quem aparecia em todas as apresentações escolares, sempre sentado na primeira fila, sorrindo como se eu fosse a pessoa mais importante daquele auditório.
Eu cresci cercada de carinho.
Nunca me faltou amor.
Nunca me faltou respeito.
Meu pai era um empresário conhecido na cidade. Dono de uma das maiores lojas de materiais de construção da região, construiu seu patrimônio trabalhando desde muito jovem.
Tudo o que conquistou foi com esforço.
E fazia questão de repetir isso para mim.
— O dinheiro compra conforto, filha… nunca caráter.
Talvez tenha sido por isso que ele me criou tão diferente das meninas ricas que estudavam comigo.
Nunca fui mimada.
Aprendi a agradecer.
A respeitar.
A tratar todos da mesma forma.
Meu pai dizia que educação era a herança mais valiosa que poderia me deixar.
Eu tinha vinte e um anos.
Cursava Estética.
Sonhava em abrir minha própria clínica.
Não queria depender da fortuna dele.
Queria construir a minha.
Mesmo sabendo que jamais precisaria trabalhar por necessidade.
Ele sempre apoiava meus sonhos.
— Quando você formar, eu monto a clínica mais bonita da cidade.
Eu ria.
— Não, pai. Quero conquistar isso sozinha.
Ele fingia ficar bravo.
— Você é igualzinha à sua mãe.
E eu adorava ouvir aquilo.
Porque era a única maneira de me sentir próxima de alguém que nunca conheci.
Nossa casa era enorme.
Uma mansão cercada por jardins impecáveis.
Piscina.
Área gourmet.
Quartos espaçosos.
Tudo parecia perfeito…
Pelo menos para quem via de fora.
Porque dentro daquela casa existia uma mentira muito bem escondida.
Arlete.
Minha madrasta.
Ela entrou em nossas vidas quando eu tinha quinze anos.
Meu pai parecia tão sozinho…
Eu realmente tentei gostar dela.
No começo, ela era gentil.
Carinhosa.
Fingia se importar comigo.
Hoje entendo que tudo aquilo nunca passou de um teatro.
Depois do casamento…
A máscara caiu.
Ela nunca gritava comigo na frente do meu pai.
Nunca.
Esperava ele viajar.
Esperava a porta fechar.
E então…
Eu deixava de ser “a princesa do Rubens”.
Virava apenas um incômodo.
— Não deixa esse copo na mesa.
— Guarda suas coisas.
— Você já tem idade para fazer isso sozinha.
As críticas nunca eram grandes.
Eram pequenas.
Constantes.
Dolorosas.
Até que Suzana aparecia.
Filha de Arlete.
Dois anos mais velha do que eu.
Linda.
Vaidosa.
E completamente consumida pela inveja.
Ela não aceitava que meu pai me amasse tanto.
Sempre fazia questão de repetir:
— Você não passa de uma bastarda mimada.
Eu nunca respondia.
Meu pai me ensinou que algumas pessoas brigam porque vivem em guerra consigo mesmas.
Então eu apenas me afastava.
Era mais fácil.
Na frente dele…
As duas eram verdadeiras santas.
— Luísa, minha filha, quer mais um pedaço de bolo?
— Está estudando demais, querida.
— Rubens, você criou uma menina maravilhosa.
E ele acreditava.
Meu pai tinha o coração bom demais para enxergar a maldade das pessoas.
Naquela manhã, acordei cedo.
O cheiro de café invadia toda a casa.
Sorri.
Sabia exatamente quem estava na cozinha.
Desci as escadas descalça.
Encontrei meu pai preparando panquecas.
Vestia terno.
Gravata azul-marinho.
Já estava pronto para viajar.
Sorriu assim que me viu.
— Bom dia, princesa.
Corri até ele.
O abracei por trás.
— Vai viajar de novo?
Ele suspirou.
— Infelizmente.
Fiz uma careta.
— Você vive trabalhando.
Rubens desligou o fogão.
Virou-se para mim.
Segurou meu rosto entre as mãos.
— É a última viagem longa, eu prometo.
Olhei desconfiada.
— Promete mesmo?
Ele levantou a mão.
— Palavra de pai.
Sorri.
— Depois dessa reunião… vou tirar quinze dias de férias.
Meus olhos brilharam.
— Sério?
— Nós vamos viajar.
Só nós dois.
Para onde você quiser.
Senti um nó na garganta.
Fazia anos que não passávamos tanto tempo juntos.
Ele sempre estava trabalhando.
Mesmo me amando mais do que tudo.
Abracei seu pescoço.
— Eu te amo, pai.
Ele beijou minha testa.
— Eu também te amo, minha menina.
Naquele instante…
Arlete entrou na cozinha.
Sorrindo.
Doce.
Perfeita.
— Que cena linda…
Suzana apareceu logo atrás.
— Bom dia, família.
Meu pai sorriu.
Completamente enganado.
Tomamos café juntos.
Conversamos.
Rimos.
Ele falou dos planos para nossa viagem.
Nem percebi o olhar atravessado de Suzana.
Nem o sorriso falso de Arlete.
Porque eu estava feliz.
Muito feliz.
Depois do café, acompanhei meu pai até a garagem.
O motorista já esperava ao lado do carro.
Rubens colocou a mala no porta-malas.
Antes de entrar…
Voltou.
Caminhou até mim.
Me abraçou forte.
Forte demais.
Como se, de alguma forma…
Pressentisse alguma coisa.
— Se cuida.
— Sempre.
— Estuda bastante.
— Sim.
Ele sorriu.
— E não esquece…
Nossa viagem está de pé.
Assim que eu voltar.
Balancei a cabeça.
— Vou esperar.
Ele entrou no carro.
Baixou o vidro.
Acenou.
Eu permaneci parada na garagem até o carro desaparecer no fim da rua.
Sorri.
Sem imaginar…
Que aquele havia sido o último abraço do meu pai.
…
Duas horas depois…
Meu celular tocou.
Número desconhecido.
Atendi.
— Alô?
Do outro lado…
Uma voz masculina.
Séria.
Protocolar.
— A senhorita Luísa ?
Meu coração acelerou.
— Sim…
Houve alguns segundos de silêncio.
Então ele disse as palavras que destruíram a minha vida.
— Houve um grave acidente na rodovia.
Meu pai…
Nunca chegou ao destino.