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1166 Words
Capítulo 2 — O Enterro Luísa narrando Eu não lembro como cheguei ao hospital. As únicas palavras que ecoavam dentro da minha cabeça eram as mesmas. “Houve um grave acidente…” ”…Seu pai não resistiu.” Não. Aquilo não podia estar acontecendo. Meu pai tinha acabado de sair de casa. Tinha me abraçado. Prometido uma viagem. Prometido voltar. Ele sempre cumpria suas promessas. Sempre. As lágrimas embaçavam minha visão enquanto eu atravessava o corredor do hospital quase correndo. Meu coração batia tão forte que doía. — Meu pai… Onde está o meu pai? — perguntei à primeira enfermeira que encontrei. Ela baixou os olhos. Aquele simples gesto destruiu a pouca esperança que ainda existia dentro de mim. Um médico de jaleco branco caminhou até mim. Seu semblante era sério. Profissional. E, ao mesmo tempo, carregado de compaixão. — Senhorita Luísa? Balancei a cabeça. — Sim… Eu sou a filha dele. Ele respirou fundo. — Sinto muito pela sua perda. Meu mundo parou. Não ouvi mais nada. As pernas fraquejaram. O chão pareceu desaparecer. Só consegui sentir dois braços me segurando antes que eu desabasse completamente. … Quando despertei, estava deitada em uma maca. Uma enfermeira media minha pressão. Meu rosto estava molhado de lágrimas. — Meu pai… Minha voz saiu tão baixa que m*l consegui me ouvir. A enfermeira segurou minha mão. — Ele faleceu ainda no local do acidente. Fechei os olhos. As lágrimas voltaram com ainda mais força. — Ele… sofreu? Ela sorriu de forma triste. — Não. Aquela resposta deveria me confortar. Mas não confortou. Porque nada mudava o fato de que eu nunca mais ouviria sua voz. Nunca mais sentiria seu abraço. Nunca mais ouviria ele me chamar de princesa. Comecei a chorar outra vez. Sem conseguir controlar. … Alguns minutos depois… A porta do quarto foi aberta. Arlete entrou correndo. Os olhos vermelhos. O rosto molhado. Assim que me viu, abriu os braços. — Minha filha… Ela me abraçou tão forte que qualquer pessoa acreditaria naquele sofrimento. Atrás dela, Suzana também chorava. — Eu não acredito… — repetia entre soluços. Naquele momento… Eu não conseguia desconfiar de ninguém. Só queria acreditar que ainda tinha uma família. … Os próximos dois dias passaram como um borrão. Assinaturas. Documentos. Telefonemas. Jornalistas. Funcionários da empresa. Advogados. Meu pai era um empresário muito conhecido. Sua morte ocupou manchetes na cidade inteira. Todos diziam a mesma coisa. — Rubens era um homem honesto. — Um trabalhador. — Um exemplo. Eu sentia orgulho. Mesmo em meio à dor. Porque aquele era o homem que me criou. … O velório aconteceu na maior capela da cidade. Centenas de pessoas apareceram. Empresários. Clientes. Funcionários. Amigos. Todos queriam prestar uma última homenagem. Quando entrei… Vi o caixão no centro do salão. Coberto por flores brancas. Minhas pernas enfraqueceram. Era real. Meu pai estava ali. Sem vida. Aproximei-me devagar. Cada passo parecia mais pesado que o anterior. Quando finalmente olhei para dentro do caixão… Meu coração se partiu novamente. Seu rosto estava sereno. Como se estivesse dormindo. Estendi a mão. Toquei seus dedos frios. — Pai… Minha voz falhou. — O senhor prometeu voltar… As lágrimas caíram sem controle. Inclinei-me e beijei sua testa pela última vez. — Eu te amo… Silêncio. O único som era o meu choro. … Durante toda a cerimônia, Arlete fazia questão de permanecer ao meu lado. Abraçava-me. Enxugava minhas lágrimas. Recebia os cumprimentos. Parecia a esposa perfeita. A viúva inconsolável. Suzana também representava seu papel. Abraçava conhecidos. Chorava. Dizia sentir muita falta do padrasto. Qualquer pessoa acreditaria. Qualquer uma. … Um dos gerentes da loja aproximou-se de mim. Seu Antônio. Trabalhava com meu pai havia quase trinta anos. Os olhos dele estavam vermelhos. — Seu pai era um homem raro, Luísa. Sorri entre lágrimas. — Eu sei. — Nunca deixou faltar nada para nenhum funcionário. Nem mesmo durante a pandemia. Ele pagou salários quando muita empresa fechou as portas. Assenti. Aquilo era exatamente o meu pai. Generoso. Justo. Humano. Mais pessoas vieram falar comigo. Todas contando histórias bonitas sobre ele. Cada palavra aumentava minha saudade. … Chegou o momento mais difícil. O fechamento do caixão. Quando os funcionários começaram a colocar a tampa… Entrei em desespero. — Não… Corri até eles. — Esperem… Por favor… Mais um minuto… Só mais um minuto… Segurei a borda do caixão. Chorando como nunca havia chorado. — Pai… Não vai embora… Por favor… Senti alguém me puxar delicadamente. Era um dos funcionários. — Precisamos, senhorita… Balancei a cabeça negativamente. — Não… Eu ainda não consegui me despedir… Mas o caixão foi fechado. O som da madeira encaixando ecoou dentro do meu peito. Era como se estivessem enterrando uma parte de mim. … No cemitério… Segurei uma rosa branca. Enquanto o caixão descia lentamente. Sussurrei: — Obrigada por tudo. Obrigada por ter sido o melhor pai do mundo. Eu prometo… Nunca vou esquecer o senhor. Joguei a flor. Ela caiu sobre o caixão. E então… Ele desapareceu sob a terra. Naquele instante… Eu senti que estava completamente sozinha. … Enquanto todos olhavam para mim… Incapazes de conter a emoção… Arlete virou discretamente o rosto. Encontrou os olhos de Suzana. As duas trocaram um olhar. E sorriram. Foi um sorriso tão rápido… Que ninguém percebeu. Ninguém. Exceto Deus. … Quando voltamos para casa… Já era noite. A mansão parecia vazia. Silenciosa. Sem vida. Subi direto para o quarto do meu pai. Ainda havia seu perfume no ar. Abri o guarda-roupa. Peguei um de seus paletós. Abracei contra o peito. Sentei no chão. E chorei. Chorei até não ter mais forças. Em algum momento… Acabei adormecendo. … Não ouvi quando um caminhão estacionou na frente da mansão. Nem quando um chaveiro entrou. Nem quando todas as fechaduras da casa foram trocadas. Também não vi Arlete demitir dois empregados antigos que trabalhavam com meu pai desde antes do meu nascimento. Nem ouvi quando ela mandou bloquear os cartões que meu pai havia deixado para mim. Ou quando pediu ao advogado que antecipasse toda a leitura do testamento. Enquanto eu dormia… Minha vida era arrancada de mim. Pedaço por pedaço. … Na manhã seguinte… Desci as escadas ainda vestindo a roupa preta do enterro. Meu rosto estava inchado. Os olhos ardiam. Assim que entrei na sala de jantar… Estranhei. A cadeira onde meu pai sempre tomava café estava ocupada. Arlete. Ela segurava uma xícara de café como se fosse a dona absoluta daquele lugar. Suzana estava ao lado dela. As duas me observaram em silêncio. Percebi que alguns empregados também estavam ali. Todos cabisbaixos. Com medo. Olhei ao redor. Até os quadros do meu pai haviam sido retirados das paredes. Meu coração apertou. — O que aconteceu aqui? Ninguém respondeu. Arlete colocou a xícara sobre a mesa. Cruzou as pernas. Sorriu. Mas aquele sorriso… Não tinha absolutamente nada de gentil. Era frio. Calculista. Cruel. Ela me encarou por alguns segundos antes de dizer: — A partir de hoje… Fez uma pequena pausa. Seu sorriso aumentou. — …quem manda nesta casa sou eu.
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