Capítulo 3 — A Máscara Caiu
Luísa narrando
Nunca imaginei que fosse possível perder alguém duas vezes.
Mas foi exatamente isso que aconteceu.
Primeiro, perdi meu pai.
Depois…
Perdi a vida que ele construiu para mim.
Naquela manhã, o silêncio da mansão era sufocante.
Não havia o cheiro do café que meu pai preparava.
Nem a música clássica que ele fazia questão de ligar todas as manhãs.
Nem o som de sua risada ecoando pelos corredores.
A casa parecia vazia.
Fria.
Como se a alegria tivesse ido embora junto com ele.
Fiquei alguns segundos parada na porta da sala de jantar.
Arlete continuava sentada na cadeira que sempre pertenceu ao meu pai.
A mesma cadeira onde ele fazia questão de esperar eu descer para tomarmos café juntos.
Ver outra pessoa ocupando aquele lugar fez meu peito doer.
Ela levantou os olhos lentamente.
Tomou mais um gole de café.
Sorriu.
Não era um sorriso de carinho.
Era de vitória.
— Bom dia… Luísa.
Sua voz soou doce.
Artificialmente doce.
Suzana soltou uma risadinha.
— Acho que ela ainda não entendeu que as coisas mudaram.
Ignorei a provocação.
Olhei ao redor.
Percebi que alguns empregados não estavam ali.
Franzi a testa.
— Onde está a dona Marta?
Dona Marta trabalhava naquela casa desde antes de eu nascer.
Foi ela quem me ensinou a andar de bicicleta.
Quem fazia meu bolo de aniversário todos os anos.
Arlete respondeu sem demonstrar qualquer emoção.
— Foi embora.
Meu coração apertou.
— Como assim foi embora?
— Eu a demiti.
Senti um frio percorrer minha espinha.
— Demitiu?
Ela cruzou as pernas.
— Sim.
Ela era muito cara.
E eu gosto de cortar gastos desnecessários.
Olhei para Suzana.
Ela sorria enquanto mexia no celular.
— E o seu João?
— Também foi demitido.
— Mas…
Ele trabalha aqui há mais de vinte anos…
Arlete deu de ombros.
— Agora não trabalha mais.
Meu estômago embrulhou.
Meu pai jamais permitiria aquilo.
Jamais.
Respirei fundo.
— Meu pai nunca faria isso.
Ela me encarou.
Seu sorriso desapareceu.
— Mas seu pai morreu.
O mundo pareceu parar.
Engoli o choro.
Ela continuou.
— E quem toma as decisões agora sou eu.
…
Subi rapidamente para meu quarto.
Precisava ligar para o advogado.
Precisava entender o que estava acontecendo.
Peguei meu celular.
Disquei o número.
Antes mesmo da ligação completar…
Recebi uma notificação.
Cartão recusado.
Estranhei.
Abri o aplicativo do banco.
Conta bloqueada.
Cartões cancelados.
Meu coração disparou.
Desci as escadas novamente.
— Arlete…
Ela nem levantou os olhos.
— Meu cartão foi cancelado.
— Eu sei.
— Como assim você sabe?
Ela sorriu.
— Eu mandei cancelar.
Meu corpo inteiro ficou imóvel.
— Você não pode fazer isso.
Ela riu.
— Posso.
E fiz.
— Mas meu pai…
Ela bateu a mão sobre a mesa.
— Seu pai morreu!
O grito ecoou pela sala.
Fiquei em silêncio.
Ela respirou fundo.
Depois voltou a sorrir.
— Está na hora de você entender a realidade.
…
Ainda tentando manter a calma, subi novamente.
Peguei minha mochila.
Precisava ir para a faculdade.
Estudar era a única coisa que ainda fazia sentido.
Quando cheguei ao carro…
O motorista não estava.
Olhei para a garagem.
Vazia.
Voltei para dentro.
— Cadê o Carlos?
Arlete respondeu naturalmente.
— Também foi demitido.
Fechei os olhos por um instante.
— Então vou chamar um aplicativo.
— Não precisa.
— Preciso sim.
Ela sorriu.
— Você não estuda mais.
Olhei para ela sem entender.
— O quê?
— Cancelei sua matrícula.
Meu coração falhou uma batida.
— Você fez o quê?
— Liguei para a faculdade esta manhã.
Expliquei que você vai trancar o curso.
Você não precisa mais estudar.
Senti minhas pernas fraquejarem.
— Você não tinha esse direito!
Pela primeira vez desde a morte do meu pai…
Levantei a voz.
Ela levantou devagar.
Caminhou até mim.
Parou tão perto que consegui sentir seu perfume.
— Eu tenho todos os direitos.
Porque tudo pertence a mim.
Olhei dentro dos seus olhos.
— Meu pai jamais permitiria isso.
Ela sorriu.
— Ainda bem que ele não está mais aqui para impedir.
…
As lágrimas começaram a escorrer pelo meu rosto.
Corri para meu quarto.
Precisava salvar pelo menos minhas coisas.
Abri o closet.
Mas parei na porta.
As prateleiras estavam quase vazias.
Meus vestidos haviam desaparecido.
As bolsas também.
As caixas de sapatos.
As joias que meu pai me dava em todos os aniversários.
Tudo.
Tudo havia sumido.
Desesperada, comecei a abrir gavetas.
Nada.
Nem mesmo o colar que meu pai me presenteou quando completei dezoito anos.
Ouvi passos atrás de mim.
Suzana entrou.
Vestia um dos meus vestidos.
Exatamente um dos meus favoritos.
Girou diante do espelho.
Sorriu.
— Ficou lindo em mim.
Olhei horrorizada.
— Esse vestido é meu.
Ela passou a mão pelo tecido.
— Era.
Respirei fundo.
— Devolve.
Ela gargalhou.
— Não.
Olhei para Arlete.
Ela havia parado na porta.
Assistia à cena como quem aprecia um espetáculo.
— Arlete…
Por favor…
Essas coisas eram presentes do meu pai.
Ela deu de ombros.
— Agora pertencem à Suzana.
Meu peito queimava.
Aproximei-me da irmã.
Segurei delicadamente seu braço.
— Por favor…
Só quero o colar da minha mãe…
Antes que eu terminasse a frase…
PLÁÁÁC!
O tapa queimou meu rosto inteiro.
Minha cabeça virou para o lado.
Levei a mão à bochecha.
Demorei alguns segundos para entender o que havia acontecido.
Arlete ainda mantinha a mão levantada.
Os olhos cheios de ódio.
— Nunca mais toque na minha filha.
As lágrimas caíram imediatamente.
Não pela dor.
Mas pela humilhação.
Suzana começou a rir.
Uma gargalhada alta.
Cruel.
Debochada.
— Você tinha que ver a sua cara!
Ela ria sem conseguir parar.
Enquanto eu permanecia imóvel.
Sentindo o rosto arder.
Sentindo meu coração quebrar mais um pouco.
Arlete caminhou até o closet.
Pegou uma pequena chave.
Voltou para a minha frente.
Jogou-a sobre a cama.
O metal fez um pequeno barulho ao bater na madeira.
Franzi a testa.
— O que é isso?
Ela cruzou os braços.
Seu sorriso voltou.
Mais perverso do que nunca.
— Seu quarto novo.
Olhei sem entender.
Ela respondeu friamente:
— Arrume suas poucas roupas.
Fez uma pausa.
E completou:
— Seu quarto agora é no porão.