Capítulo 4 — O Lobo
Lobo narrando
O medo tem cheiro.
Cheiro de suor frio.
De sangue.
De arrependimento.
Eu aprendi isso muito cedo.
E, depois de tantos anos comandando a Rocinha, bastava olhar para alguém para saber quando estava mentindo.
Naquela noite…
O homem ajoelhado à minha frente já sabia que iria morrer.
Mesmo assim…
Continuava tentando salvar a própria pele.
— Lobo… pelo amor de Deus… eu tenho família.
Olhei para ele sem qualquer expressão.
As mãos amarradas nas costas.
O rosto completamente machucado.
Os joelhos afundados na terra molhada.
Chovia fino.
As luzes da comunidade iluminavam o alto do morro como um céu cheio de estrelas.
Era bonito.
Engraçado…
A morte sempre escolhia os cenários mais bonitos.
Cruzei os braços.
— Família…
Repeti calmamente.
— Você lembrou dela antes ou depois de roubar o dinheiro do morro?
Ele começou a chorar.
— Eu ia devolver…
Meu olhar permaneceu fixo nele.
Mentira.
Quem rouba uma vez…
Rouba duas.
Rouba três.
Até ser parado.
Ao meu lado, Vinicius permaneceu imóvel.
Braços para trás.
Sempre atento.
Mateus, por outro lado, parecia impaciente.
— Esse verme tá fazendo a gente perder tempo.
Ignorei o comentário.
Continuei olhando para o homem.
— Quanto?
Vinicius respondeu imediatamente.
— Cento e oitenta mil.
Assenti.
Dinheiro suficiente para alimentar dezenas de famílias da comunidade.
Dinheiro que comprava remédios.
Cestas básicas.
Botijões de gás.
Armas.
Munição.
Segurança.
Quem roubava do morro…
Não roubava de mim.
Roubava de todo mundo.
Aquele erro…
Nunca era perdoado.
O homem voltou a implorar.
— Eu juro que devolvo…
Tenho filhos pequenos…
Fechei os olhos por um segundo.
Não por pena.
Nunca tive pena.
Apenas pensava.
Toda decisão precisava ser justa.
Se eu começasse a perdoar…
A comunidade inteira perderia o respeito.
E respeito…
Era mais importante que dinheiro.
Abri os olhos novamente.
Olhei para Vinicius.
— Recuperaram o dinheiro?
— Tudo.
Olhei para Mateus.
— Mais alguém envolvido?
— Não.
Voltei a encarar o homem.
Ele ainda chorava.
Tremia tanto que m*l conseguia respirar.
Dei dois passos à frente.
Parei diante dele.
— Você sabe qual é a pior coisa de uma traição?
Ele balançou a cabeça negativamente.
— É que ela nunca acontece por acidente.
Silêncio.
— Você escolheu isso.
Ele começou a gritar.
— Não!
Pelo amor de Deus…
Lobo…
Me dá outra chance!
Suspirei.
Depois retirei lentamente a pistola da cintura.
Ao redor…
Ninguém dizia absolutamente nada.
Os rapazes do morro abaixaram a cabeça.
Todos sabiam.
Quando eu sacava uma arma…
A sentença já havia sido dada.
Ajoelhei diante dele.
Olhei dentro dos seus olhos.
Não havia ódio.
Não havia raiva.
Nem satisfação.
Apenas certeza.
— Eu sempre cumpro minha palavra.
Ele começou a se debater.
— Não!
Por favor!
Eu tenho uma filha!
Respirei fundo.
— Então espero que ela aprenda a ser honesta.
Levantei a arma.
Um disparo.
O som ecoou por todo o morro.
Os passarinhos levantaram voo.
O corpo caiu para trás.
Silêncio.
Mateus caminhou até mim.
— Corpo?
— Some com ele.
— Sim.
Vinicius já anotava alguma coisa em um pequeno caderno.
Organização.
Era isso que mantinha tudo funcionando.
Ali ninguém fazia nada sem autorização.
Ninguém roubava.
Ninguém abusava de moradores.
Ninguém vendia droga para criança.
Ninguém mexia com mulher da comunidade.
Minhas regras eram claras.
Quem quebrava…
Pagava.
Sem exceção.
Guardei a arma.
Olhei para os rapazes ao redor.
— Avisem.
Mateus sorriu.
Sabia exatamente o que eu queria dizer.
Antes do amanhecer…
A Rocinha inteira saberia.
Quem roubasse…
Terminava da mesma forma.
O medo mantinha a ordem.
E eu nunca tive problema em ser o homem mais temido daquele lugar.
…
Descemos o morro em silêncio.
As pessoas desviavam do nosso caminho.
Algumas abaixavam a cabeça.
Outras apenas observavam.
As mães puxavam os filhos para perto.
Não por medo de mim.
Mas porque sabiam que eu representava poder.
Nunca gostei de chamar atenção.
Nunca desfilei armado.
Nunca precisei levantar a voz.
Minha presença bastava.
Entramos na caminhonete.
Mateus dirigia.
Vinicius seguia ao meu lado.
Ninguém falava.
Até que Mateus resolveu quebrar o silêncio.
— Tem uma festa grande hoje na boate.
Continuei olhando pela janela.
— Hum.
— Dizem que vai encher.
Não respondi.
Ele riu.
— Também dizem que metade das mulheres da cidade vai estar lá.
Olhei para ele.
— E?
Ele sorriu de lado.
— Achei que talvez…
Interrompi.
— Você pensou errado.
Mateus levantou as mãos.
— Tá bom.
Vinicius soltou uma risada discreta.
— Você ainda insiste em tentar arrumar mulher pro Lobo.
Mateus deu de ombros.
— O cara trabalha vinte e quatro horas por dia.
Nunca vi alguém viver desse jeito.
Continuei olhando a estrada.
— Mulher complica.
Vinicius concordou.
— Dinheiro também.
Respondi sem tirar os olhos da janela.
— Dinheiro resolve.
Mulher cria problema.
Os dois riram.
Mas sabiam que eu falava sério.
Nunca tive namorada.
Nunca prometi amor para ninguém.
Quando queria companhia…
Era apenas por uma noite.
Sem nomes.
Sem promessas.
Sem sentimentos.
Era mais simples.
Muito mais simples.
…
A boate já estava lotada quando chegamos.
Luzes coloridas.
Música alta.
Bebida.
Dinheiro.
Gente querendo aparecer.
Passei pelo salão sem olhar para ninguém.
Todos abriam caminho.
Cumprimentavam.
Respeitavam.
Subi direto para o escritório no andar superior.
Era o único lugar silencioso daquela confusão.
Sentei na cadeira.
Vinicius colocou alguns relatórios sobre a mesa.
Mateus começou a falar sobre carregamentos.
Eu analisava tudo.
Cada detalhe.
Cada gasto.
Cada entrada.
Organização.
Era isso que fazia um império permanecer de pé.
Uma batida interrompeu a reunião.
Mateus olhou para a porta.
— Quem é?
Um dos seguranças respondeu do lado de fora.
— Chefe…
Tem uma mulher insistindo para falar com o senhor.
Continuei lendo os papéis.
— Manda embora.
O segurança hesitou.
— Ela disse que é urgente.
Nem levantei os olhos.
— Não é.
Silêncio.
Alguns segundos depois…
A porta foi aberta mesmo assim.
Uma mulher entrou praticamente correndo.
Os cabelos desalinhados.
A maquiagem borrada.
Respiração ofegante.
Reconheci imediatamente.
Arlete.
Dona da boate.
Ela parou diante da minha mesa.
As mãos tremiam.
Os olhos mostravam um medo que ela tentava esconder.
Engoliu seco.
E disse:
— Eu… eu preciso falar com você.