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1010 Words
Capítulo 8 — A Escolhida Luísa narrando Fazia oito dias que eu não sabia o que era viver. Eu apenas existia. Acordava antes do sol nascer. Limpava a mansão inteira. Lavava roupas. Preparava café. Almoço. Jantar. Esfregava banheiros. Passava pano. Dormia poucas horas. E acordava para fazer tudo outra vez. Meu corpo já não reclamava tanto quanto meu coração. Porque a dor física passava. A saudade do meu pai… Não. Ela só aumentava. Naquela manhã, terminei de limpar a cozinha quando ouvi Arlete gritar do andar de cima. — Luísa! Larguei o pano sobre a bancada. — Já estou indo! Subi as escadas rapidamente. Bati na porta do quarto dela. — Posso entrar? — Entra. Abri a porta. Arlete estava sentada diante da penteadeira. Suzana experimentava um vestido vermelho, justo e brilhante. As duas me olharam de cima a baixo. Como se estivessem avaliando alguma mercadoria. Aquilo me causou um desconforto estranho. — O que foi? Arlete levantou. Caminhou lentamente até mim. Pela primeira vez desde a morte do meu pai… Ela sorriu. Um sorriso gentil. Falso. — Hoje você não vai limpar a casa. Franzi a testa. — Não? Ela balançou a cabeça. — Arrume-se. Olhei sem entender. — Para quê? — Consegui um emprego para você. Meu coração acelerou. — Um emprego? Ela assentiu. — Você não queria ajudar nas despesas? Era mentira. Eu nunca havia dito aquilo. Mas preferi não discutir. — Onde? — Na boate. Meu sorriso desapareceu. — Boate? Ela cruzou os braços. — Vai trabalhar como garçonete. Engoli em seco. Nunca tinha entrado em uma boate. Meu pai nunca permitiu. Não porque fosse autoritário. Mas porque dizia que aquele ambiente não combinava comigo. Olhei para o chão. — Eu… Nunca trabalhei em um lugar assim. Arlete aproximou-se. Sua voz voltou a ser doce. — É só servir bebidas. Você consegue. Pensei durante alguns segundos. Talvez fosse realmente uma oportunidade. Talvez, se eu começasse a trabalhar, pudesse juntar algum dinheiro. Quem sabe terminar minha faculdade no futuro. Recomeçar. Meu pai sempre dizia que nenhuma tempestade durava para sempre. Sorri discretamente. — Está bem. Ela sorriu também. Mas aquele sorriso… Parecia comemorar alguma coisa. … Uma hora depois… Arlete entrou no meu quarto no porão carregando uma caixa enorme. Colocou-a sobre a cama. — Vista isso. Abri a caixa. Havia um vestido preto. Muito mais bonito e caro do que qualquer roupa que eu possuía. Passei a mão sobre o tecido. — Isso é para trabalhar? Ela respondeu rapidamente. — Na boate, a aparência importa. Continuei olhando para o vestido. Era elegante. Mas justo demais. Levantei os olhos. — Não tenho outro? Ela perdeu a paciência por um instante. — Faz o que estou mandando. Assenti. — Tudo bem. Quando terminei de me trocar… Ela voltou. Olhou-me dos pés à cabeça. Franziu a testa. — Falta maquiagem. Antes que eu respondesse… Ela me puxou pelo braço. Levou-me até seu quarto. Sentou-me diante da penteadeira. Começou a arrumar meu cabelo. Passou maquiagem. Escolheu um perfume. Colocou brincos. Depois um colar. Fiquei completamente imóvel. Aquilo não fazia sentido. — Para servir bebidas precisa disso tudo? Ela sorriu. — Cliente gosta de mulher bonita. Meu estômago apertou. Mesmo assim… Resolvi acreditar. Talvez eu apenas estivesse nervosa. … Quando terminei… Suzana entrou no quarto. Assim que me viu… Seu rosto fechou. Ela me observou em silêncio durante alguns segundos. Depois olhou para Arlete. — Ficou bonita demais. Arlete respondeu friamente. — Tem que ficar. As duas trocaram um olhar estranho. Como se estivessem conversando sem precisar falar. Meu coração começou a bater mais rápido. Uma sensação r**m tomou conta de mim. — Tem certeza de que vou trabalhar como garçonete? Arlete sorriu. — Claro. Mas seus olhos… Não sorriam. … Saímos da mansão pouco antes das oito da noite. Era a primeira vez que eu deixava aquela casa desde a morte do meu pai. Olhei pela janela do carro durante todo o caminho. A cidade parecia diferente. As ruas. As pessoas. Tudo. Quando o carro começou a subir o morro… Franzi a testa. — A boate fica aqui? Arlete respondeu naturalmente. — Sim. Continuei observando pela janela. Nunca havia estado na Rocinha. As vielas eram movimentadas. Havia música por toda parte. Pessoas conversando. Crianças brincando. Mototáxis subindo e descendo. Era um lugar completamente diferente do bairro onde cresci. Poucos minutos depois… O carro parou diante de uma enorme boate. Luzes coloridas iluminavam toda a fachada. Muita gente entrava e saía. Olhei admirada. Era muito maior do que imaginei. Respirei fundo. — Estou nervosa. Arlete apenas respondeu: — Vai dar tudo certo. … Entramos. A música era alta. As luzes piscavam sem parar. Pessoas dançavam. Outras bebiam. Nunca tinha visto um lugar assim. Segui Arlete pelos corredores. Ela não foi para o salão principal. Subimos uma escada. Depois outra. Chegamos ao último andar. Ali o ambiente era completamente diferente. Silencioso. Seguranças armados guardavam uma porta enorme. Meu coração acelerou. — O gerente fica aqui? Perguntei. Arlete apenas respondeu: — Sim. Um dos homens abriu a porta. Ela segurou meu braço. — Entre. Respirei fundo. Entrei. A sala era ampla. Luxuosa. Uma mesa enorme ocupava o centro. Atrás dela… Um homem. Ele estava sentado. Usava boné preto. Camiseta escura. Os braços fortes eram cobertos por tatuagens. Sua pele era morena. Os ombros largos. O olhar… Nunca esquecerei aquele olhar. Escuro. Frio. Intenso. Ele levantou lentamente os olhos dos documentos que analisava. Nossos olhares se encontraram. Pela primeira vez. Senti um arrepio percorrer meu corpo inteiro. Não consegui desviar. Ele também não. Durante alguns segundos… Parecia que o restante da sala havia desaparecido. Não havia música. Não havia pessoas. Não havia som algum. Só aquele homem. E seus olhos. Foi então que compreendi. Ele não era o gerente da boate. Havia alguma coisa nele. Algo que impunha respeito. Algo que fazia até os seguranças permanecerem completamente imóveis. Meu coração acelerava cada vez mais. Sem saber por quê. Ele continuou me observando. Sem dizer absolutamente nada. Até que, finalmente… Sua voz grave rompeu o silêncio. Curta. Firme. Sem alterar o tom. — Saiam todos.
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