Ele pensava muito nisso, e já chegara a decorar a sequência daqueles maravilhosos acontecimentos e daquelas falas tão macias ao ouvido de Will, tão sensuais, de tom tão pecaminoso e politicamente incorreto, e por isso excitantes, que sua imaginação lhe recontava; aquele perigo todo da vida que se manifesta na gente através do medo; e o medo, através da sexualidade. Era ali, bem ali mesmo, que Will se via, naquelas deturpações brumosas de uma quimera que provavelmente nunca seria concretizada.
Nelas, Darian viria até ele com um sorriso manhoso de manhã de sábado, aninhado em suas pernas, peito e ombros, tentando alcançar o beijo de Will com um biquinho.
— É só você me pedir, bebê, que eu te dou o que você quiser — Will diria, inclinando o pescoço para o lado, retribuindo; tomando Darian pelos lábios macios e salgados de desejo.
Entre o beijo molhado de bom-dia, Darian iria sorrir, porque ele não conseguia se conter.
— O que eu quiser, é, amor? — seu tom divertido pincelaria também uma malícia particular. — Você vai me dar o que eu quiser?
Will, então, pensaria melhor nas segundas intenções, nos desdobramentos daquele assunto que deveria ser meigo — não mais, graças a Darian. O bom semblante que ele carregava desde cedo acabaria por se desfazer naquela mesma hora.
— Não. Nem se pense nisso. — Tarde demais. Ele já teria pensado, e a ideia, cada vez mais, parecia tentadora.
— E por que não? — Darian questionaria, fazendo biquinho.
— Porque não, Darian. — E fim de papo.
De novo, Darian retornaria com um biquinho manhoso.
— Chato. Tóxico. Você é um namorado tóxico, sabia?
Will provavelmente iria sorrir nesse momento; recobrando o bom-humor de antes.
— Quer dizer que eu sou tóxico?
— Sim.
— Um namorado tóxico, é? — repetiria Will
— Sim.
— Que coisa.
— É. Por não querer dar essa bundinha gostosa pra mim. Pro seu namorado.
— Como você é baixo, Darian — Will diria, mais rápido do que poderia conter. — Até o que você fala. É como uma v***a suja falando.
— Fala isso de novo — diria Darian, ameaçador. Seus olhos, sedentos e de repente despertos, brilhariam ao ouvir isso. Ele montaria no colo de Will, uma perna sua a cada lado do corpo dele; os braços usando Will de apoio. E Will adoraria.
— Você — repetiria Will, puxando-o pelo queixo. Dando-lhe um selinho de ameaça. — É. Uma. v***a. Suja. Minha v********a suja.
E o que aconteceria dali em diante, entre os beijos, os gemidos, as respirações ofegantes e juras de amor despretensiosamente pretensiosas… bem, prosseguiria, provavelmente, apenas nos sonhos de Will.
No fim das contas, Darian o levou até o quarto dele. Antes de Will entrar, porém, ficou esperando do lado de fora, enquanto Darian "arrumava as coisas, porque estão meio bagunçadas, espera aí". Quando entrou, Will percebeu que era um quarto muito perfumado, quase totalmente silencioso e, além disso, (o melhor de tudo) não havia uma massaroca de gente ali dentro (não havia Deans e Elisas e Eltons); só eles dois, e muito bem, por sinal, obrigado. Lá dentro, um clima de “estou com o garoto mais lindo da escola e também dono da festa em um cômodo fechado, c*****o c*****o c*****o” a todo momento acariciava Will pela nuca, lembrando-o de se sentir à desconfortável, porque era o Darian; mas também nem tanto, justamente por ser o Darian, quem por tanto tempo ele estava apaixonado (nem tão) secretamente. E Will desconfiava que agora o amava, na verdade, mas também conseguia compreender que, se estivesse inspirado, Darian seria muito bem o tipo de pessoa que o atrairia para um local reservado para fazer algum tipo de s*******m com ele: filmagens com Will nu, fazendo-lhe juras de amor, ou quem sabe um balde de sangue de porco caindo de um balde, em cima da porta, para quando Will passasse, estilo “Carrie, A Estranha”. E por que não? Quem lhe garantia que não? Mesmo assim, era desse jeito que Will idealizava: afinal, estes eram os perigos da vida que, na verdade, só serviam para deixá-lo com ainda mais vontade de arriscar; com ainda mais desejo, ainda mais excitação, por saber que algo de errado, de muito errado, pode acontecer.
— Relaxa aí — Darian disse, fazendo como ele mesmo sugeriu, espaçando-se na cama. — Vi que estava prestando bastante atenção no jogo, lá na cozinha — comentou ele, dissimulado como Will não sabia que Darian podia ser. Ao menos, não com tanta facilidade, tão rápido.
— Não muito — Will tentou mentir. Por educação. E por educação permaneceu de pé, ao lado da porta; o que acabou irritando Darian um pouco.
— E gostou do que viu?
— Não muito — repetiu.
— E por que não?
— Porque aquele garoto, o Elton, o seu não namorado, estava lá.
Darian fez uma careta para o termo “namorado”, ainda que precedido pelo “não”. Isso ainda o incomodava. Deixou passar, porém. Will percebeu.
— E se ele não estivesse? — quis saber Darian. — Gostaria de estar no lugar dele?
Silêncio. Will, sabiamente, em silêncio. Ele vasculhou, a passos lentos, o caminho até a cama, e, lá chegando, sentou-se a duas chegadas-pra-lá de Darian.
Então, Darian deu uma. Uma chegada pra lá. Mais próximos.
— Você não… me respondeu.
— Não sei o que responder.
— Pode falar o que quiser.
— O que eu quiser?
— O que quiser — confirmou Darian.
— Pretende me dar minhas chaves e meu celular de volta, ou naah?
— Já mandei relaxar.
Mandei.
Sim. Will sabia: aquela havia sido a coisa mais i****a que ele poderia ter dito. Mas ele não tinha experiências com essa parte — flertes e afins. Repetindo: Joana não estava ali para isso, para orientá-lo. No lugar, a vagabunda estava em casa, estudando para ter um futuro próspero e uma vida profissional satisfatória. A juventude não é mais como antes mesmo.
Surpreendentemente, Darian riu. Ele poderia ter achado i****a e feito uma cara de desprezo, como qualquer pessoa normal faria, mas, que coisa, ele realmente havia achado aquela idiotice algo digno de divertimento. Um divertimento sincero, é preciso acrescentar. Ele achou Will engraçado, no fim das contas. E fofo. E umas outras coisas mais; coisas que só milagres seriam capazes de realizar.
— Eu te vi lá na cozinha. Não só no body shot, quero dizer. Mas depois, com o Dean.
— Não é o que você está pensando — respondeu Will. Que clichê.
Mas, surpreendentemente de novo, Darian não pareceu ligar muito para a resposta. Na verdade, achou graça, mais uma vez. Ou Will era um completo i*****l, ou era um cara engraçado pra c*****o.
— É claro que não é o que eu estou pensando — completou Darian, rindo como se aquela conclusão fosse absolutamente óbvia. Então Darian prosseguiu com o assunto: — E por que o Dean te convidou?
— Não era para ter convidado?
— Não foi o que eu disse.
Isso. Continue. Respostas rápidas, embora não tão sensíveis, são melhores do que ficar gaguejando palavras soltas e desconexas. Você já chegou bastante longe, Will — nesse exato momento, você está com Darian no quarto dele —, então não pise na bola; não estrague tudo, p***a. E trate de demonstrar a segurança que você não tem, quando está perto dele.
— Também não sei por quê — confessou Will, encarando a penumbra que surgia da janela do quarto. — Não sei.
— Mas eu sei. — Darian riu. Era mesmo engraçado, vai. — Acho que ele te curtiu. O Dean. Vem falando de você faz um tempinho. Comentando vez aqui, vez acolá… — Darian dedilhou sobre a coxa de Will. — Acho que ele te acha fofo. Acho até que ele te chuparia, se você deixasse. — Darian enfim alcançou a questão: — Deixaria?
— Não.
— Sei.
— E você… quer ficar comigo mesmo sabendo que seu amigo talvez goste de mim? — Essa era uma suposição perigosa, digna de um fora dos grandes: supor que Darian o queria desse jeito. Até onde compreendia, Darian só o atraíra até ali para jogar seus pertences na privada enquanto Will assistia.
— Não me leve a m*l. Eu amo o Dean — falou Darian —, mas o problema dele é que ele se magoa fácil demais. Dean sempre quis dar pra mim. Ainda deve querer, só que eu já falei que não vamos passar de amigos, e eu não curto amizades coloridas, então... É, eu amo ele — repetiu —, só que ele é meio chatinho às vezes com essas coisas. Tem que saber lidar.
— E ficaria comigo, talvez, só porque o seu amigo também quer?
— Isso só torna tudo mais excitante, você não acha? — Darian sorriu, raspando os lábios nas mechas morenas de Will. O arfar da sua respiração arrepiando-o. A um toque, um beijo de distância. — Por você, algum problema, Will?
Você. Você é o meu problema insolucionável, Darian. Você é lindo e eu acho que te amo mais a cada maldito segundo que passa.
— Nenhum. Darian.
— Isso é muito bom. Espere aqui. — Por mais uma vez, Darian estava mandando.
Então ele se levantou e saiu do quarto.
Sozinho, isso deu tempo para Will, só agora, reparar nos quadros na parede. Em um deles, Darian sorria ao lado dos (que Will supôs ser) seus pais — embora a moça de cabelo rosa mais parecesse uma irmã mais velha; em outro, Darian estava sem camisa, sentado numa cadeira reclinável, posando artisticamente para o que parecia ser um enEltono fotográfico inteiro: tinha uma cerejinha com chantili no seu umbigo, suas bochechas estavam marcadas com três risquinhos com calda de chocolate de cada lado, fazendo Darian ter um aspecto de gatinho; e, por fim, trilhas de chocolate derretido escorriam pelo seu torso, contrastando com a sua pele e contornando indeslindavelmente os contornos e músculos do seu corpo. E por último, ao lado dessa fotografia, Will viu uma pintura de Frida Khalo do qual ele havia esquecido o nome.
Colado à porta, como Will também só havia percebido agora, um espelho. Ele foi até lá e ficou se encarando, numa espécie de autoexame de cima a baixo, e rápido. Conferiu os cabelos — se estavam desgrenhados, e, se sim, de um jeito bonitinho ou de um jeito porco —, verificou se tinha algo nos dentes e se possuía algum bafo que não fosse alcoólico — bafo de bebida, naquele contexto, lhe parecia aceitável —, e, abaixando vez ou outra a camisa para examinar o pescoço e omoplatas, se assegurou de que Dean não lhe havia deixado nenhum chupão de presente.
E não importava o que aconteceria ali, naquela noite: qualquer coisa, qualquer coisa, já seria de muito bom proveito para Will, que até então só tinha planos de ficar se remoendo em casa, assistindo Sense8, com o porquê de seu tremendo i****a, você não foi falar com ele? Não se aproximou para sequer dar um oi?
Quando sentiu, de alguma forma, que Darian estava retornando, se afastou da porta e correu até a cama, remontando a posição em que estava antes.
De fato, ele tinha uma ótima intuição, porque Darian adentrou novamente o quarto apenas alguns segundos depois. Ele deixou as coisas que havia trazido sob os braços em cima de uma mesinha ali ao lado da cama, voltou à porta do quarto e a trancou. A sós, mais do que nunca dessa vez.
Das coisas que Darian trouxe, Will conseguiu identificar uma garrafa de tequila quase cheia — provavelmente afanada da sua própria geladeira, sem que ninguém percebesse (adolescentes são cães farejadores territorialistas quando se trata de bebida) —, algumas lascas de limão e uma tampinha de garrafa com o que Will supôs ser sal. A única coisa que não descobriu de cara o que era foi um tubinho pequeno e envolto numa espécie de capinha de plástico, que não dava para ler muito bem o rótulo, por causa da penumbra.
— Acabou que — principiou Darian; um sorriso perverso tingindo o seu rosto — nem deu tempo de você participar do jogo. E isso eu não aceito, porque você é meu convidado agora.