Como um tabuleiro

396 Words
A porta da biblioteca fechou-se com um estalo seco. Dom caminhava à frente, passos duros, mãos cerradas. Eleonora o seguia com calma absoluta, quase desafiadora, como se a ira dele não tivesse peso algum sobre os ombros que agora sustentavam o nome da família mais temida do país. Subiram as escadas da mansão em silêncio, mas o ar parecia vibrar de tensão. Quando entraram no quarto do casal, ele se virou bruscamente. — Você enlouqueceu? Montar um circo com os funcionários? Mudar regras sem me consultar? Tomar decisões como se essa casa fosse sua? Ela fechou a porta com calma. Não gritou. Não perdeu a compostura. Apenas cruzou os braços, com um meio sorriso nos lábios. — O que foi que você esperava, Dom? Que eu me escondesse no quarto feito uma boneca de porcelana, calada e grata? Me desculpa… acho que pegou a mulher errada no contrato. Ele avançou um passo, o maxilar marcado de tensão. — Você não é a dona dessa casa. — Sou sua esposa. Até no papel. E tenho tanto direito quanto você de organizar a casa onde eu vou viver. Dom bufou, virando de costas. Passou as mãos nos cabelos como se precisasse se controlar para não explodir ainda mais. Eleonora se aproximou então, tirando o celular do bolso. — Ah, e já ia me esquecendo… — disse, com a mesma tranquilidade provocadora — amanhã mesmo vou agendar uma consulta com um ginecologista. Quero resolver logo essa pendência da consumação. Eliminar qualquer brecha contratual. Ele se virou lentamente. — Você está falando sério? — Completamente. — respondeu, olhando direto em seus olhos. — É claro que será com a minha vontade, como manda o contrato. Mas pretendo estar pronta… quando eu decidir. E quero que esteja claro que não preciso da sua aprovação para isso. Dom não respondeu de imediato. Apenas a observava, como se tentasse decifrar aquela nova mulher que surgia diante dele. Já não era a garota vendida por um contrato. Era uma força que crescia, fria, elegante, provocadora. Ela finalizou: — Se quiser manter sua postura calculista, mantenha. Mas eu não vim pra ser mais uma peça no seu jogo. Eu vim pra virar o tabuleiro. Virou-se e entrou no closet, deixando Dom sozinho, dividido entre o ódio, o desejo… e uma inquietação que ele não sabia nomear. Ela o estava vencendo. E ele estava… gostando disso.
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