A manhã estava nublada, como se o céu compartilhasse do conflito dentro de Eleonora.
Ela vestiu-se com simplicidade — calça jeans escura, blusa de linho bege, o cabelo preso em um coque baixo. Pediu ao motorista da mansão para levá-la à clínica. O carro novo ainda não estava comprado, e ela sabia que, se esperasse, perderia o impulso. Não podia. Precisava ir agora.
Dom não disse nada ao vê-la sair. Apenas observou da varanda, os olhos estreitos, o maxilar tenso.
Ela fingiu que não viu.
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A clínica ginecológica era moderna, paredes claras, cheiro de desinfetante misturado com lavanda.
Eleonora sentou-se na poltrona da sala de consulta com as mãos entrelaçadas, o olhar fixo no vazio.
— Então… — disse a médica, depois de recolher as informações básicas. — Qual o motivo da sua consulta hoje?
— Quero fazer um procedimento definitivo. — respondeu Eleonora, direta. — Laqueadura. Quero garantir que nunca vou engravidar.
A médica a olhou com atenção, fechando a ficha no tablet.
— Você tem certeza disso? É muito nova, não tem filhos… Procedimentos definitivos são delicados emocionalmente, não apenas fisicamente.
— Tenho certeza. — retrucou sem hesitar. — Eu quero ter esse controle. Quero que meu corpo seja meu.
A médica respirou fundo, mantendo o tom profissional, mas gentil.
— Entendo. E você tem todo o direito de decidir. Mas o protocolo exige pelo menos uma avaliação com um profissional da psicologia e um tempo de reflexão. Além disso, vou ser honesta: é importante considerar se esse desejo vem da liberdade… ou de alguma forma de violência, mesmo que simbólica.
Eleonora sentiu as palavras entrarem como navalha. A vontade era gritar. Mas ela apenas engoliu em seco e assentiu.
— Eu só queria sair daqui com algo concreto. Uma data. Um passo.
— O passo foi dado, Eleonora. E é corajoso. Agora a gente só precisa seguir firme. Um passo por vez, mas com segurança.
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No carro, o silêncio era como vidro quebrado sob os pés.
Ela voltava com as mãos vazias e o peito cheio.
Chegou à mansão sem dizer palavra ao motorista. Subiu direto para o quarto e só tirou os sapatos quando trancou a porta.
Deitou-se na cama, encarando o teto. O nó na garganta pulsava com raiva, frustração e a sensação amarga de impotência.
Mas então… lembrou.
“Café da manhã com os funcionários.”
Ela havia prometido. Era o mínimo. E manter suas palavras seria um novo tipo de poder.
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Trocar de roupa foi automático: um vestido leve, cabelos soltos, perfume discreto. Quando desceu para a grande cozinha de serviço, todos os olhos se voltaram para ela.
— Bom dia! — disse com um sorriso ensaiado. — Desculpem a demora. Mas uma promessa é uma promessa, não é?
O cozinheiro-chefe rapidamente ajeitou mais um lugar à mesa comprida onde os funcionários tomavam o desjejum. Era estranho ver Eleonora ali, sem salto, sem pose. Mas ela os olhou com naturalidade.
— Espero que não se incomodem com minha presença. Só quero conhecer um pouco mais de vocês… e me alimentar direito. Tô cansada de café preto e tensão matinal.
Risadas tímidas ecoaram.
Ela sentou-se. Comeu. Ouviu. Riu. E voltou a respirar.
Pela primeira vez, desde que colocou os pés naquela mansão, Eleonora sentiu-se dona de si — mesmo sem ainda ter vencido.
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Mais tarde, Dom desceu e foi informado sobre o café com os funcionários. Ele não disse uma palavra.
Apenas subiu de volta, trancou-se no escritório… e bateu a porta com força.
Eleonora sorria por dentro.
Eleonora ainda estava sentada à mesa com os funcionários, rindo de uma história contada pelo jardineiro sobre um pavão que invadiu a estufa certa vez, quando uma mulher de cabelos castanhos, olhos âmbar e um sorriso discreto entrou pela porta dos fundos com uma bandeja de frutas frescas.
— Com licença — disse a mulher. Sua voz era serena, mas carregava algo diferente. Um magnetismo silencioso.
— Bela! — chamou uma das copeiras. — Achei que não vinha pro café hoje.
— Estava na despensa reorganizando as entregas. Resolvi trazer um pouco mais de fruta pra mesa.
Eleonora ergueu o rosto e seus olhos encontraram os de Bela.
Ali havia algo.
Algo escondido. Um reconhecimento silencioso.
Bela sorriu educadamente, inclinando a cabeça, e serviu as frutas como se fosse apenas mais uma manhã qualquer. Mas o silêncio que caiu sobre a mesa foi estranho — denso, como se todos segurassem a respiração.
— Muito obrigada, Bela, certo? — perguntou Eleonora, educadamente.
— Sim, senhora… perdão, Eleonora. — corrigiu-se com um leve rubor.
— Gosto que me chamem pelo nome. E obrigada por trazer fruta fresca. É a primeira coisa doce que vejo aqui que não vem com veneno embutido — disse com um sorriso irônico, mas cheio de charme.
Alguns riram. Bela apenas assentiu e saiu pela lateral, os passos quase inaudíveis.
Mas foi o suficiente.
Eleonora percebeu como o ambiente ficou estranho. Os olhares se desviaram. Sussurros abafados começaram.
— Quem é ela? — murmurou para a funcionária ao lado, baixinho.
A mulher hesitou. Depois sussurrou:
— Bela… trabalhou aqui há muito tempo. Saiu. E voltou recentemente. Ela… dizem que foi o primeiro amor do senhor Dom Carlo.
O garfo de Eleonora parou no ar.
— Primeiro… amor?
— Amor é uma palavra grande demais pra ele, né? — a funcionária tentou amenizar. — Mas é o que dizem.
Eleonora ficou em silêncio. Terminou seu café com tranquilidade e subiu calmamente para o quarto.
Mas por dentro…
Seu sangue fervia.
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Dom Carlo estava em seu escritório quando ela bateu à porta e entrou sem esperar resposta.
— Você colocou a sua ex no meio dos funcionários da casa? — disparou, sem rodeios.
Ele a olhou com frieza. Estava recostado na poltrona de couro, mangas arregaçadas, a expressão tensa.
— Bela está aqui porque é excelente no que faz. Foi contratada antes do nosso contrato. Não imaginei que precisaria pedir permissão pra manter pessoas competentes sob meu teto.
— Você não imagina muitas coisas, Dom. — rebateu. — Mas deixa eu te avisar logo: se essa história de primeiro amor atrapalhar minha sanidade ou meu reinado aqui dentro, eu mesma mando ela embora.
Ele sorriu de canto.
— Seu reinado?
— Sim. Até o fim desse contrato maldito, essa mansão é meu reino. E ninguém vai me minar, entendeu?
Dom se levantou devagar. Estava a poucos passos dela.
— Acha que pode bater de frente comigo, Eleonora?
Ela não recuou.
— Eu já estou fazendo isso.
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Dom não respondeu. A encarou por alguns segundos, como se estudasse suas intenções.
— Pode continuar sua reunião com o reino, Vossa Alteza. Só lembre-se de que, aqui dentro, nem todos estão do seu lado.
— Eu não preciso que todos estejam. Só preciso que você respeite o que assinou.
E a propósito… o ginecologista me recomendou esperar.
Mas essa espera não será eterna.
Ela virou as costas e saiu, o salto ecoando nos corredores como um hino de guerra.
Dom Carlo ficou parado no escritório, os olhos fixos na porta que ela acabara de fechar. O gosto da provocação dela ainda queimava em sua garganta.
“Mas essa espera não será eterna.”
Esperar o quê?
A frase martelava em sua cabeça. Havia algo que Eleonora não estava dizendo.
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Enquanto isso, no quarto, Eleonora abria o armário, puxando a mala que ainda nem havia esvaziado. Com movimentos calculados, separava algumas roupas neutras, sem chamar atenção. O suficiente para dois dias. O tempo exato que precisava.
No fundo da mala, ela escondeu a pasta com a papelada da consulta médica. Lá dentro estava a solicitação oficial do ginecologista para um encaminhamento a um procedimento definitivo de contracepção. A laqueadura.
Mas não era só isso.
Ela também tinha impresso o contrato de casamento. Grifado. Destacado. Cláusula por cláusula. Inclusive a da autonomia corporal e da não obrigatoriedade de consumação sem consentimento explícito e consciente.
Estava pronta para a guerra.
Mas não seria tola de travá-la de frente.
Ela sabia como Dom funcionava — frio, controlador, cercado de poder e aliados. Não bastava apenas atacar. Ela precisava se proteger primeiro.
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— Senhorita Eleonora — chamou uma voz baixinha na porta. Era Júlia, uma das camareiras mais novas. — Posso entrar?
— Claro, Ju. O que houve?
— Eu ouvi sobre seu desejo de comprar um carro… só queria dizer que meu tio trabalha com venda de veículos blindados. Se quiser, posso passar o contato.
Eleonora sorriu. Aquilo era ouro.
— Passe sim, Júlia. Você acaba de me ajudar muito.
Ela anotou o número, agradeceu, e assim que ficou sozinha novamente, ligou do próprio celular.
— Alô?
— Olá, sou Eleonora Castellani. Disseram que o senhor vende carros blindados discretamente.
— Sim, senhora. Posso fazer entrega sem registro. Dinheiro vivo?
— Transferência internacional. Em nome de outra pessoa. Nada deve ligar a mim. Quero um carro pequeno, escuro e com vidro espelhado.
— Entendido. Entrego em dois dias.
Ela encerrou a ligação com um sorriso quase perigoso.
Faltava pouco. Muito pouco.
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No corredor, Dom subia as escadas em silêncio, quando encontrou Bela descendo.
— Ela já sabe quem eu sou, não é?
— Eleonora é inteligente — respondeu Dom, sem olhá-la. — Vai juntar as peças. Mas não vai te demitir.
— Você não está preocupado?
— Com o quê?
Bela sorriu de leve.
— Com o que ela é capaz de fazer… quando ninguém está olhando?
Dom não respondeu. Apenas continuou subindo.
Mas seu peito apertou.
Ele sabia.
Eleonora estava escondendo algo.
E aquilo… podia muito bem destruir tudo.