Segredos

1186 Words
Dom Carlo fechou a porta do escritório atrás de Bela, o rosto fechado e os olhos carregados de preocupação. Ela estava de volta à mansão, com uma presença silenciosa que trazia um segredo que há anos pairava sobre sua vida. — Eu não entendo — disse Bela, a voz cheia de emoção contida — Como vou poder ver nosso filho se ele vive com seus pais nos Estados Unidos? E no papel… ele nem é mais meu filho, é seu irmão. Criado como filho deles, para esconder tudo. Ela fez uma pausa, o olhar carregado de saudade e frustração. — Eu aceitei esse acordo porque queria garantir que ele tivesse todas as oportunidades que eu, como empregada, jamais poderia oferecer. Mas agora sinto falta dele, e estou cobrando de você a promessa que me fez: de me deixar vê-lo. Dom respirou fundo, olhando para ela com culpa e determinação. Esse era o escândalo que ele mais temia — um filho fora do casamento, criado longe, e com sua verdadeira identidade escondida. Num país extremamente conservador, uma história dessas destruiria sua carreira política antes mesmo de começar. Por isso o casamento foi apressado, para abafar esse segredo e impedir que ele abalasse a eleição que Dom precisava ganhar a qualquer custo. Ninguém aceitaria um presidente envolvido numa história como essa. — Eu vou cumprir minha parte — afirmou Dom com firmeza — Mas isso tem que continuar entre nós. Bela assentiu, os olhos marejados. O peso do segredo era maior do que qualquer um deles imaginava, e a sombra do passado ameaçava engolir o futuro de Dom. ⸻ Enquanto isso, nas sombras da mansão, Eleonora caminhava sem saber que fazia parte de um jogo muito maior. Bela saiu do escritório com os olhos marejados, tentando conter as lágrimas. Cada passo era uma mistura de arrependimento e saudade. Ela nunca quis uma vida escondida. Nunca quis entregar o próprio filho. Mas também sabia que ele, crescendo com os pais de Dom, teria acesso a tudo o que ela jamais poderia oferecer: segurança, oportunidades, um futuro grandioso. Ela desapareceu pelos corredores da mansão como um fantasma, levando com ela um passado que Dom tentava enterrar — e que agora ameaçava ressurgir com força. Assim que a porta se fechou, Dom foi até a gaveta trancada da estante. Tirou uma pequena foto amarelada pelas bordas. Nela, um menino de olhos escuros e sorriso largo corria por um jardim florido, sendo empurrado no balanço pelo avô. Lorenzo. Seu filho. Oficialmente, seu irmão. Dom sentiu um aperto no peito. Mesmo a quilômetros de distância, o amor por aquele garoto era insuportavelmente real. Pegou o celular e discou. A voz suave da mãe atendeu do outro lado da linha, direto de Boston. — Mamma? — Carlo! Que bom ouvir sua voz, figlio mio. — Estou com saudade… do Lorenzo. De todos vocês. — a voz dele falhou um pouco, e ele respirou fundo antes de continuar — Eu sei que a viagem pro casamento não deu certo por causa da crise de bronquite dele. Mas… as férias de verão começam em duas semanas. Queria saber se você conseguiria vir com ele pra cá. Seria importante vocês conhecerem Eleonora. Do outro lado da linha, houve um breve silêncio. Então a mãe respondeu com delicadeza: — Seria uma alegria para ele. E para mim também. Ele pergunta por você todos os dias. Mas… você tem certeza, Carlo? Não é arriscado? — Se a imprensa descobrir, tudo desaba. Mas se ninguém souber quem ele é… vão pensar que é apenas meu irmão mais novo visitando o casal recém-casado. — Dom fechou os olhos, como se estivesse tentando convencer a si mesmo também — Quero ver ele. Nem que seja por poucos dias. Você tem certeza disso, Carlo? — a voz da mãe soou mais baixa, mais hesitante agora. Do outro lado da linha, nos Estados Unidos, ela segurava o telefone com mãos trêmulas. — Eu sou sua mãe, e também sou mãe dele. E… você sabe que a presença de Bela aí me preocupa. Dom fechou os olhos e deixou o corpo cair na poltrona de couro do escritório. Aquela conversa era mais pesada do que ele esperava. — Mamma… Ela aceitou esse acordo há anos. Você prometeu que manteria ela longe da imprensa. Que Lorenzo cresceria como seu filho. E foi o que aconteceu. — Eu sei. Mas você levou ela de volta pra sua casa, Carlo. Você trouxe o estopim do escândalo pro coração do seu novo casamento, no momento mais delicado da sua carreira. — A mãe agora falava com firmeza, mas seu tom ainda carregava o medo de ver tudo ruir. Silêncio. — Você acha que ela contaria a verdade? — ele perguntou, mais para si mesmo do que para ela. — Eu não sei o que uma mãe desesperada pode fazer, Carlo. Só sei que Bela está aí. Com o coração partido. Com saudade do próprio filho. E que o país que quer te eleger não aceitaria um homem que engravidou a camareira e deu o filho para os pais criarem como irmão mais novo. Eles crucificariam você, Dom. E eu não quero ver meu filho crucificado. Dom engoliu em seco. Sentia-se como um soldado cercado de todos os lados, com a armadura rachada. Ele nunca planejou amar Lorenzo. Nem sentir essa culpa ardente por tudo o que Bela sacrificou. Mas amava. E agora tudo estava colapsando. — Eu só quero ver ele… antes que tudo exploda. — Então prometa que será discreto. Que controlará essa situação. — Eu prometo. Do outro lado da linha, a mãe de Dom apoiou a cabeça na parede da cozinha. Ela era uma mulher orgulhosa, determinada… mas também mãe. E Bela, apesar de ter sido uma camareira, tinha sido também como uma filha pra ela, antes de tudo aquilo acontecer. Era por isso que agora, mesmo a quilômetros de distância, o medo a corroía por dentro. Afinal, segredos são como feridas m*l fechadas. Um dia, sempre voltam a sangrar. Dom permaneceu imóvel na poltrona após encerrar a ligação com a mãe. O telefone ainda em sua mão parecia pesar uma tonelada, como se concentrasse nele todos os segredos que jamais ousou dividir com ninguém. O retrato de Lorenzo continuava sobre a mesa. A imagem sorridente de um menino de olhos escuros e expressão curiosa, tão parecido com ele, tão inocente diante da teia de mentiras em que nasceu. Aquela criança era sangue do seu sangue. E, mesmo que o mundo jamais pudesse saber, Dom sentia dentro de si a urgência de protegê-lo… e, ao mesmo tempo, o medo de tudo ruir. Do outro lado da porta, a mansão respirava em silêncio. Eleonora já devia ter voltado da consulta. Ela não sabia nada. Ainda. Mas Dom conhecia o olhar dela. Esperto, atento, impossível de enganar por muito tempo. Bela andava pela casa como uma bomba-relógio. Eleonora era o fósforo prestes a acender. E ele? Era o combustível. Encostou a cabeça para trás, fechou os olhos e inspirou fundo. A calmaria antes da tempestade nunca fora tão sufocante. E talvez, dessa vez, ele não conseguisse escapar ileso.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD