Eleonora caminhava pelo saguão do hotel com o olhar decidido. O vestido claro moldava seu corpo com elegância, e sua expressão era de uma mulher apaixonada — mas o que queimava por dentro era vingança.
Ela se aproximou da recepcionista com um sorriso encantador.
— Olá! Eu sou Eleonora Carlo, esposa do Dom Carlo. — disse com a doçura de uma recém-casada encantada. — Eu queria muito agradecer pessoalmente a camareira que cuidou da nossa noite de núpcias. Ela foi atenciosa, fez uma decoração maravilhosa… pétalas, velas… uma verdadeira obra de arte. Quero dar uma gorjeta pessoalmente.
A atendente sorriu.
— Que bom saber disso! O nome dela é Camille. Está no terceiro andar, terminando o turno. Posso chamá-la?
— Por favor — Eleonora respondeu, mantendo o ar suave, quase ingênuo.
Minutos depois, Camille apareceu no hall de serviço, ajeitando os cabelos sob o coque. Seus olhos se arregalaram ao ver Eleonora.
— Senhora Carlo?
— Não precisa ficar nervosa, Camille — ela disse com um sorriso sereno. — Só queria conversar um pouco. A decoração ficou… inesquecível.
A camareira pareceu confusa.
— Eu só… segui ordens. Não entendo…
Antes que pudesse continuar, a porta do hall se abriu bruscamente.
— Isso já foi longe demais. — Dom Carlo surgiu com a gravata afrouxada, o paletó aberto e o olhar escuro como uma tempestade prestes a explodir.
Camille arregalou os olhos e se afastou imediatamente.
— Pode ir, Camille. — ele disse, com voz baixa e fria.
A moça saiu apressada, quase tropeçando nos próprios pés.
Eleonora cruzou os braços.
— Medo de deixar ela falar a verdade?
Dom a ignorou. Tirou um envelope de couro do bolso e estendeu a ela.
— Aqui. Uma cópia do contrato. Item 23. Parágrafo único.
Eleonora puxou o papel e leu em silêncio.
“A presente união será considerada legal e vinculante somente após a consumação voluntária e consensual da relação conjugal por ambas as partes.”
Eleonora ergueu os olhos.
— Voluntária e consensual.
— Exato. — Dom disse, se aproximando. — Então veja bem, Eleonora: enquanto você não me quiser, esse casamento… esse contrato, essa dívida, sua irmã, seu plano de usar a multa… tudo isso é fumaça.
Ela sorriu de canto, com um olhar afiado como navalha.
— Mas se você me obrigar, o contrato é anulado e você responde judicialmente. Cláusula 27. Letra D.
Dom parou, e um sorrisinho surgiu nos lábios dele.
— É… você realmente leu tudo.
— Diferente de você, Dom, eu vim preparada.
Eles ficaram frente a frente, o ar entre eles carregado.
— Então, resumindo… — ela continuou — você não pode me forçar, mas também não pode sair disso enquanto eu não quiser você. E eu não quero.
Ele se aproximou mais, os olhos mergulhados nos dela.
— Ainda.
Eleonora segurou o olhar, desafiadora.
— Você vai passar muito tempo esperando.
Dom sorriu devagar.
— Eu sou um homem paciente, princesa.
Ela girou nos calcanhares e foi embora, deixando o perfume doce no ar.
Mas por dentro… ela estava tremendo.
O jogo estava empatado.
Por enquanto.
Eleonora entrou no elevador com os olhos ardendo de raiva. Apertou o botão do último andar com força, sentindo o sangue ferver sob a pele.
Como ela podia ter esquecido essa maldita cláusula?
Aquilo não fazia sentido. Ela havia lido e relido cada linha do contrato. Cada vírgula. Cada armadilha jurídica. Mas em algum momento — entre o desespero pela dívida da família e o medo pela irmã doente — ela deixou passar.
Um erro imperdoável.
E Dom sabia. Tinha deixado tudo correr… propositalmente. Como um caçador esperando que a presa tropeçasse sozinha.
Já no quarto, ela arrancou os saltos, jogou a bolsa no sofá e andou de um lado pro outro como uma leoa presa em jaula.
— Isso é um jogo, Eleonora. — sussurrou pra si mesma. — Mas agora você sabe a peça que ele quer.
Se o contrato só era válido após a consumação… por que Dom ainda não forçou a situação? Ele era um homem poderoso, c***l, acostumado a tomar o que queria.
Então por que a deixava escapar?
Ela se jogou na poltrona perto da janela, tentando organizar os pensamentos. Era tudo sobre poder. Controle.
Mas… e se fosse mais do que isso?
Um arrepio percorreu sua espinha.
Será que ele queria herdeiros?
A ideia entrou na mente como uma faca afiada. Talvez o casamento contratual fosse apenas uma fachada conveniente. Talvez ele precisasse de uma esposa pública… e de um filho legítimo.
Um herdeiro.
Ela se lembrou da fala dele na primeira noite:
“Você precisa aprender o que significa poder.”
Será que o verdadeiro poder que ele queria estava no sangue dela?
Ela mordeu o lábio inferior com força. Sentia-se violada mesmo sem ter sido tocada. Era como se estivesse sendo cultivada. Preparada. Como uma peça rara num tabuleiro perigoso.
Mas ela não era um peão.
Eleonora era rainha. E ele ia pagar por tê-la subestimado.
Ela se levantou e foi até o closet, abrindo o armário com força. Pegou a mala, jogou em cima da cama. Se era uma peça nesse jogo, ela escolheria suas jogadas a partir de agora. Dom Carlo não ia controlar seu corpo. Nem seu destino.
Mas antes de ir embora, ela precisava de respostas.
E se Dom queria tanto aquela consumação…
Ela descobriria o que, exatamente, ele pretendia colher dela.
Nem que fosse o último movimento que fizesse como esposa.
O quarto estava em silêncio. O eco da raiva ainda vibrava nas paredes, mas agora dava espaço à decepção. Eleonora sentou na cama, sentindo um nó apertar sua garganta. Ela não era de chorar. Não mais. Mas naquele instante, tudo parecia pesado demais.
Pegou o celular na mesinha de cabeceira, deslizou o dedo até o contato da mãe e ligou.
A chamada foi atendida rapidamente.
— Filha? Está tudo bem?
A voz suave e preocupada da mãe fez os olhos de Eleonora se encherem.
Ela não respondeu de imediato. Respirou fundo, tentando manter o controle.
— Mãe… lembra quando eu disse que Dom havia quase me traído e que eu ia usar isso pra sair do contrato?
— Lembro sim. Você estava decidida, minha filha. O que houve?
— A alegria de me sentir livre durou menos de quarenta minutos. — ela riu, amarga. — Ele jogou na minha cara uma cláusula do contrato. Aquela que diz que o casamento só é válido depois da… consumação.
O silêncio do outro lado foi dolorido.
— Mas… você não…?
— Claro que não. — cortou. — E o pior é que também tem outra cláusula: ele só pode se deitar comigo se eu quiser. Parece até que o contrato me protege, mas ao mesmo tempo me prende. Porque enquanto eu não quiser ele, nada tem validade. Nem o contrato. Nem as obrigações dele. Nem o dinheiro.
A mãe suspirou com o coração apertado.
— E o que você vai fazer agora?
— Descobrir o que ele realmente quer. Porque isso não é só sobre imagem. Não é só fachada. Ele poderia ter consumado a qualquer momento… mas está esperando. Esperando que eu deseje. Que eu me entregue.
— Você acha que é… por causa de filhos?
Eleonora olhou para o nada. Sua expressão estava fria agora.
— Talvez. E se for… isso explica tudo. Uma esposa perfeita. Um herdeiro legítimo. Um império limpo e de aparência estável.
A mãe tentou falar, mas a filha continuou:
— Mãe, se ele acha que eu vou engravidar e selar essa prisão com um bebê, ele vai se decepcionar. Eu posso ter sido vendida. Mas não sou estúpida. E agora eu sei que estou no centro de algo muito maior.
Silêncio. Depois, a mãe respondeu em um sussurro trêmulo:
— Minha filha… eu sinto muito por tudo isso. Eu fiz o que fiz pelo seu pai. Pela sua irmã… Pela gente.
— Eu sei, mãe. Eu não te culpo. Mas agora sou eu contra ele. E eu vou vencer.
Ela desligou.
A noite caiu sobre Paris como um véu silencioso.
Eleonora se deitou, olhos fixos no teto. O mundo inteiro podia achar que ela era só mais uma esposa troféu…
Mas Dom Carlo ia descobrir, cedo ou tarde, que vendeu a alma ao assinar aquele contrato.
E ela ainda tinha muitas cartas escondidas.