A cabeça de Eleonora latejava, o estômago embrulhado, a memória… um borrão.
Ela abriu a porta devagar, ainda tonta, sentindo o gosto de um sonho confuso na boca.
Dom estava parado no corredor, como uma sombra esperando para cair sobre ela.
— A gente precisa conversar. Agora. — a voz dele era seca, dura como aço.
Ela franziu o cenho.
— Sobre o quê?
— Vai se vestir. Não vou falar isso no corredor.
Eleonora não gostava do tom, mas recuou. Vestiu o robe que estava jogado sobre a poltrona e o seguiu, sem saber o que a esperava.
Entraram no quarto de Dom. Assim que ele fechou a porta, virou-se para ela, os olhos como tempestade.
— Você se lembra de alguma coisa da noite passada?
Ela hesitou.
— Não. Só de flashes. Por quê?
Ele se aproximou com passos lentos, perigosos.
— Porque você me provocou até o inferno. Subiu em mim. Me beijou. Me deixou duro e pronto pra f***r você como nunca ninguém fez. Depois desmaiou.
Eleonora congelou. Um arrepio de raiva correu por sua espinha.
— E o que você quer com isso? Me culpar?
— Eu quase transei com outra mulher por sua causa! — ele cuspiu as palavras, com os olhos ardendo. — Eu a levei até a porta. Quase rasguei a roupa dela.
O mundo parou.
Eleonora sentiu o chão sumir sob os pés. Um calor amargo subiu pelo peito, direto para os olhos. Ela respirou fundo. Devagar. E então:
— Seu desgraçado.
A mão dela voou no rosto dele. O estalo foi seco. Forte.
Dom não se moveu.
— Isso é uma traição. — ela cuspiu, os olhos faiscando. — Você acha que o contrato só serve pra me prender? Porque nele estava bem claro: nada de humilhações. E ser traída — ou quase — na noite de núpcias é a pior de todas!
Eleonora deu outro t**a. E outro. Os olhos marejados, a voz trêmula de ódio e decepção.
— Eu fui vendida. Eu aceitei isso pra salvar minha família. Eu sou virgem, Dom! Você tem noção? Eu me guardei… e você… Você ia me trair com uma camareira qualquer?
Ele segurou o pulso dela no quarto t**a.
— Chega.
Ela tentou se soltar, ofegante, furiosa. As lágrimas já marcavam o rosto.
Ele a puxou para perto, os olhos duros demais, intensos demais.
Ela lutou, bateu no peito dele, tentou empurrar. Mas ele segurou firme.
E então…
Beijou.
Não como um dono. Não como um animal.
Mas como um homem quebrado tentando dizer algo que não sabia falar.
O beijo não era de fogo — era de silêncio.
De arrependimento.
De um pedido mudo de perdão.
Só que desta vez, ela não correspondeu.
Eleonora cerrou os dentes, mordeu o lábio inferior dele com força, arrancando um gemido de dor. Ele recuou com a mão no rosto, surpreso, sangue escorrendo do canto da boca.
— Você acha que pode me calar com um beijo, Dom Carlo? — ela cuspiu as palavras, o peito arfando. — Você me traiu. Pensou em outra. Tocou outra. Isso já é quebra de contrato.
Ele a encarava, entre chocado e e******o com a força dela.
— O contrato proíbe humilhações públicas e privadas. E traição, mesmo que só em intenção, é uma humilhação.
Ela passou por ele, caminhando com firmeza até a porta.
— Quero que meu advogado entre em contato com o seu. Quero a rescisão contratual formalizada. E quero a multa paga integralmente. — virou-se, os olhos brilhando de raiva e dignidade. — Com juros, Dom.
Ela saiu, batendo a porta atrás de si, deixando Dom sozinho com a boca ferida, o orgulho despedaçado… e o coração em combustão.
Ele nunca quis tanto uma mulher.
E agora estava prestes a perdê-la.
A porta se fechou atrás de Eleonora com um estrondo que ecoou pelo corredor do hotel de luxo. Os olhos dela ardiam, mas ela se recusava a chorar.
Não mais por Dom.
Não depois da traição que quase foi.
Ela apertou o botão do elevador com firmeza, o coração batendo descompassado no peito.
Quando as portas se fecharam, ela sacou o celular e discou o número da mãe.
— Mãe? — a voz saiu firme, mas embargada. — Preciso te contar uma coisa.
Do outro lado da linha, a mãe pareceu prender o fôlego.
— Eleonora, aconteceu alguma coisa?
Ela respirou fundo.
— Dom tentou me trair. Com uma camareira. Quase conseguiu. E eu vou acabar com esse casamento agora. Pela cláusula de humilhação. E exigir a multa do contrato.
— Meu Deus…
— Mãe, isso não é tudo. — a voz dela agora tremia com algo diferente: propósito. — Essa multa vai dar pra pagar o tratamento todo da Sofia. Quimioterapia, os exames, tudo. Com sobra.
— Eleonora… — a mãe soluçou do outro lado, sem saber se pedia desculpas, se agradecia ou se implorava para ela pensar melhor.
— Só preciso encontrar a mulher. A camareira. Ela pode provar que ele realmente tentou. — Eleonora encarava seu reflexo no espelho do elevador, os olhos vermelhos, mas firmes. — Eu não vou sair disso de mãos vazias. Não depois de tudo que abri mão.
Silêncio.
Então, a mãe falou, com a voz embargada:
— Eu te amo, filha. E me orgulho de você. Pela mulher que você tá virando.
Eleonora sorriu, pequena e dolorosamente.
— Acha que Dom também vai se orgulhar quando eu fizer ele pagar até o último centavo?
A mãe riu baixinho.
— Acho que ele vai se arrepender do dia que te subestimou.
As portas do elevador se abriram. Eleonora desligou, respirou fundo e seguiu rumo ao saguão.
Ela não era mais só uma garota virgem sendo vendida por desespero.
Agora, era uma mulher ferida — e pronta pra lutar.