Visita

962 Words
Dom entrou em casa com os ombros pesados. O cheiro de lavanda e flor de laranjeira o envolveu assim que atravessou a porta da mansão — o mesmo perfume que ela sempre usava. Eleonora. — Dom! — a voz dela ecoou animada, vindo da escada. — Você demorou! Vai, vai! Os seus pais já estão a caminho. Vai tomar banho logo, você ainda tá com cheiro de rua. Ela desceu apressada, os cabelos presos em um coque elegante, o vestido longo colado ao corpo, realçando cada curva delicada. Os olhos castanhos brilharam ao vê-lo, como se não carregassem nenhuma suspeita, como se tudo entre eles fosse puro, leve, real. E aquilo o destruiu por dentro. Dom assentiu sem conseguir encará-la por muito tempo. Subiu as escadas sentindo as pernas pesarem como se fossem feitas de ferro. Cada degrau era uma cobrança silenciosa. Entrou no banheiro e ligou o chuveiro, sem sequer tirar a roupa. Precisava do som da água para não escutar sua própria consciência gritando. Quando finalmente tirou o terno, encarou o próprio reflexo no espelho. Os olhos estavam vermelhos. A pele, marcada por unhas que não eram as de Eleonora. Ela o esperava ali embaixo. Cheirosa, arrumada, perfumada por ele. Por um homem que, duas horas antes, teve outra mulher de joelhos diante de si. Que quebrou a promessa que fez com os olhos dela cheios de lágrimas duas semanas atrás, quando a tomou pela primeira vez com uma ternura que ele nem sabia que existia dentro de si. Dom apoiou as mãos na pia de mármore e fechou os olhos. Respirou fundo, mas era como tentar respirar sob água. A culpa escorria pelos seus poros mais do que o vapor quente do chuveiro. Levou mais tempo do que deveria ali dentro. Tentava lavar o corpo, mas nada limpava o peso da alma. Cada gota d’água parecia queimá-lo. Quando finalmente saiu, o rosto estava mais abatido do que quando entrou. Vestiu-se devagar, cada botão da camisa como uma punhalada de lembrança do que havia feito. Desceu as escadas ajustando o paletó. E lá estava ela. Linda. Sorridente. Pronta para apresentar os sogros ao mundo. Eleonora sorriu quando o viu. — Até que enfim. Vem, Dom. Eles estão chegando. Ele esticou a mão para ela, e quando seus dedos se tocaram, Dom sentiu como se tivesse traído algo mais do que sua esposa. Sentiu que havia traído o próprio destino. O som da campainha ecoou pela mansão, cortando o silêncio carregado no coração de Dom. Eleonora correu para a porta com um sorriso ansioso, o vestido se movendo com elegância enquanto seus cabelos brilhavam sob a luz dourada do entardecer. Abriu com entusiasmo. — Sejam bem-vindos! — disse, com uma doçura que fazia Dom se encolher por dentro. Lá estavam eles. O pai de Dom, imponente e elegante como sempre, e a mãe, de sorriso discreto, com as mãos repousando sobre os ombros de um menino. Lorenzo. Dom congelou. O garoto tinha os cabelos escuros, levemente ondulados. O olhar firme e curioso, puxado da mãe. Mas o resto… era todo Dom. O nariz, o maxilar, o porte. Era como se estivesse olhando para uma miniatura de si mesmo — um espelho vivo que escancarava o pecado que ele tentou enterrar por anos. Dom engoliu seco. Andou até eles com passos curtos, hesitantes, como se algo o puxasse para trás. Quando seus olhos encontraram os de Lorenzo, um nó se formou na garganta. — Esse é o Lorenzo, nosso caçula — disse o pai, com um orgulho que doía. — O irmãozinho do Dom. Eleonora sorriu, encantada. — Irmãozinho? Mas que honra, Lorenzo! Você é lindo! Dom se ajoelhou à frente do garoto, tentando sorrir. — Oi, campeão… Lorenzo estendeu a mão com a segurança de quem sabia o próprio valor. Dom apertou os dedinhos pequenos com cuidado. E, sem conseguir se conter, os olhos se encheram. Uma lágrima grossa escorreu. — Está tudo bem? — sussurrou Eleonora, abaixando-se ao lado dele. — É só emoção — respondeu Dom, forçando um sorriso, mas a voz saiu falha, abafada por anos de arrependimento. Eles entraram. Os empregados já serviam a mesa, enquanto Eleonora organizava tudo com perfeição, empolgada em causar boa impressão. O jantar ainda nem havia começado quando a porta da cozinha se abriu. E então… Bela entrou. Trazia uma bandeja com garrafas de água e taças. Os cabelos presos com firmeza, a expressão treinada para parecer neutra. Mas, ao cruzar o batente da sala e ver o garoto… Ela parou. O mundo parou. As garrafas escorregaram. O vidro estilhaçou no mármore, espalhando água e pedaços cortantes pelos pés dos convidados. — Perdão! — disse Bela, a voz trêmula. — Eu… eu me desequilibrei. Mas ninguém acreditou na mentira. Os olhos dela estavam cravados no menino. Lorenzo também a olhou, com aquela curiosidade típica de criança, mas com um lampejo de reconhecimento silencioso. Como se seu corpo soubesse de algo que sua mente ainda não podia nomear. Dom se levantou tão rápido que quase derrubou a própria taça. Caminhou até Bela e a segurou pelo braço com firmeza disfarçada. — Tá tudo bem, eu cuido disso — murmurou, puxando-a de volta para a cozinha. O silêncio ficou suspenso por alguns segundos até a mãe de Dom rir, tentando aliviar o clima. — Ah, acidentes acontecem. Que menino curioso, não é? Já deixou a empregada nervosa. Mas Eleonora franziu o cenho. Algo em sua intuição gritou. Olhou para Dom, depois para Bela. O jeito que ele segurou o braço dela… o olhar que ele tentou esconder… e a lágrima que escorreu quando viu o menino. Algo estava errado. Algo grande. E Eleonora, que nunca foi boba, sentiu. Ainda não sabia o que era, mas estava ali. E estava prestes a vir à tona.
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