A grande família

2446 Words
Dom não tocou em Eleonora desde aquela noite intensa. Passou as duas semanas seguintes chegando tarde, saindo cedo, evitando até os jantares em casa. A distância entre eles crescia a cada dia, e a mansão parecia mais um palco frio do que um lar. Eleonora, por sua vez, estava tomada pelo nervosismo. Estava sozinha nos preparativos para a recepção que receberia os sogros — a mãe de Dom chegaria naquela noite, junto com o pai e o irmão mais novo dele, uma criança que ela nunca conhecera. A ansiedade crescia em seu peito, misturada com o medo do desconhecido. Enquanto organizava os detalhes, revisava a lista de convidados, a decoração e os pratos do buffet. O coração batia acelerado não só pela festa, mas pelo encontro inevitável com aquela família que carregava tantos segredos. Do outro lado, Dom aproveitava o fato de Eleonora estar ocupada demais para protestar. Antes da chegada dos seus, marcou um encontro discreto com Bela, naquele hotelzinho na cidade, tentando manter o controle sobre o que parecia escapar-lhe das mãos. A casa estava em festa. Eleonora percorreu os corredores com uma prancheta na mão, os cabelos presos num coque desfeito, a testa levemente suada. A equipe de organização fazia os últimos ajustes para a recepção dos sogros e, mais importante, para conhecer o “irmão” de Dom — Lorenzo, um adolescente de onze anos, descrito por Carlo como calado, educado e muito apegado aos avós. Ela não fazia ideia do turbilhão que estava prestes a entrar por aquelas portas. — Senhora Eleonora, os músicos chegaram. Deseja aprovar o repertório? — perguntou uma funcionária. Eleonora assentiu com um sorriso automático. Sua mente estava distante. Desde o casamento, Dom se mostrava ainda mais reservado. Cordial, sim, mas ausente. Às vezes, a fitava com um olhar perdido, como se quisesse dizer algo… mas recuava. O toque dele era firme, possessivo, mas seu silêncio era um abismo. Ela não sabia que, enquanto escolhia flores e talheres, Dom Carlo estava num hotelzinho antigo no centro da cidade. O mesmo onde costumava se encontrar com Bela antes de tudo desmoronar. ** já no hotelzinho… O quarto tinha cheiro de madeira antiga e jasmim — o perfume que Bela usava no passado. Ela estava encostada à janela, de vestido simples, as mãos trêmulas. Dom entrou sem dizer uma palavra. Ela se virou. Os olhos marejados. — É hoje? — a voz saiu quase sem som. Dom assentiu, fechando a porta atrás de si. Havia raiva, dor e culpa em seu olhar. Mas o que mais havia… era medo. — Eleonora não sabe. Ninguém pode desconfiar. Meus pais chegaram com Lorenzo há algumas horas. Devem estar descansando na casa de campo. A recepção é o disfarce perfeito. — E eu? — a voz dela quebrou. — O que sou nisso tudo, Carlo? Uma sombra? Uma funcionária? Uma mãe invisível? Dom se aproximou, pegando o rosto dela entre as mãos. — Você é a mãe dele. E vai poder vê-lo. Só não agora. Se desmoronar na frente dele, vai chamar atenção. E meus pais não vão permitir que você se aproxime de novo. — Eu nunca o segurei nos braços, Dom. Nunca ouvi a voz dele me chamar de mãe. — Uma lágrima escorreu. — E agora vou ver meu filho como um estranho, tratado como irmão do próprio pai… Eu nem sei se ele se lembra de mim. — Ele não sabe quem você é. Mas tem o seu olhar. Vai reconhecer. E você vai ter que engolir isso, por agora. Ela sentou-se na beira da cama. Respirou fundo. — E a sua esposa? Sabe que o filho do seu marido vai estar na casa dela? Que a mãe dele é a nova empregada? Dom ficou em silêncio por um longo tempo. — Não. Ainda não. ** Na mansão, o relógio marcava 16h45. Eleonora ajeitava a mesa do jardim quando os portões principais se abriram. Três carros pretos cruzaram o caminho de pedras. Ela alisou o vestido claro e tentou manter a calma. Do carro do meio saiu um casal elegante, os pais de Dom, com uma presença altiva e fria. E então… Ele. Lorenzo. Ele desceu do banco de trás. Olhos cinzentos, como os de Dom. Mas o rosto… aquele rosto… Eleonora congelou. Havia algo familiar naquele menino. Algo que não sabia explicar. Como se ele já tivesse passado por ela. Como se carregasse uma história muito maior do que parecia. E do alto da escadaria, Bela observava escondida, com a mão cobrindo a boca, tentando conter um soluço. Seu filho estava ali. Tão perto… E ainda assim, inalcançável. O quarto ainda exalava o aroma suave do jasmim, como se o tempo ali pudesse congelar a dor e as lembranças. Bela estava sentada na beira da cama, os olhos marejados, a respiração entrecortada. Quando Dom se aproximou, seus passos silenciosos preencheram o espaço com uma tensão contida. Ele pegou o rosto dela com delicadeza, suas mãos firmes, mas cuidadosas. Uma lágrima escapou do canto do olho de Bela, deslizando pelo rosto. Sem dizer uma palavra, Dom inclinou-se e passou a ponta dos dedos, secando a lágrima com carinho, como se aquela simples ação pudesse apagar anos de distância e sofrimento. Os olhos dele buscaram os dela, e, naquele instante, não havia segredos nem medo — apenas uma verdade crua e profunda que os unia. Dom segurou Bela pela cintura, puxando-a para perto, enquanto seus lábios se encontraram em um beijo lento e cheio de uma emoção reprimida. Foi um beijo carregado de saudade, de desejos não realizados e de promessas silenciosas. Era um momento roubado do mundo, onde tudo o que importava era o calor do outro, a conexão intensa entre eles. Quando se separaram, ainda presos, Dom sussurrou: — Tudo vai mudar, Bela. Preciso que você seja forte. Por ele… por nós. Ela assentiu, sem conseguir falar, o coração batendo descompassado. No fundo, ambos sabiam que aquele encontro era o começo de algo perigoso — um caminho que poderia revelar segredos capazes de destruir tudo. Mas, por ora, era só aquele instante. Só aquele beijo. O beijo foi uma explosão de desejo reprimido, uma mistura de saudade e necessidade que queimava a pele e acelerava o coração. Dom segurou o rosto de Bela com firmeza, como se não quisesse deixá-la escapar, enquanto a língua dele invadia a dela, explorando cada canto, cada suspiro. Os corpos se aproximaram, a roupa foi caindo lentamente, peça por peça, como se o tempo desacelerasse para tornar aquele momento eterno. Dom sentiu o calor do corpo de Bela contra o seu, cada curva, cada batida do coração que pulsava forte. No quarto modesto do hotel, a luz suave da tarde filtrava-se pelas cortinas, iluminando os contornos sensuais dos corpos que se entregavam sem reservas. Dom começou a traçar beijos pela pele macia do pescoço de Bela, descendo lentamente até os ombros, os s***s, provocando arrepios intensos. Bela arfava, suas mãos exploravam as costas fortes de Dom, puxando-o para mais perto, querendo fundir-se a ele. Com um movimento preciso, Dom a deitou na cama, o olhar escuro de desejo fixo no dela. Ele beijou cada curva, cada parte que conseguia alcançar, seu toque era simultaneamente suave e possessivo, dominador e carinhoso. Bela gemeu baixinho quando Dom começou a explorar seu corpo com a boca e as mãos, a língua deslizando por suas intimidades, fazendo-a perder o controle, seu corpo todo tremendo de prazer. Ele alternava entre carícias lentas e toques ardentes, deixando-a à beira do delírio, seu desejo só aumentando. Ela agarrou os cabelos dele, puxando-o mais para perto, querendo sentir cada centímetro de Dom. Quando ele finalmente a tomou em seus braços, movendo-se com uma intensidade quase feroz, cada toque, cada suspiro, cada gemido parecia incendiar o quarto. Eles eram fogo e brasa, perdidos um no outro, no momento mais proibido e verdadeiro que já viveram. O mundo desapareceu, restando apenas o calor do corpo colado, o sabor da pele e a entrega completa. Bela, com os olhos brilhando de sede e emoção, pediu de novo. E de novo. Como se o corpo dela fosse um fogo que só Dom sabia apagar — mas que, na verdade, só o alimentava. Eles não puderam esperar mais. No banheiro apertado do hotel, entre o frio do azulejo e o calor do corpo um do outro, se entregaram com pressa e vontade. Bela sentiu a pele dele contra a sua, a respiração pesada ecoando entre as paredes pequenas enquanto Dom a segurava firme, cada toque era eletricidade pura. Sem pausa, foram para o chão do quarto, onde a cama esperava silenciosa, quase implorando para ser testemunha daquela loucura. Lá, a entrega foi ainda mais intensa, uma dança selvagem de corpos que parecia desafiar o tempo. Mas não parou. Quando o chuveiro foi ligado, a água quente misturou-se com os suspiros abafados, os corpos deslizando e se encontrando embaixo do jato forte. A pele brilhava, molhada e arrepiada, e cada toque parecia amplificado, quase insuportável de tão bom. E, quando Dom finalmente pensou que não conseguiria mais, que precisava ir, Bela o segurou pela camisa, puxou-o para perto, e então, encostados na porta, com o coração acelerado, eles se perderam novamente — um último encontro, selvagem e urgente, como se o mundo fosse acabar ali. Dom abriu a porta do hotel com um olhar firme e se aproximou de Bela. — Quer que eu te dê carona? — perguntou, a voz baixa e rouca de desejo. Bela sorriu, já sentindo o calor invadir o corpo. — Quero — respondeu, sem hesitar. Eles entraram no carro, a atmosfera entre eles carregada de tensão e expectativa. Dom deu partida, mas em vez de seguir direto, desviou o caminho para uma estrada secundária, mais silenciosa, afastada dos olhos curiosos. O silêncio entre eles era eletrizante. Dom olhou para Bela, que já não conseguia esconder o desejo ardente nos olhos. Ele não falou nada, apenas a puxou para mais perto. As mãos firmes exploraram o corpo dela, deslizando pela curva dos quadris, subindo pelas costas, enquanto os lábios se encontravam num beijo profundo, urgente, que falava mais do que qualquer palavra. Bela sentiu o coração disparar, as pernas tremendo enquanto se acomodava no colo dele, os corpos encaixando-se perfeitamente naquele espaço apertado. A respiração dele contra a pele dela era quente, provocante, fazendo-a arrepiar. As mãos de Dom desabotoaram a blusa dela com uma pressa contida, enquanto os dedos dele exploravam cada pedaço de pele exposta. Bela retribuía com beijos no pescoço dele, mordiscando, sentindo a excitação aumentar a cada toque. Eles se moveram lentamente, deslizando no banco do carro até ficarem completamente próximos, sem espaço para dúvidas ou hesitações. O ar parecia carregar eletricidade, cada suspiro e cada toque amplificados no ambiente apertado. E então, entre gemidos abafados e toques que incendiavam a pele, eles se entregaram ao desejo, fazendo amor ali mesmo, no carro, onde o tempo parecia parar, só para eles. Quando enfim pararam, o silêncio que restou era carregado de promessa — aquela noite ainda tinha muito para mostrar. Depois do que parecia uma eternidade de toques, beijos e suspiros entrelaçados, Dom finalmente recobrou o controle da voz, rouca e firme: — Vou te deixar perto de casa, Bela… mas não podemos chegar juntos. Bela arregalou os olhos, a intensidade daquele aviso fazendo seu coração disparar por um motivo diferente. Ela sabia exatamente o que isso significava. Dom não queria ser visto ao lado dela, não queria levantar suspeitas, mas não conseguiria resistir a tê-la ali, mesmo que por breves momentos. — Entendo — respondeu ela, a voz baixa e cheia de desejo reprimido. Ele a olhou por um instante, como se ponderasse se poderia dizer mais, mas no fim apenas voltou a colocar as mãos no volante, preparando-se para seguir o caminho. O silêncio voltou, pesado e cheio de segredos, enquanto o carro seguia lentamente pela rua, prestes a deixá-la perto de casa — separados em público, unidos em segredo. Dom apertou o volante com força, o rosto tenso, a respiração irregular. A culpa era um peso sufocante no peito — ele era casado, preso a um compromisso que agora sabia que havia quebrado. E não era só isso: há duas semanas, Bela havia se entregado a ele pela última vez, numa noite marcada pela intensidade e pela dor do segredo. Ele sentiu o gosto amargo do erro, do desejo proibido que não sabia controlar. — Eu… — começou, a voz embargada. — Eu nunca quis que fosse assim, Bela. Mas perdi o controle. Eu traí a Eleonora… e você se entregou a mim. Seus olhos se fecharam por um momento, como se tentasse expulsar o turbilhão de sentimentos. — Isso… — continuou, com a voz rouca — isso não pode acontecer de novo. Não posso fazer isso com ela. E, apesar do conflito, ele sabia que nada seria tão simples. O silêncio no carro era pesado. Dom não ousou olhar para ela, mas o som de sua respiração descompassada denunciava o caos interno. Então, a voz de Bela rasgou o ar, trêmula, mas firme. — Eu nunca deveria ter voltado praquela mansão — ela disse, com os olhos marejados, encarando o nada pela janela. — Nunca deveria ter aceitado ficar perto de vocês. Eu me odeio por isso… por ainda sentir tudo isso por você. Ela se virou para ele, o rosto vermelho, os olhos furiosos, úmidos. — E eu odeio a Eleonora. Ela tem tudo o que deveria ter sido meu. O lugar ao seu lado, o filho que deveria crescer comigo… — sua voz falhou. — Mas sabe o que mais me machuca, Dom? É que mesmo sendo quem é, o fodido líder de cartel, o homem que todo mundo teme, você é um covarde. As palavras bateram forte nele, mais do que qualquer golpe que já recebeu na vida. — Você nunca teve coragem de me amar de verdade. De lutar por mim. De assumir nosso filho. Sempre se escondeu atrás de regras, acordos, convenções… e agora, olha pra você — ela riu, amarga — casado, e traindo a esposa como um adolescente i****a, sem honra, sem moral. Me usou. De novo. Antes que ele pudesse dizer qualquer coisa, ela puxou a maçaneta e desceu do carro com as mãos trêmulas. Chorava descontroladamente, o corpo sacudido pela dor. — Não me procure mais, Dom. — disse sem olhar para trás. — A partir de agora, nós dois morremos um pro outro. Ele ficou ali, parado no banco do motorista, sem conseguir sair. As palavras dela ecoavam como tiros na cabeça. E pela primeira vez em muito tempo… ele sentiu medo. Medo de ter perdido a única mulher que realmente o amou.
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