Quando Bianca atravessou aquele portão, soube que uma parte de mim também ficou do lado de fora. Não havia mais como voltar. Fiquei parado na calçada, o vento gelado batendo no rosto, a mão ainda queimando onde toquei o rosto dela pela última vez. Fiquei ali tempo demais, ouvindo o som do motor se afastar, até que o silêncio caiu pesado como sempre faz depois que algo verdadeiramente importante acontece, e você não consegue evitar. Voltei para dentro da casa como quem entra em uma cripta. O ar parecia mais denso, o cheiro dela ainda impregnado nos quartos, nas roupas, nos lençóis, até na minha pele. Sentei no sofá da sala, as luzes apagadas, e só então senti o peso da exaustão, da raiva, do vazio. Meus irmãos cresceram na mesma casa, comeram o mesmo pão, sofreram as mesmas regras. Mas é

