Corpo do Lago
O corpo de Lucas Mendes boiava de bruços na água turva do lago.
Não estava inteiro.
Roberta viu de longe, atrás da fita amarela que os seguranças do campus estenderam às pressas. Viu o braço direito faltando. Viu a água ao redor do corpo tingida de um vermelho que não se misturava direito, como tinta grossa.
Ela não sentiu nojo.
Não sentiu pena.
Sentiu apenas o que sempre sentia: as emoções dos outros.
A namorada de Lucas, uma garota chamada Camila, estava ajoelhada a três metros de distância, presa nos braços de uma amiga. Seus gritos perfuravam o ar da manhã como vidro quebrado. Desespero. Puro, cru, ensurdecedor. Roberta sentiu cada onda de dor como se fosse sua, e lutou para não deixar o rosto tremer.
Ao redor, dezenas de estudantes se aglomeravam. Curiosidade mórbida. Medo. Excitação doentia. Alguém filmava com o celular. Alguém ria nervosamente. Alguém orava em voz baixa.
Roberta fechou os olhos por um segundo e construiu o muro.
Pedra por pedra. Tijolo por tijolo.
Ela tinha treze anos quando aprendeu a fazer isso. Treze anos, escondida no armário do quarto, enquanto os agentes arrastavam seu pai para fora de casa. Ela ouviu os tiros. Ouviu o silêncio depois. E naquela noite, enquanto o medo e a culpa ameaçavam devorá-la, ela descobriu que conseguia empurrar tudo para fora.
Não sentir era uma habilidade. Uma que a manteve viva.
— Você é a Roberta?
A voz veio de trás dela. Roberta virou-se lentamente, o rosto neutro.
Um homem de terno preto estava a meio metro de distância. Cabelo grisalho, olhos cinzentos, nenhuma expressão. Ele não segurava um caderno nem um celular. Apenas a encarava.
Roberta sentiu algo estranho.
Nada.
Não havia emoção vindo daquele homem. Nem medo, nem raiva, nem curiosidade. Era como encarar uma parede. Como tentar ouvir o silêncio.
Os caçadores eram assim. Ela já tinha ouvido falar, mas nunca tinha encontrado um tão de perto.
— Quem quer saber? — ela respondeu, a voz firme.
O homem sorriu. Não era um sorriso amigável.
— Sou o detetive Moreira. Segurança do campus. Você é amiga do Lucas?
— Não.
— Mas você estava aqui. Olhando.
— Todo mundo está olhando.
O homem deu um passo à frente. Roberta sentiu o cheiro de tabaco e algo metálico. Sangue? Ela não tinha certeza.
— Você não parece chocada, Roberta. Nem triste. Nem com medo. — Ele inclinou a cabeça. — Isso é estranho.
— Talvez eu só seja uma pessoa fria.
O sorriso do homem se alargou.
— Talvez. — Ele se afastou, mas seus olhos continuaram nela. — Vamos nos encontrar de novo, Roberta. Tenho certeza.
Ele virou as costas e caminhou em direção à fita amarela, onde outros agentes aguardavam. Roberta observou-o ir, sentindo o coração bater forte sob a camisa.
Ele sabia. Não sabia o quê exatamente, mas sabia que ela era diferente.
Isso era o bastante para ser levada.
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Ela passou o resto do dia na biblioteca.
Lugar seguro. Paredes de livros. Silêncio. Nenhuma emoção além do leve tédio dos funcionários e da ansiedade dos estudantes que tentavam estudar sem conseguir.
Roberta sentou-se no fundo, de costas para a parede, e abriu um livro de cálculo que não tinha interesse em ler. Seus olhos percorriam as páginas, mas sua mente estava em outro lugar.
O corpo de Lucas. O braço faltando. A água vermelha.
Ela não conhecia Lucas. Não ligava para Lucas. Mas a imagem não saía de sua cabeça.
E a pergunta que não queria fazer: por que ele?
Lucas era um estudante comum. Notas medianas. Nenhum amigo próximo. Nenhum talento especial. Nada que chamasse atenção.
Exceto uma coisa.
Roberta se lembrou de vê-lo no corredor, duas semanas atrás. Ele estava parado perto da fonte de água, olhando para o nada. Ela passou por ele e sentiu algo estranho — uma emoção que não conseguia identificar. Não era medo. Não era tristeza. Era como estática. Como um rádio fora de sintonia.
Na época, ela ignorou. Todo mundo tinha dias ruins.
Mas agora...
— Você está pensando no Lucas.
Roberta ergueu os olhos.
Uma garota estava sentada à sua frente. Cabelos castanhos-escuros, olhos cor de âmbar, um rosto que parecia doce demais para aquele lugar. Marina Santos. Roberta a reconhecia das aulas de Física — a garota popular, a que todo mundo amava, a que sempre sorria.
Hoje, ela não estava sorrindo.
— O que você quer? — Roberta perguntou.
— Responder minha pergunta. Você está pensando no Lucas, não está?
— Todo mundo está pensando no Lucas.
— Não. Marina inclinou-se para a frente. — Todo mundo está com medo. Você está... calculando. É diferente.
Roberta sentiu o formigamento na nuca. Alerta.
— Você não me conhece.
— Eu sei o suficiente. — Marina baixou a voz. — Sei que você estava no lago antes da polícia chegar. Sei que ficou parada olhando o corpo como se fosse um problema de matemática. Sei que não piscou quando a namorada dele começou a gritar.
— Você estava me observando?
— Estava observando todo mundo. É o que eu faço.
Roberta fechou o livro. O movimento foi brusco, e o som ecoou na biblioteca vazia.
— Por que você está aqui, Marina?
A garota hesitou. Por um segundo, sua fachada de doçura rachou, e Roberta viu algo por baixo. Medo. Não o medo superficial dos outros estudantes, mas algo mais profundo. Mais antigo.
— Porque eu sei o que aconteceu com ele — Marina sussurrou. — Não apenas como ele morreu. O que aconteceu antes.
O ar ficou pesado.
— O que você quer dizer?
Marina olhou em volta. A biblioteca estava quase vazia. Um funcionário dormia atrás do balcão. Ninguém estava ouvindo.
Ela se inclinou ainda mais perto.
— O Lucas não foi assassinado por um estranho. Foi o governo. Os mesmos que caçam pessoas como nós.
Roberta sentiu o sangue gelar.
— Não fale isso em voz alta.
— Por quê? Porque eles podem estar ouvindo? — Marina riu, um som amargo. — Eles já estão aqui, Roberta. O detetive que falou com você? Ele não é da segurança do campus. Ele é da Divisão de Contenção. Eu vi o crachá dele.
— Como você sabe disso?
— Porque eu já vi esse crachá antes. — Marina puxou a manga da blusa, revelando o antebraço. Uma cicatriz em espiral, como uma queimadura, subia do pulso até o cotovelo. — Eles me pegaram há dois anos. Fiquei três meses no centro de contenção em Brasília. Escapei. Mas não antes de ver o que eles fazem com a gente.
Roberta encarou a cicatriz. O padrão era familiar — ela tinha visto em um documentário, anos atrás. Marcas de contenção energética. Usadas para suprimir habilidades.
— O que você pode fazer? — ela perguntou, a voz rouca.
Marina baixou a manga.
— Não importa. O que importa é que eles estão de volta. O laboratório de Química não é um laboratório. É uma fachada. Eles estão sequestrando estudantes com habilidades. Testando coisas neles. Coisas que matam. — Ela agarrou o pulso de Roberta. — Lucas sabia. Ele tinha uma habilidade — algo pequeno, inútil. Ele podia fazer objetos flutuarem alguns centímetros. Nada demais. Mas eles descobriram. E agora ele está morto.
Roberta arrancou o pulso do aperto.
— Por que você está me contando isso?
— Porque você também tem uma habilidade.
Não era uma pergunta.
Roberta sentiu o pânico subir. Como Marina sabia? Ela nunca tinha usado seus poderes perto de ninguém. Nunca.
— Você está louca.
— Estou? — Marina inclinou a cabeça. — Então por que você está suando? Por que seus olhos estão se movendo como se estivesse procurando uma saída? Por que você está com tanto medo que eu quase posso sentir?
Roberta congelou.
Quase posso sentir.
— Você também é uma... — ela começou.
— Sim. Marina interrompeu. — Não igual a você. Mas sim. E é por isso que você precisa me ouvir. Eles vão te encontrar. Mais cedo ou mais tarde, eles vão te encontrar. A menos que a gente faça alguma coisa.
— Fazer o quê?
— Descobrir onde eles estão mantendo os outros. O que eles estão fazendo. E parar eles.
Roberta riu. Um som seco e sem humor.
— Você quer derrubar o governo? Com o quê? Com suas habilidades de festa?
— Não. Com informação. — Os olhos de Marina brilharam. — Eu sei onde fica o laboratório secreto. Sei como eles operam. Sei os pontos fracos. — Ela baixou a voz. — O que eu não sei é quantos estudantes ainda estão vivos lá dentro. E se ainda dá tempo de salvar alguém.
As palavras pairaram no ar.
Roberta pensou no pai. Pensou nos tiros. Pensou no silêncio depois.
Ela não queria ajudar ninguém. Não queria se envolver. Queria continuar invisível, segura, sozinha.
Mas algo na voz de Marina — na raiva fria por trás das palavras — a fez hesitar.
— Por que você se importa? — Roberta perguntou. — Você escapou. Podia ter ido embora, mudado de nome, sumido. Mas ficou. Por quê?
Marina a encarou por um longo momento.
— Porque eles mataram meu irmão — ela disse, a voz vazia. — Dois anos atrás. No centro de contenção. Eu escapei, mas ele não. E agora eles estão fazendo a mesma coisa com outras pessoas. — Ela apertou os punhos. — Eu não vou fugir de novo.
O silêncio entre elas era pesado como chumbo.
Roberta sentiu a raiva de Marina — fria, calculista, implacável. Não era a raiva de quem quer vingança. Era a raiva de quem já perdeu tudo e não tem mais nada a temer.
Ela conhecia essa raiva. Sentia a mesma coisa toda vez que pensava no pai.
— Mesmo que eu quisesse ajudar — Roberta disse lentamente — o que eu poderia fazer? Eu só sinto emoções. Não é uma arma.
— Não é uma arma? — Marina sorriu, um sorriso que não alcançava seus olhos. — Você sabe o que as pessoas sentem quando estão com medo? Quando estão mentindo? Quando estão escondendo algo? — Ela inclinou-se para a frente. — Isso é mais útil do que qualquer arma. Você pode saber quem é confiável. Quem está do lado deles. Quem está prestes a nos trair.
Roberta não respondeu.
Porque Marina estava certa.
E porque, no fundo, ela sabia que já estava envolvida. Desde o momento em que viu o corpo de Lucas. Desde o momento em que sentiu o vazio do detetive Moreira. Desde o momento em que Marina a encarou com aqueles olhos que viam demais.
— Se eu fizer isso — Roberta disse finalmente — não é por você. Não é pelos estudantes desaparecidos. É pelo meu pai. Eles o levaram quando eu tinha doze anos. Eu nunca soube o que aconteceu com ele. — Ela encarou Marina. — Se eu descobrir algo, quero respostas.
Marina assentiu lentamente.
— Combinado.
Elas ficaram em silêncio por um momento. Então Roberta falou novamente.
— Onde fica o laboratório?
— Debaixo do prédio de Química. Há uma entrada no subsolo, atrás dos tanques de armazenamento. — Marina olhou em volta novamente, certificando-se de que ninguém estava ouvindo. — Mas não podemos invadir assim. Eles têm segurança. Câmeras. Sensores. E os caçadores.
— Então como vamos entrar?
Marina hesitou.
— Tem um aluno. Ele trabalha como assistente de laboratório. Ele sabe dos túneis. Ele pode nos ajudar. — Ela mordeu o lábio. — Mas ele é... complicado. Não sei se podemos confiar nele.
— Você confia em mim?
Marina a encarou.
— Não. Mas confio no seu medo. Você tem tanto medo deles quanto eu. — Ela se levantou. — Isso é o bastante para começar.
Roberta também se levantou.
— Quando vamos?
— Amanhã. Meia-noite. Portão dos fundos do prédio de Química. — Marina caminhou em direção à saída, mas parou antes de abrir a porta. — Roberta.
— O quê?
— Não conte a ninguém. Não confie em ninguém. Não importa o quanto pareçam confiáveis. — Ela virou a cabeça, e seus olhos âmbar brilharam na luz fraca. — Eles estão em toda parte. Não apenas os caçadores. Pessoas normais. Professores. Amigos. Qualquer um pode estar do lado deles.
Ela saiu.
Roberta ficou sozinha na biblioteca vazia, sentindo o eco das palavras de Marina.
Não confie em ninguém.
Ela já sabia disso. Aprendera há muito tempo.
Mas enquanto caminhava de volta para o dormitório, enquanto sentia o medo dos outros estudantes, enquanto pensava no corpo mutilado de Lucas e nos olhos vazios do detetive Moreira, Roberta percebeu uma coisa.
Ela não confiava em Marina.
Mas Marina era a única pessoa que entendia.
E isso, por enquanto, era o bastante.