Depois que Henrique saiu, o silêncio na sala pesou diferente.
Natasha ainda segurava a carta contra o peito, os dedos apertando o papel como se pudesse impedir que a informação escapasse antes que ela conseguisse processar tudo aquilo direito.
— Você está bem? — perguntou Caio, a voz baixa.
— Não sei como eu estou.
Ele deu um passo em direção a ela, devagar, do jeito que alguém se aproxima de algo que pode quebrar.
— Eu não vim aqui pra destruir sua vida, Natasha.
— Um pouco tarde pra isso, não acha? — A voz dela saiu mais amarga do que pretendia, mas não conseguiu segurar. — Cinco anos, Caio. Eu construí uma vida inteira em cima da certeza de que você tinha escolhido ir embora. Casei. Aceitei um casamento sem paixão porque achei que era isso que sobrava depois que a pessoa que eu amava desapareceu sem olhar pra trás.
— Eu sei.
— Você não sabe. — Ela finalmente olhou pra ele, os olhos ardendo. — Você não sabe o que é acordar todo dia por cinco anos tentando decidir se odeia alguém ou se ainda ama essa pessoa, sem nunca conseguir se decidir por completo.
Caio ficou em silêncio por um momento, os olhos fixos nela com uma intensidade que fazia o ar da sala parecer mais pesado.
— Eu sei exatamente o que é isso — disse, finalmente. — Porque eu vivi a mesma coisa, do outro lado do oceano, sem saber se você ainda pensava em mim ou se já tinha me apagado completamente.
Ela sentiu a garganta apertar.
— Isso não desculpa cinco anos de silêncio.
— Não. Não desculpa. — Ele deu mais um passo, agora perto o suficiente pra ela sentir o cheiro dele, familiar de um jeito que doía. — Mas talvez explique por que eu nunca consegui esquecer você, mesmo achando, por muito tempo, que você tinha esquecido de mim.
O coração dela batia rápido demais, um ritmo que ela não sentia fazia cinco anos, desde a última vez que ele esteve perto o suficiente pra ela sentir esse tipo de coisa.
— Caio.
— Eu sei que não deveria dizer isso agora — falou ele, a voz mais rouca. — Sei que você é casada, que isso é errado de todas as formas possíveis. Mas eu preciso que você saiba: nenhum dia, em nenhum lugar do mundo, eu parei de pensar em você.
Ela deu um passo pra trás, tentando colocar distância entre eles, mas as costas encontraram a borda da mesa, e ele ainda estava perto demais, os olhos dele fixos nos dela de um jeito que fazia todo o resto do mundo desaparecer.
— Você não pode dizer isso — sussurrou ela, mas a voz não tinha convicção nenhuma.
— Eu sei.
Nenhum dos dois se moveu. O espaço entre eles diminuiu sem que ela percebesse exatamente quando, e por um segundo — só um segundo — ela sentiu o impulso de fechar essa distância de vez, de esquecer os cinco anos, o casamento, a mentira que talvez estivesse enterrada em algum lugar daquela história toda.
A porta da sala se abriu com força.
— Desculpa interromper — disse a secretária de Henrique, a voz tensa, os olhos correndo rápido entre os dois, notando a proximidade um segundo antes de qualquer um deles conseguir recuar. — Mas senhor Alencar pediu pra avisar que a reunião com o jurídico foi antecipada. Precisam descer agora.
Natasha se afastou rápido, o coração ainda martelando, o rosto quente de um jeito que ela sabia que não conseguia esconder.
— Já vamos — disse Caio, a voz recuperando a calma com uma facilidade que ela invejou.
A secretária saiu, fechando a porta, e por um instante os dois ficaram parados, olhando um pro outro, o momento anterior ainda pairando no ar entre eles como alguma coisa inacabada.
— Isso não pode acontecer de novo — disse Natasha, mais pra si mesma do que pra ele, guardando a carta na bolsa com mãos ainda trêmulas.
— Eu sei.
— Eu sou casada, Caio.
— Eu sei disso também.
Ela caminhou até a porta, mas parou antes de abrir, a mão na maçaneta, sem coragem de olhar pra trás.
— Por que você me mostrou essa carta agora? — perguntou, a voz baixa. — Por que não esperou mais um pouco, até ter certeza de tudo?
O silêncio dele durou tempo demais.
— Porque eu vi a forma como você olhou pra mim naquela festa — disse, finalmente. — E percebi que não tinha mais tempo a perder fingindo que a gente podia continuar como se nada tivesse acontecido.
Ela abriu a porta e saiu sem responder, o coração ainda descompassado, a carta guardada na bolsa como uma bomba que ela não sabia mais como desarmar.
No corredor, andando em direção ao elevador, sentiu o celular vibrar. Uma mensagem de Henrique.
Onde você está? Preciso falar com você. Agora.
Ela olhou pra tela por um segundo longo, sentindo o peso de tudo que tinha descoberto naquela manhã — as cartas, a ligação suspeita, o quase-momento com Caio que ainda fazia seu corpo inteiro tremer — e por baixo de tudo isso, uma pergunta que não conseguia mais ignorar.
O que mais Henrique escondeu de mim nesses cinco anos?
Guardou o celular na bolsa sem responder e entrou no elevador sozinha, o reflexo cansado no espelho a lembrando de que, pela primeira vez em muito tempo, ela não fazia a menor ideia de que caminho seguir.