CAPÍTULO 3 — Natasha

795 Words
O apartamento estava em silêncio quando chegaram, e Natasha odiava esse tipo de silêncio — o silêncio de depois, quando a máscara podia finalmente cair e ninguém sabia mais o que dizer com o rosto descoberto. Henrique tirou o paletó e o jogou no encosto do sofá, gesto que ela reconhecia como cansaço genuíno ou cansaço fingido — nunca sabia diferenciar mais. — Vou tomar um banho — disse ele, já andando pro quarto. — Henrique. Ele parou, mas não se virou. — Você sabia que ele ia voltar? Um segundo de pausa. Pequeno demais pra a maioria das pessoas notar. Grande demais pra ela deixar passar. — Não fazia ideia — respondeu, e continuou andando. Natasha ficou parada na sala, ainda de salto, ainda com o vestido que tinha escolhido com tanto cuidado horas atrás, achando que aquela noite seria só mais uma noite de sorrisos ensaiados. Agora parecia outra vida. Ela tirou os sapatos, um de cada vez, e sentou na beirada do sofá. Cinco anos. Ela tinha contado cada um deles em algum momento — os primeiros meses de espera burra, achando que ele ia aparecer, que ia ligar, que ia explicar. Depois os meses de raiva. Depois o cansaço de sentir qualquer coisa. Depois Henrique, que apareceu bem na hora em que ela já não tinha mais forças pra esperar ninguém. E agora Caio estava de volta, com aquele olhar que atravessava salão lotado como se ela fosse a única pessoa ali, e ela não sabia mais em qual desses estágios estava. O chuveiro ligou no quarto. Ela ouviu o barulho da água e ficou pensando em quantas vezes ela e Henrique tinham ficado em cômodos separados naquele apartamento sem realmente estar juntos em lugar nenhum. O celular vibrou na bolsa. Larissa: Você tá bem? Natasha digitou "sim", apagou, digitou "não sei", apagou de novo, e por fim escreveu: Vou sobreviver. Como sempre. A resposta veio rápido: Isso não é a mesma coisa que estar bem, Nat. Ela guardou o celular sem responder. Henrique voltou do banho de roupão, o cabelo molhado, cheiro de sabonete que ela conhecia de cor. Sentou do outro lado do sofá, deixando um espaço entre eles que parecia proposital. — Foi uma noite longa — disse ele. — Foi. — Ele não devia ter aparecido sem avisar. Isso é típico dele. Sempre foi de fazer entrada. Havia alguma coisa na voz de Henrique que ela não conseguia perceber. Não era raiva pura. Era mais controlado que isso, mais frio, como se ele estivesse escolhendo cada palavra com cuidado excessivo. — Vocês vão se falar? — perguntou ela. — Amanhã. Reunião no escritório. — Sobre o quê? — Sobre a parte dele na empresa, imagino. — Henrique deu de ombros, gesto casual demais pra ser natural. — Ele ainda tem ações. Tecnicamente. Tecnicamente. A palavra ficou pendurada no ar entre eles. Natasha olhou pras próprias mãos, ainda um pouco trêmulas, e pensou em como Henrique nunca tinha perguntado como ela estava se sentindo vendo o ex-noivo voltar depois de cinco anos de silêncio. Não porque ele fosse c***l — ou talvez fosse, ela já não tinha mais certeza — mas porque parecia genuinamente nunca ter passado pela cabeça dele que aquilo pudesse afetá-la de um jeito que exigisse pergunta. — Vou dormir — disse ela, se levantando. — Natasha. Ela parou. — O que quer que ele diga amanhã — falou Henrique, os olhos fixos nela de um jeito que ela não sabia ler — lembra que ele é quem foi embora. Não eu. Ela quis responder alguma coisa. Não conseguiu decidir o quê. Só balançou a cabeça e foi pro quarto, deixando Henrique sozinho na sala, olhando pra escuridão da varanda como se estivesse calculando alguma coisa que ela não tinha acesso. Deitada, olhando pro teto, Natasha pensou na frase dele. Ele é quem foi embora. Não eu. Era verdade. Era a verdade que ela repetia pra si mesma havia cinco anos, a verdade que justificava cada escolha que ela tinha feito depois — o casamento, a resignação, a vida inteira construída em cima da certeza de que Caio tinha escolhido partir e nunca mais olhar pra trás. Só que hoje, no salão, ele tinha olhado pra ela como um homem que nunca tinha conseguido parar de olhar. E isso não batia com a história que ela sempre acreditou. Ela fechou os olhos, mas o sono não vinha. Do outro lado da porta, ouviu Henrique andando pela sala por muito tempo antes de finalmente ir pro quarto de hóspedes — coisa que ele fazia cada vez mais, alegando trabalho tarde da noite, alegando reuniões, alegando qualquer coisa menos o óbvio. Que os dois não sabiam mais como dormir na mesma cama sem fingir.
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