CAPÍTULO 7 — CAIO

1005 Words
Caio sentou de frente pro irmão e sentiu, pela primeira vez em cinco anos, o peso real do que estava prestes a fazer. — Bem — começou Henrique, as mãos entrelaçadas sobre a mesa, a postura de quem já tinha ensaiado aquela cena mil vezes na cabeça. — Você está de volta. Presumo que queira discutir sua posição na empresa. — Entre outras coisas. — Quais outras coisas? Caio olhou pra Natasha, sentada entre os dois, o bloco de notas aberto na frente dela, a caneta parada sem escrever nada. Ela não olhava pra ele. Olhava pra mesa, pro nada, com aquela rigidez nos ombros que ele já tinha aprendido a reconhecer como o jeito dela de segurar uma tempestade por dentro. — Vim reclamar minha participação — disse ele, voltando o olhar pro irmão. — As ações que ainda são minhas por direito. E vim entender por que, nos últimos cinco anos, ninguém nessa empresa considerou necessário me manter informado sobre absolutamente nada. — Você desapareceu, Caio. — A voz de Henrique veio mais afiada. — Não deixou endereço, não deixou contato. O que exatamente você esperava? — Esperava que, se alguém tentasse falar comigo, eu recebesse. O silêncio que se seguiu durou segundos demais. — Você está insinuando alguma coisa? — perguntou Henrique, o tom ainda calmo, mas os dedos apertando um pouco mais as próprias mãos entrelaçadas. — Estou perguntando um fato simples. Alguém tentou contato comigo nesses cinco anos? — Como eu ia tentar contato com alguém que não deixou nenhum jeito de ser encontrado? Caio sorriu, sem humor nenhum naquilo. — Eu deixei, Henrique. Rafael Dumont tinha um escritório fixo em Lisboa nos dois primeiros anos. Endereço registrado, telefone registrado. Não era difícil de achar, se alguém quisesse achar. Ele viu o momento exato em que a informação atingiu o irmão — um piscar de olhos rápido demais pra ser natural, um ajuste quase imperceptível na postura. Henrique era bom. Mas não era perfeito. — Eu não sabia disso — disse Henrique. — Não sabia mesmo, ou preferiu não saber? — Caio. A voz veio de Natasha, baixa, mas firme o suficiente pra os dois pararem. Ela finalmente levantou os olhos do bloco de notas, e havia neles uma mistura de coisas que ele não sabia separar direito — raiva, confusão, e algo mais fundo que doía de olhar. — O que você está insinuando? — perguntou ela, direto pra ele dessa vez. Caio respirou fundo. Não era assim que queria fazer aquilo. Não numa sala de reunião, com o irmão do outro lado da mesa e o relógio correndo contra ele. — Não estou insinuando nada ainda — disse, escolhendo as palavras com cuidado. — Só estou levantando perguntas que deveriam ter sido feitas há cinco anos. — Isso é ridículo — cortou Henrique, se levantando. — Você desaparece por meia década, aparece do nada numa festa, e agora quer jogar a culpa em mim porque ninguém conseguiu adivinhar seu paradeiro? — Eu não disse que era difícil de adivinhar. Disse que era fácil de achar. São coisas diferentes. Henrique parou de andar. Por um segundo, Caio viu alguma coisa passar pelo rosto do irmão — não raiva, não indignação genuína, mas cálculo. O tipo de cálculo de um homem tentando decidir quanto precisava admitir pra parecer inocente sem realmente confirmar nada. — Vamos focar no que interessa — disse Henrique, recompondo o tom. — Suas ações. Você quer retomar participação ativa na empresa? — Quero. — Então vamos discutir isso com o departamento jurídico, formalmente, como qualquer sócio faria. — Vamos. O clima na sala tinha esfriado de um jeito que não tinha nada a ver com o ar-condicionado. Caio olhou de novo pra Natasha, que agora escrevia alguma coisa no bloco, rápido, como se precisasse das mãos ocupadas pra não pensar em outra coisa. — Preciso de um momento a sós com a Natasha — disse ele, de repente. — Assuntos de relações institucionais, sobre como vamos comunicar meu retorno pro mercado. Henrique travou. — Isso pode ser discutido com toda a equipe de comunicação. — Prefiro alinhar antes com quem realmente entende a empresa. — Caio manteve o olhar firme no irmão. — Você tem algum problema com isso? Foi um desafio direto, e os dois sabiam. Henrique olhou pra Natasha, depois de volta pra Caio, calculando alguma coisa que Caio não conseguia ler completamente. — Nenhum problema — disse Henrique, por fim, a voz tensa demais pra soar tão casual quanto pretendia. — Vou pedir pro jurídico preparar os documentos sobre sua participação. Nos vemos na sequência. Ele saiu da sala sem olhar pra trás, e a porta se fechou com um som seco que pareceu, de novo, mais alto do que devia. Natasha ficou parada, o bloco ainda na mão, olhando pra porta fechada como se pudesse ver através dela. — Isso foi necessário? — perguntou, sem olhar pra ele. — Ou você só queria irritar ele? — Foi necessário. — Por quê? Caio se levantou, contornou a mesa devagar, parando a uma distância que ainda respeitava algum limite invisível entre os dois. — Porque tem uma coisa que eu preciso te mostrar — disse, a voz mais baixa agora, sem a formalidade de segundos atrás. — E não posso fazer isso com ele por perto. Ela finalmente levantou os olhos pra ele, e Caio viu, pela primeira vez desde que tinha voltado, a exata mistura de medo e curiosidade que sabia que precisava — porque era exatamente essa mistura que ia permitir que ela ouvisse o que vinha a seguir sem fechar a porta na cara dele antes mesmo de terminar. — Que coisa? — perguntou ela, a voz quase um sussurro. Caio tirou do bolso interno do paletó um envelope pequeno, amassado nas bordas de tanto ser carregado de um lugar pro outro nos últimos cinco anos. — A prova de que eu nunca escolhi ir embora — disse. — E de que alguém trabalhou muito duro pra você nunca descobrir isso.
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