CAPÍTULO 8 — Natasha

790 Words
Natasha olhou pro envelope na mão dele como se fosse capaz de morder. — O que é isso? — Abra e você vai ver. Ela não pegou na hora. Ficou parada, os braços cruzados, tentando decidir se queria mesmo saber o que estava guardado ali dentro, ou se preferia continuar vivendo na versão da história que já tinha aprendido a suportar. — Caio, eu tenho uma reunião em quarenta minutos. — Isso não vai levar quarenta minutos. Ela estendeu a mão, finalmente, e pegou o envelope. Estava mais pesado do que parecia, as bordas gastas de tanto ser dobrado e guardado e tirado de novo, como se ele tivesse carregado aquilo com ele pelo mundo inteiro, esperando o momento certo. Abriu. Dentro, três folhas dobradas. Ela reconheceu a letra antes mesmo de terminar de desdobrar a primeira — a letra dele, aquela caligrafia inclinada que ela tinha visto em bilhetes e cartões e anotações de margens de livro cinco anos atrás, numa vida que parecia pertencer a outra pessoa. — Isso é... — Uma cópia. — A voz dele veio baixa. — Rafael guardou os originais em Lisboa. Fiz cópia de tudo antes de voltar, pensando que ia precisar mostrar pra alguém, algum dia. Ela leu a primeira linha. Natasha, se você está lendo isso, significa que finalmente encontrei um jeito de fazer chegar até você. O chão pareceu se mover um pouco debaixo dela. — Quando você escreveu isso? — Sete meses depois de ir embora. Ela continuou lendo, os olhos correndo rápido demais pelas linhas, tentando absorver tudo de uma vez e ao mesmo tempo querendo parar antes de chegar ao fim, porque alguma parte dela já sabia que, depois daquilo, não teria mais como voltar pra versão confortável da história. A carta falava de um endereço em Lisboa. De um telefone. De uma promessa de que, assim que fosse seguro, ele explicaria tudo. Não falava o motivo de ter ido embora — só implorava que ela esperasse, que confiasse, que não acreditasse em nada que ouvisse sobre ele até que pudessem se falar diretamente. — Eu nunca recebi isso — disse ela, a voz mais fraca do que pretendia. — Eu sei. — Como você sabe? Caio deu um passo mais perto, mas parou antes de invadir o espaço dela por completo. — Porque mandei três cartas nos primeiros dois anos, pro mesmo endereço, sempre pelo mesmo método, um contato de confiança que entregava em mãos. E nunca recebi resposta nenhuma. Achei, por muito tempo, que você tinha decidido não responder. Que talvez fosse mais fácil pra você fingir que eu nunca tinha existido. — Eu nunca vi nenhuma carta, Caio. — Eu sei disso agora. Ela olhou pra ele, tentando entender o que estava faltando naquela frase. — Como assim, agora? Caio hesitou, e foi a primeira vez desde que tinha voltado que ela viu alguma coisa parecida com insegurança de verdade atravessar o rosto dele. — Porque descobri, há poucos meses, que meu contato em Lisboa recebeu, numa das viagens dele ao Brasil, uma ligação estranha. Alguém pedindo endereço, dados, confirmando informações sobre onde as cartas estavam sendo enviadas. — Alguém quem? — Não sei ainda. O contato não guardou o número. Só lembra que era uma voz masculina, educada, dizendo que representava a família Alencar e precisava confirmar informações de segurança. O silêncio que se seguiu pesou mais do que qualquer palavra poderia. — Você está dizendo que alguém interceptou suas cartas — disse ela, devagar, como se testando o tamanho da frase antes de deixá-la existir de verdade. — Estou dizendo que é a única explicação que faz sentido. Natasha sentiu as mãos tremerem de novo, segurando o papel como se ele pudesse desmoronar se ela apertasse forte demais. — Quem faria isso? Caio não respondeu na hora. Só olhou pra ela, com uma expressão que dizia mais do que qualquer palavra conseguiria, e ela sentiu o estômago doer antes mesmo de ele abrir a boca de novo. — Eu não tenho prova ainda de quem foi — disse ele, finalmente. — Mas só duas pessoas sabiam exatamente pra onde eu tinha ido e como entrar em contato comigo. Uma era você. — E a outra? A porta da sala se abriu sem aviso. Henrique parou na entrada, os olhos passando rápido do envelope na mão de Natasha pro rosto dela, pra Caio, e de volta pro envelope. — Interrompo alguma coisa? — perguntou, a voz perfeitamente calma, mas os olhos fixos demais no papel pra parecer casual. Natasha fechou a mão sobre a carta instintivamente, escondendo-a contra o peito, e viu, no segundo em que Henrique reparou nesse gesto, alguma coisa mudar completamente na expressão dele. Não era mais curiosidade. Era medo.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD