CAPÍTULO 19 — O Deslize

886 Words
POV: Henrique Ela chegou em casa mais tarde do que o normal, e Henrique sentiu o cheiro de poeira antes mesmo dela passar pela porta — um cheiro fora de lugar, que não combinava com nenhuma reunião de escritório. — Onde você esteve? — perguntou, tentando manter o tom casual. — Trabalhando até tarde. Revisão de contratos antigos. — Que contratos? — Henrique. — Ela passou por ele, indo direto pra cozinha, pegando um copo d'água que não parecia realmente querer. — Foi um dia longo. Não preciso prestar contas de cada minuto. Ele a seguiu, parando na entrada da cozinha, observando cada gesto dela com uma atenção que já não conseguia disfarçar completamente. — Revisão de que tipo de contratos? — insistiu. — Do departamento financeiro. Coisa chata, burocrática. Era mentira. Ele sabia que era mentira pela forma como ela evitava o olhar dele, pela forma como as mãos seguravam o copo com força demais pra ser um gesto natural. — Você sabe — disse ele, a voz mais baixa, mais calculada —, tem uma coisa engraçada. O sistema de segurança do prédio registra acesso por andar. E hoje, às sete da noite, teve um acesso ao arquivo morto usando um crachá temporário de consultoria. Natasha congelou, só por um segundo, mas o suficiente pra ele confirmar tudo que precisava saber. — Não sei do que você está falando. — Não sabe mesmo? — Henrique, se você está me acusando de alguma coisa, seja direto. Ele deu um passo mais perto, a fachada de calma começando a rachar nas bordas. — Estou perguntando por que minha esposa passou a noite inteira revirando documentos de cinco anos atrás, junto com um crachá temporário que, coincidentemente, foi liberado no mesmo dia em que meu irmão apareceu com uma consultoria fantasma. O silêncio dela durou tempo demais. — Eu estava investigando — disse, finalmente, a voz firme apesar de tudo. — Porque tenho todo o direito de saber a verdade sobre o que aconteceu há cinco anos. — Que verdade, Natasha? — A verdade sobre por que Caio foi embora. Sobre quem realmente é o responsável pelo que aconteceu. Henrique sentiu o sangue gelar, mas manteve a expressão o mais controlada que conseguiu. — E o que você encontrou nesse arquivo, exatamente? — Documentos. Memorandos. Coisas que não fecham com a história que todo mundo sempre me contou. — Documentos podem significar qualquer coisa fora de contexto. — Ou podem significar exatamente o que parecem significar. — A voz dela ganhou uma força que ele não estava acostumado a ouvir. — Um memorando pedindo revisão urgente de assinaturas, duas semanas antes de Caio desaparecer. Uma discrepância nos valores que ninguém nunca me explicou. Você sabe alguma coisa sobre isso? Ele sentiu o próprio pulso acelerar, cada palavra dela batendo como um martelo em algum lugar do peito. — Eu não sei do que você está falando — disse, tentando manter a voz firme. — Tem certeza? — Absoluta. Ela o encarou por um longo momento, e Henrique viu, pela primeira vez desde que se conheciam, alguma coisa parecida com desprezo atravessar o rosto dela. — Sabe o que é estranho, Henrique? — disse, finalmente. — Você é sempre tão calmo. Tão controlado. Nunca fica nervoso, nunca perde a compostura, nem quando eu chego em casa te acusando indiretamente de coisas terríveis. — Ela deu um passo pra trás, olhando pra ele como se o visse pela primeira vez. — Um homem inocente ficaria indignado. Você só fica... cauteloso. O comentário atingiu exatamente onde doía, e ele sentiu, pela primeira vez, que não sabia mais qual expressão usar pra parecer natural. — Estou cansado, Natasha. Foi um dia longo pra mim também. — Tenho certeza que foi. Ela saiu da cozinha sem esperar resposta, e Henrique ficou parado, sozinho, o coração batendo um ritmo que ele não sentia fazia anos. *Um memorando pedindo revisão urgente de assinaturas.* Ele lembrava daquele memorando. Tinha certeza de ter destruído todas as cópias, cinco anos atrás, num momento de pânico controlado que ele achava ter resolvido de vez. Se existia uma cópia no arquivo morto, significava que tinha cometido um erro — um erro pequeno, esquecido, que agora ameaçava desmoronar tudo que ele tinha construído com tanto cuidado. Pegou o celular, discou pro advogado-chefe da empresa. — Preciso que você revise o protocolo de acesso ao arquivo morto — disse, assim que a chamada foi atendida. — E preciso saber exatamente quais documentos foram consultados nas últimas semanas. — Isso não é um pouco extremo, Henrique? É meia-noite. — Faça isso amanhã de manhã, primeira coisa. — A voz dele saiu mais dura do que pretendia. — E depois quero uma reunião pra discutir a possibilidade de digitalizar e depois destruir os originais de documentos anteriores a dez anos. Por questões de espaço. Do outro lado da linha, o advogado ficou em silêncio por um momento, claramente desconfiado da urgência repentina. — Vou providenciar — disse, finalmente. Henrique desligou, ficou parado na cozinha vazia, sentindo pela primeira vez que o tempo tinha começado a correr contra ele de um jeito que nenhuma calma calculada seria suficiente pra deter. Precisava daqueles documentos fora de circulação. E precisava rápido, antes que Natasha ou Caio encontrassem mais peças do que ele já tinha perdido controle.
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