Natasha soube que alguma coisa estava errada assim que viu o e-mail circular chegando na caixa de entrada, às oito da manhã, assinado pelo departamento jurídico.
Assunto: Digitalização e descarte de documentos — Arquivo Morto (documentos anteriores a 10 anos)
Ela abriu o e-mail com o estômago já apertado, lendo rápido. O comunicado informava que, por questões de espaço e otimização, todo o acervo físico anterior a dez anos seria digitalizado nas próximas duas semanas, e os originais, descartados. O processo começaria imediatamente, segundo ordem direta da presidência.
Ordem direta da presidência.
Ela sentiu o sangue gelar. Não era coincidência. Não podia ser.
Pegou o celular, ligou pra Caio sem pensar duas vezes.
— Ele sabe — disse, assim que a chamada foi atendida.
— O quê?
— Henrique. Ele mandou destruir os documentos do arquivo morto. Digitalização e descarte, começando hoje.
Do outro lado da linha, Caio ficou em silêncio por um segundo longo demais.
— Ele descobriu que estivemos lá.
— Deve ter descoberto pelo sistema de acesso. — Ela já estava de pé, pegando a bolsa, o coração acelerado. — Se ele destruir os originais antes de a gente conseguir cópias completas, perdemos qualquer prova física que ainda não fotografamos.
— Quanto tempo a gente tem?
— O e-mail diz que o processo começa imediatamente. Não sei se isso significa hoje de manhã ou hoje à noite.
— Vou pra aí agora.
— Caio, se você aparecer no arquivo morto de novo, vai ser óbvio demais. Henrique está vigiando tudo.
— Então o que você sugere?
Ela pensou rápido, o cérebro correndo mais rápido do que conseguia processar direito.
— Eu vou. Sozinha. Tenho acesso legítimo como diretora, não preciso de crachá temporário nem de justificativa. Vou fotografar tudo que encontrar antes que o descarte comece.
— Isso é arriscado.
— Mais arriscado que perder as provas de vez?
Caio não respondeu na hora, e ela soube, pelo silêncio, que ele também não tinha uma resposta melhor.
— Tudo bem — disse ele, finalmente. — Mas me liga a cada vinte minutos. Se você parar de responder, vou até aí, não importa o risco.
— Combinado.
Ela desligou, guardou o celular no bolso, e desceu direto pro subsolo, o coração martelando um ritmo que não desacelerava.
O arquivo estava diferente daquela noite — luzes mais fortes, algumas caixas já empilhadas perto da entrada, um funcionário terceirizado circulando com uma prancheta, catalogando o que seria digitalizado primeiro.
— Bom dia — disse ela, tentando soar casual. — Preciso verificar alguns documentos antes que sejam recolhidos.
O funcionário olhou pro crachá dela, assentiu sem questionar, e voltou ao próprio trabalho.
Ela caminhou até a fileira certa, o coração afundando quando viu que a caixa específica — a que continha o memorando, os documentos que ela e Caio tinham revisado — já estava marcada com uma etiqueta laranja.
Prioridade de digitalização.
Ela abriu a caixa com as mãos tremendo, tirou o celular do bolso, e começou a fotografar cada documento, rápido, sem tempo de ler com calma, só registrando cada página antes que pudesse desaparecer pra sempre.
O memorando da revisão urgente de assinaturas. O e-mail sobre a discrepância nos valores. A planilha com os números que não fechavam. Página por página, ela fotografava, o polegar batendo na tela do celular num ritmo quase desesperado.
— Precisa de ajuda com alguma coisa? — perguntou o funcionário, se aproximando, provavelmente notando a pressa incomum dela.
— Não, obrigada. Só preciso revisar antes do descarte. Rotina.
Ele assentiu, mas ficou por perto, o que só aumentou a pressão dela. Continuou fotografando, mais rápido, tentando não deixar transparecer o quanto as mãos tremiam.
O celular vibrou. Caio.
Tudo bem aí?
Fotografando tudo. Quase terminando, respondeu, rápido, sem parar de trabalhar.
Terminou a caixa em vinte minutos, o celular cheio de fotos, o coração ainda acelerado. Fechou a caixa de volta, exatamente como tinha encontrado, e se afastou antes que o funcionário pudesse notar qualquer coisa fora do comum.
No corredor, já perto do elevador, ligou pra Caio de novo.
— Consegui — disse, a voz ainda tremendo de adrenalina. — Fotografei tudo que a gente já tinha visto, e mais alguns documentos que não tínhamos revisado ainda.
— Você está bem?
— Estou. Só... assustada com o quanto ele estava disposto a ir longe pra esconder isso.
— Bem-vinda ao motivo de eu ter passado cinco anos com medo de voltar.
O comentário, mesmo dito com um tom quase de brincadeira, pesou entre eles.
— Preciso mandar essas fotos pro Rafael o mais rápido possível — disse ela. — Antes que aconteça alguma coisa com meu celular também.
— Manda agora. Por um canal seguro, se possível.
— Não sei fazer isso.
— Eu te ensino. Me encontra em algum lugar que a gente possa conversar sem risco.
Ela hesitou, olhando pro corredor vazio, sentindo o peso de tudo que tinha acabado de fazer.
— Vou pra minha sala primeiro. Preciso parecer normal pelo resto do dia, senão Henrique vai desconfiar ainda mais.
— Tudo bem. Me avisa quando puder.
Ela desligou, entrou no elevador, e ficou olhando pro próprio reflexo no metal polido da porta — uma mulher que, três semanas atrás, jamais teria imaginado se ver correndo pra proteger provas contra o próprio marido, escondendo mentiras dele com a mesma facilidade calculada que ela tinha aprendido a reconhecer nele.
Nós dois estamos mentindo agora, pensou, o pensamento gelando alguma coisa dentro dela. A diferença é que eu ainda não sei se estou mentindo pra proteger a verdade, ou só pra sobreviver mais um dia dentro dessa casa.
O elevador chegou ao andar dela, a porta se abriu, e Natasha saiu, ajeitando a postura, preparando o rosto pra mais um dia inteiro fingindo que sua vida não estava, peça por peça, desmoronando.