POV: Natasha
Ela não dormiu no quarto de hóspedes por acaso.
Ficou deitada, olhando pro teto, a mesma cena se repetindo na cabeça: a calma perfeita de Henrique, aquela paciência que ela sempre tinha admirado e que agora, de repente, parecia armada demais pra ser genuína.
Ninguém é tão perfeito assim sem motivo.
Ela tinha dito aquilo em voz alta sem planejar, mas quanto mais repetia a frase na cabeça, mais ela fazia sentido.
De manhã, ainda exausta, recebeu uma mensagem de Caio.
Preciso da sua ajuda com uma coisa. Documentos antigos, do período que fechamos aquele negócio internacional. Só você tem acesso ao arquivo morto da empresa nesse nível.
Ela ficou olhando pra mensagem por um longo tempo, o polegar suspenso sobre a tela, sem saber o que responder.
Ajudar Caio significava, de forma direta, agir contra o próprio marido. Significava escolher um lado antes mesmo de ter certeza absoluta de qual lado era o certo. Significava, também, admitir pra si mesma que já não confiava mais em Henrique o suficiente pra dar a ele o benefício da dúvida.
Não posso, digitou, e apagou.
Preciso pensar, digitou, e apagou de novo.
No fim, escreveu só: Me encontra no café perto do escritório. Meio-dia.
Chegou primeiro, como sempre. Escolheu uma mesa no fundo, longe da janela, longe de olhares que pudessem reconhecer o sobrenome Alencar boiando por ali.
Caio chegou cinco minutos depois, sentou na frente dela, e por um momento nenhum dos dois disse nada.
— Eu preciso entender uma coisa antes de te ajudar — começou ela, finalmente. — Se eu acessar esses documentos, se eu ajudar você a provar o que está insinuando sobre Henrique, isso não tem volta. Eu não posso desfazer depois.
— Eu sei.
— E se, no fim, a prova apontar pra você? Se for você quem cometeu a fraude, e não ele?
Caio não desviou o olhar.
— Então você vai descobrir a verdade sobre mim também. E vai ter todo o direito de me odiar por isso.
Ela apreciou a resposta, mesmo sem querer. Não era o que um culpado diria — ou talvez fosse exatamente o que um culpado inteligente diria, ela já não sabia mais em quem confiar nem os próprios instintos.
— Por que eu, Caio? Você tem o Rafael, tem recursos, tem cinco anos de investigação por trás. Por que precisa especificamente da minha ajuda agora?
— Porque o arquivo morto tem um sistema de segurança que só libera acesso pra diretores com nível institucional. — Ele deu de ombros, um gesto quase honesto demais. — E porque, sendo sincero, eu não queria fazer isso sem você saber. Não queria investigar as costas de Henrique usando você como ferramenta sem que você soubesse exatamente o que estava fazendo.
— Isso é consideração ou manipulação disfarçada de consideração?
Ele sorriu, sem humor, mas com alguma coisa parecida com respeito.
— Talvez os dois. Eu não sei mais separar completamente as coisas quando se trata de você.
Natasha mexeu no café que não tinha tocado, os pensamentos girando rápido demais pra organizar em frases inteiras.
— Se eu fizer isso — disse, finalmente —, quero acesso a tudo que você e o Rafael já descobriram até agora. Não quero mais pedaços. Quero o quadro completo, mesmo que doa.
— Combinado.
— E preciso de tempo pra decidir como faço isso sem levantar suspeita. Henrique está vigiando tudo agora. Sinto isso.
— Ele já suspeita que alguém está investigando?
— Ele suspeita de alguma coisa. Não sei se sabe exatamente o quê.
Caio ficou em silêncio por um momento, os dedos batendo de leve na mesa, um gesto de quem calculava riscos.
— Então precisamos ser cuidadosos. — Ele olhou pra ela, direto. — Natasha, eu preciso que você entenda uma coisa: a partir do momento que você entrar nesse arquivo, não existe mais volta segura. Se Henrique descobrir, ele vai saber que você escolheu duvidar dele. E pessoas desesperadas fazem coisas que pessoas calmas nunca fariam.
O aviso pairou entre eles, mais pesado do que ela esperava.
— Você está me dizendo pra ter medo dele?
— Estou te dizendo pra ter cuidado. — A voz dele suavizou. — Eu não sei do que ele é capaz até esse ponto. Só sei que um homem que passou cinco anos escondendo uma fraude não vai ficar parado assistindo tudo desmoronar sem lutar.
Ela sentiu um arrepio que não tinha nada a ver com o ar-condicionado do café.
— Vou fazer isso mesmo assim — disse, por fim. — Não porque confio cegamente em você. Mas porque não consigo mais viver fingindo que não quero saber a verdade.
Caio assentiu, devagar, o alívio misturado com alguma coisa mais pesado no rosto dele — como se soubesse que tinha acabado de puxar Natasha pra um caminho que podia custar muito mais do que qualquer um dos dois estava preparado pra pagar.
— Obrigado — disse, simplesmente.
— Não me agradeça ainda. — Ela se levantou, pegando a bolsa. — Ainda não sei se vou encontrar a verdade que você espera, ou uma verdade que vai destruir os dois lados dessa história.
Saiu do café antes que ele pudesse responder, o coração batendo forte com a certeza de que tinha acabado de cruzar uma linha que não tinha mais como desfazer.
No caminho de volta pro escritório, o celular vibrou. Henrique.
Onde você foi no almoço? Tentei te ligar.
Ela olhou pra mensagem por um longo momento, sentindo pela primeira vez o peso real da mentira que precisava começar a contar.
Reunião rápida com fornecedor. Já estou voltando.
Guardou o celular, respirou fundo, e continuou andando, sabendo que aquela era só a primeira de muitas mentiras que precisaria contar antes de descobrir a verdade inteira.