Henrique chegou ao escritório antes das sete, quando o andar corporativo ainda estava vazio o suficiente pra ele pensar direito.
Precisava disso. Pensar direito.
A reunião com Caio estava marcada pras dez, mas ele já tinha ligado pra três pessoas antes mesmo do café passar: o advogado-chefe da empresa, a diretora de comunicação, e por último, óbvio, Fernanda.
— Ele vai chegar com advogado? — perguntou ela, entrando na sala sem bater, como sempre fazia.
— Não sei. Provavelmente.
— E você está preparado pro que ele pode trazer?
Henrique olhou pra pasta em cima da mesa, os documentos que tinha revisado três vezes já naquela manhã. Nada ali provava nada. Era só o que ele precisava — que continuasse sendo assim.
— Ele não tem nada concreto — falou, mais pra si mesmo do que pra ela. — Se tivesse, já teria usado ontem, na frente de todo mundo.
— A menos que ele esteja guardando pra usar do jeito certo.
Fernanda sentou na cadeira do outro lado da mesa, cruzando as pernas com aquela calma que ele nunca entendeu direito se era genuína ou treinada.
— Você conhece seu irmão melhor que eu — continuou ela. — Ele é do tipo que joga rápido ou do tipo que espera a hora certa?
— Espera. — Henrique não hesitou nessa resposta. — Sempre foi assim. Enquanto eu agia, ele calculava.
— Isso te preocupa.
— Isso me deixa alerta. É diferente.
Ela sorriu, um sorriso pequeno que não chegava aos olhos.
— Tudo bem, então. Vamos deixar ele calcular. Enquanto isso, a gente controla o que ele tem pra calcular em cima.
Henrique se levantou, foi até a janela. Lá embaixo, São Paulo já engasgava de trânsito, gente correndo pra trabalhar sem fazer ideia de que uma guerra silenciosa estava prestes a começar sessenta andares acima das cabeças delas.
— Chamei o advogado pra reunião — disse ele. — E pedi pra comunicação preparar um comunicado neutro, caso alguém da imprensa pergunte sobre a "reaproximação" dos irmãos Alencar.
— Reaproximação. — Fernanda repetiu a palavra como se estivesse testando o gosto dela. — Bonito. Ninguém vai desconfiar de nada com uma palavra dessas.
— É pra isso que ela existe.
— E a Natasha?
A pergunta veio solta, mas ele sentiu o peso dela do mesmo jeito.
— O que tem ela?
— Você vai deixar ela na reunião?
Henrique pensou por um segundo. Natasha tinha cargo suficiente pra estar ali por direito — era diretora de relações institucionais, tecnicamente aquela reunião dizia respeito a ela também. Excluí-la seria estranho. Suspeito, até.
— Vou.
— Tem certeza?
— Se eu tirar ela da sala, pareço um homem com medo do que o irmão pode dizer na frente dela. — Ele se virou, encarando Fernanda. — Eu não tenho medo de nada que ele possa dizer.
— Só do que ele pode provar.
O silêncio que se seguiu durou um segundo a mais do que devia.
— Ele não tem provas — repetiu Henrique, mais firme dessa vez, como se dizer em voz alta fizesse a frase mais verdadeira.
Fernanda se levantou, ajeitou a saia do tailleur, e foi até a porta. Parou antes de sair.
— Você sabe que eu estou do seu lado, né?
— Sei.
— Então deixa eu te dizer uma coisa, do seu lado. — Ela olhou pra ele por cima do ombro. — Homem nenhum atravessa o mundo, monta um plano de cinco anos, e aparece numa festa sem avisar só pra "reconectar com a família". Ele quer alguma coisa. E o jeito como ele olhou pra Natasha ontem não tinha nada de irmão perdido voltando pra casa.
Ela saiu antes que ele pudesse responder, deixando a porta entreaberta e a frase suspensa no ar da sala.
Henrique ficou parado, sozinho, olhando pra pasta em cima da mesa. Abriu de novo, revisou pela quarta vez os poucos documentos que tinha preparado, tentando enxergar neles alguma brecha que Caio pudesse usar.
Não achou nenhuma. Não porque não existisse — mas porque a brecha real não estava naqueles papéis. Estava nos originais, guardados num cofre que só ele sabia onde ficava, longe até dos olhos de Fernanda.
Bateram na porta.
— Senhor Alencar. — A secretária enfiou a cabeça, hesitante. — O senhor Caio Alencar chegou.
Henrique olhou pro relógio. Oito e quarenta.
Uma hora e vinte minutos antes do combinado.
— Ele está sozinho? — perguntou, já sentindo o controle da manhã escapar entre os dedos.
— Não, senhor. — A secretária baixou um pouco a voz. — Ele está com a senhora Natasha. Encontraram no elevador.
Henrique sentiu o peito apertar de um jeito que não conseguiu entender na hora.
— Mande os dois entrarem.
A secretária saiu, e Henrique teve exatamente o tempo de fechar a pasta em cima da mesa antes que a porta se abrisse de novo — dessa vez com Caio e Natasha entrando juntos, os dois em silêncio, os dois com a expressão de quem tinha acabado de compartilhar alguma coisa que ele não tinha sido convidado a ouvir.