CAPÍTULO 6 — Natasha

735 Words
Vinte minutos antes, Natasha nem sabia que ia entrar naquele elevador com ele. Chegou cedo, como sempre — hábito de anos, chegar antes de qualquer reunião importante pra revisar os documentos, alinhar a postura, decidir com antecedência qual versão de si mesma o dia ia exigir. Estava ainda no saguão do térreo, checando o celular, quando ouviu a voz atrás dela. — Achei que ia te encontrar aqui. Ela se virou. Caio estava parado a um metro de distância, terno cinza-escuro, as mãos nos bolsos, com aquele jeito de quem media cada palavra antes de soltar. — Você tinha certeza? — Tinha esperança. O elevador chegou antes que ela conseguisse responder. Entraram juntos, sozinhos, e a porta se fechou com aquele som seco que, naquele momento, pareceu mais alto do que devia. Sessenta andares. Tempo demais pra ficar em silêncio, tempo de menos pra dizer tudo o que precisava. — Ontem eu não consegui falar com você — disse ele, os olhos fixos no painel de números subindo. — Henrique chegou primeiro. — Eu sei. Ela sentiu o corpo inteiro tenso, cada músculo alerta como se estivesse esperando alguma coisa acontecer, sem saber exatamente o quê. — Por que você voltou, Caio? A pergunta saiu mais direta do que ela planejou. Ele finalmente olhou pra ela, e havia alguma coisa no rosto dele que ela não conseguia decifrar — não era arrependimento puro, nem raiva, nem nenhuma das emoções fáceis que ela tinha imaginado nos últimos cinco anos, nas noites em que ainda permitia a si mesma imaginar. — Porque tem coisa que eu preciso que você saiba. — A voz dele veio baixa, quase perdida no zumbido do elevador. — E porque eu não aguentava mais viver sem tentar. O elevador passou do andar vinte. Ela sentiu o estômago revirar, e não sabia dizer se era da velocidade ou dele. — Você sumiu por cinco anos — disse ela, a voz mais dura do que pretendia. — Sem uma carta. Sem uma ligação. Sem nada. — Eu escrevi. Ela travou. — O quê? — Eu escrevi, Natasha. Nos primeiros dois anos, escrevi mais de uma vez. — Eu nunca recebi nada. Caio a olhou por um segundo longo demais, e nesse segundo ela viu alguma coisa se quebrar atrás dos olhos dele — não surpresa exatamente, mas confirmação de algo que ele já suspeitava e não queria confirmar. O elevador chegou ao andar sessenta com um leve solavanco. — A gente precisa conversar — disse ele, rápido, baixo, a porta já começando a se abrir. — Em particular. Não aqui. Ela não teve tempo de responder. A porta se abriu completamente, revelando o saguão do andar corporativo, a secretária de Henrique já de pé, alarmada com a chegada antecipada dos dois. — Senhor Alencar, a reunião ainda não... — começou. — Nós sabemos — disse Caio, calmo, já recompondo a postura de negócios que Natasha reconhecia de qualquer sala de reunião. — Mas achamos melhor chegar cedo. Natasha caminhou ao lado dele até a porta da sala, o coração ainda martelando com a frase que ele tinha soltado no elevador. Eu escrevi. Duas palavras que, se fossem verdade, desmontavam cinco anos inteiros da história que ela tinha construído pra sobreviver. A porta se abriu. Henrique estava do outro lado da mesa, a expressão controlada rachando por uma fração de segundo antes de se recompor completamente. — Vocês chegaram juntos — disse ele, num tom que tentava soar leve e não conseguia. — Encontramos no elevador — respondeu Caio, sentando sem esperar convite. Natasha ficou parada por um instante, olhando pros dois irmãos se encarando através da mesa, e sentiu, pela primeira vez em cinco anos, que estava prestes a descobrir uma verdade que ia doer mais do que qualquer abandono que ela achava ter sofrido. — Podemos começar? — perguntou Henrique, a voz recuperando o controle. — Podemos — disse Caio, os olhos passando rapidamente por Natasha antes de voltar pro irmão. — Tenho bastante coisa pra discutir. Ela sentou na cadeira ao lado da mesa, entre os dois, exatamente onde não queria estar, e abriu o bloco de notas sem realmente enxergar a página em branco. Eu escrevi. A frase continuava ecoando, e ela sabia, com uma certeza fria que se instalava devagar no peito, que aquela reunião não ia ser sobre ações da empresa. Ia ser o começo de tudo desmoronar.
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