Vinte minutos antes, Natasha nem sabia que ia entrar naquele elevador com ele.
Chegou cedo, como sempre — hábito de anos, chegar antes de qualquer reunião importante pra revisar os documentos, alinhar a postura, decidir com antecedência qual versão de si mesma o dia ia exigir. Estava ainda no saguão do térreo, checando o celular, quando ouviu a voz atrás dela.
— Achei que ia te encontrar aqui.
Ela se virou. Caio estava parado a um metro de distância, terno cinza-escuro, as mãos nos bolsos, com aquele jeito de quem media cada palavra antes de soltar.
— Você tinha certeza?
— Tinha esperança.
O elevador chegou antes que ela conseguisse responder. Entraram juntos, sozinhos, e a porta se fechou com aquele som seco que, naquele momento, pareceu mais alto do que devia.
Sessenta andares. Tempo demais pra ficar em silêncio, tempo de menos pra dizer tudo o que precisava.
— Ontem eu não consegui falar com você — disse ele, os olhos fixos no painel de números subindo.
— Henrique chegou primeiro.
— Eu sei.
Ela sentiu o corpo inteiro tenso, cada músculo alerta como se estivesse esperando alguma coisa acontecer, sem saber exatamente o quê.
— Por que você voltou, Caio?
A pergunta saiu mais direta do que ela planejou. Ele finalmente olhou pra ela, e havia alguma coisa no rosto dele que ela não conseguia decifrar — não era arrependimento puro, nem raiva, nem nenhuma das emoções fáceis que ela tinha imaginado nos últimos cinco anos, nas noites em que ainda permitia a si mesma imaginar.
— Porque tem coisa que eu preciso que você saiba. — A voz dele veio baixa, quase perdida no zumbido do elevador. — E porque eu não aguentava mais viver sem tentar.
O elevador passou do andar vinte. Ela sentiu o estômago revirar, e não sabia dizer se era da velocidade ou dele.
— Você sumiu por cinco anos — disse ela, a voz mais dura do que pretendia. — Sem uma carta. Sem uma ligação. Sem nada.
— Eu escrevi.
Ela travou.
— O quê?
— Eu escrevi, Natasha. Nos primeiros dois anos, escrevi mais de uma vez.
— Eu nunca recebi nada.
Caio a olhou por um segundo longo demais, e nesse segundo ela viu alguma coisa se quebrar atrás dos olhos dele — não surpresa exatamente, mas confirmação de algo que ele já suspeitava e não queria confirmar.
O elevador chegou ao andar sessenta com um leve solavanco.
— A gente precisa conversar — disse ele, rápido, baixo, a porta já começando a se abrir. — Em particular. Não aqui.
Ela não teve tempo de responder. A porta se abriu completamente, revelando o saguão do andar corporativo, a secretária de Henrique já de pé, alarmada com a chegada antecipada dos dois.
— Senhor Alencar, a reunião ainda não... — começou.
— Nós sabemos — disse Caio, calmo, já recompondo a postura de negócios que Natasha reconhecia de qualquer sala de reunião. — Mas achamos melhor chegar cedo.
Natasha caminhou ao lado dele até a porta da sala, o coração ainda martelando com a frase que ele tinha soltado no elevador. Eu escrevi. Duas palavras que, se fossem verdade, desmontavam cinco anos inteiros da história que ela tinha construído pra sobreviver.
A porta se abriu. Henrique estava do outro lado da mesa, a expressão controlada rachando por uma fração de segundo antes de se recompor completamente.
— Vocês chegaram juntos — disse ele, num tom que tentava soar leve e não conseguia.
— Encontramos no elevador — respondeu Caio, sentando sem esperar convite.
Natasha ficou parada por um instante, olhando pros dois irmãos se encarando através da mesa, e sentiu, pela primeira vez em cinco anos, que estava prestes a descobrir uma verdade que ia doer mais do que qualquer abandono que ela achava ter sofrido.
— Podemos começar? — perguntou Henrique, a voz recuperando o controle.
— Podemos — disse Caio, os olhos passando rapidamente por Natasha antes de voltar pro irmão. — Tenho bastante coisa pra discutir.
Ela sentou na cadeira ao lado da mesa, entre os dois, exatamente onde não queria estar, e abriu o bloco de notas sem realmente enxergar a página em branco.
Eu escrevi.
A frase continuava ecoando, e ela sabia, com uma certeza fria que se instalava devagar no peito, que aquela reunião não ia ser sobre ações da empresa.
Ia ser o começo de tudo desmoronar.