Ela encontrou Caio num café diferente do primeiro, mais discreto, longe de qualquer rota que os dois costumavam cruzar no dia a dia da empresa.
— Trouxe o celular? — perguntou ele, assim que ela sentou.
— Trouxe. Mas não sei como fazer isso de um jeito seguro.
Caio pegou o próprio celular, abriu um aplicativo que ela não reconhecia, e explicou, rápido e didático, como criar uma pasta criptografada, como enviar os arquivos sem deixar rastro fácil de rastrear, como apagar o histórico de envio depois.
— Rafael que ensinou isso a você? — perguntou ela, seguindo as instruções.
— Rafael que aprendeu por necessidade, depois de perceber que os dois primeiros anos ele quase foi rastreado por gente que Henrique contratou pra descobrir onde eu estava.
Ela parou, o polegar suspenso sobre a tela.
— Henrique contratou gente pra te rastrear?
— Contratou, sim. Descobrimos isso há uns dois anos, através de um contato que trabalhava numa dessas empresas de investigação. — Caio deu de ombros, o gesto tentando parecer casual, mas os olhos revelando o peso da informação. — Foi aí que Rafael ficou paranoico com segurança digital. Com razão, aparentemente.
Natasha terminou de enviar as fotos, o coração ainda batendo mais rápido do que gostaria mesmo com o processo concluído.
— Prontas — disse. — O Rafael já pode ver.
— Vou avisar ele pra começar a analisar hoje mesmo.
Ela guardou o celular, encostou na cadeira, sentindo o peso acumulado dos últimos dias finalmente cobrar o preço em cansaço puro.
— Caio, eu preciso te perguntar uma coisa, e preciso de uma resposta honesta.
— Pode perguntar.
— Até onde isso vai? — Ela olhou pra ele, direto. — Quero dizer, mesmo que a gente prove tudo, mesmo que Henrique seja exposto por completo... o que acontece depois? Você quer o quê exatamente? Recuperar a empresa? Vingança? Ou você só quer a verdade posta, sem se importar com as consequências?
Caio ficou em silêncio por um momento, os dedos batendo de leve na xícara de café intocada.
— Sinceramente, não sei mais separar essas coisas — disse, finalmente. — No começo, era só sobrevivência. Depois virou justiça. Agora... — Ele hesitou. — Agora eu acho que só quero que você saiba a verdade inteira, e que você tenha o direito de escolher sua própria vida com essa verdade em mãos, em vez de continuar presa numa mentira que nem sabia que estava vivendo.
— E a empresa? As ações?
— A empresa importa. Mas importa menos do que eu imaginava antes de voltar.
Ela sentiu o peito apertar com a sinceridade da resposta, mas forçou a mente de volta pro assunto prático, porque era mais fácil lidar com estratégia do que com sentimento naquele momento.
— Henrique está desesperado — disse ela. — Ontem, quando confrontei ele sobre os documentos, vi algo que nunca tinha visto antes. Medo de verdade, por trás de toda aquela calma.
— Isso é bom ou r**m?
— As duas coisas. Bom, porque significa que estamos perto de alguma coisa real. r**m, porque homem desesperado faz coisas imprevisíveis.
Caio assentiu, a expressão séria.
— Rafael sempre dizia isso. Que a parte mais perigosa não seria descobrir a verdade, mas o momento em que Henrique percebesse que estava prestes a perder tudo.
— Você acha que ele seria capaz de quê, exatamente?
— Não sei. — A resposta veio honesta, sem tentar suavizar. — Mas prefiro que a gente esteja preparado pro pior do que surpreendido por ele.
Ela ficou em silêncio, absorvendo aquilo, sentindo o peso da própria vida balançando entre duas versões completamente diferentes de futuro.
— Preciso voltar — disse, finalmente, olhando pro relógio. — Se eu demorar muito, ele vai perguntar onde estive de novo.
— Natasha.
— O quê?
Caio hesitou, como se estivesse decidindo se a próxima frase valia o risco de ser dita.
— Se as coisas ficarem perigosas de verdade — disse, finalmente —, eu preciso que você me prometa uma coisa. Que você vai me avisar. Que você não vai tentar proteger a mim, ou proteger a verdade, escondendo de mim que está em perigo.
Ela sentiu alguma coisa apertar no peito, um misto de gratidão e medo pela seriedade daquele pedido.
— Prometo.
— Prometa mesmo.
— Caio, eu prometo. — Ela se levantou, pegando a bolsa, mas parou antes de sair, olhando pra ele por um momento longo demais. — Você também precisa se cuidar. Henrique já mostrou que é capaz de coisas que eu nunca imaginei antes dessa semana.
— Vou me cuidar.
Ela saiu do café antes que a despedida se estendesse demais, sabendo que quanto mais tempo passava perto dele, mais difícil ficava lembrar exatamente por que precisava manter distância.
No caminho de volta ao escritório, o celular vibrou. Um número desconhecido.
Ela hesitou antes de atender.
— Alô?
— Natasha Almeida? — A voz do outro lado era masculina, desconhecida, tensa.
— Quem fala?
— Meu nome é Marcelo. Acho que você precisa saber de uma coisa sobre o seu marido antes que seja tarde demais.
Ela parou no meio da calçada, o coração acelerando de um jeito completamente novo.
— Como conseguiu meu número?
— Isso não importa agora. — A voz dele veio mais rápida, mais nervosa. — Importa que eu sei coisas sobre o que aconteceu há cinco anos, e Henrique está desesperado o suficiente pra fazer qualquer coisa pra me calar. Preciso falar com você. Pessoalmente, e rápido.